Sentar com a dor

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Como é que podemos seguir quando a outra pessoa nos fica? Quando o nosso coração parece compartimentado por outras histórias, outros amores? Como podemos partir e deixar tudo isso para trás? Como podemos seguir? Deixar de sentir, deixar de pensar, ultrapassar?

Não é possível.

Não é possível seguir. Só é possível parar. Absorver. Sentir. Sentir a dor da partida, a dor da chegada que não pôde ficar. Chorar a perda, a dor, o não poder ficar, o outro, nós. Não podermos ficar. Não poder ser.

Não lidamos bem com a perda nem com a dor. A dor parece que nos fica para sempre, que nos cola, nos envolve, como uma luva amiga. Como um companheiro que não pôde ficar, como uma companhia que conhecemos bem demais, que não conseguimos largar.

A essa dor, o que lhe fazemos? Como a choramos quando todas as lágrimas já foram vertidas? Como lidar, superar, ultrapassar, quando só o que nos apetece é ficar? E sentir aquilo tudo que não quer sair? Quando a culpa de não termos conseguido nos persegue?

Como seguir? Como parar? Como sentir o que não queremos mais sentir? Como não sentir o que estamos a sentir?

Sentimentos são como uma teia que nos prende, que nos envolve, a nós e a outros que habitam no nosso imaginário. O outro que nos fica é apenas uma faceta nossa. Nem é o outro, somos nós que fomos representados, apanhados pelo outro. O outro é apenas um polaróide que nos fica de um sentimento ou emoção nossa.

E olhamos, olhamos para esse polaróide. O que nos diz? O que não diz? Quando já tentámos rasgar, queimar, cortar, pintar por cima, e nada funciona? Guardamos na caixa de memórias, mas volta e meia esse polaróide volta à nossa mente, e tudo volta acima novamente.

Há que rever a história, dar-lhe um novo final. Reviver não é a solução, o desfecho não vai mudar. Há que dizer: “Ok, fizeste parte de mim. Reconheço-te, estou aqui. Vejo-te. És uma parte querida minha, não vou mais rejeitar-te e remeter-te às minhas sombras onde só arde o medo e a dor. Que me perdoem todos o que não pude amar, todos onde não pude ficar.”

A dor pode ser transformada em amor, em compreensão, consciência e integração. Não conheço outro caminho. É dizer: “Aceito-te. Vejo-te. Honro-te. Estou aqui.” Sentando assim com a dor, ela é como um lume que queima até ficar brandinho e apagar por completo. Como uma criança que chora até adormecer. Assim é a dor. Como todas as emoções, quer apenas ser vista e validada, integrada. Esse é o caminho.

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