O céu e a terra. O bom e o mau

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E no princípio tudo era luz, tudo era bom, tudo era perfeição. Havia Deus e havia anjos. Até que um anjo se rebelou e se tornou, por oposição, um demónio: o primeiro anjo caído. O que quer dizer que antes de sermos maus, antes somos bons. Ou seja, a base é o bem, a luz, a pureza. O que nos torna maus é, no fundo, o que nos acontece, ou como reagimos ao que nos acontece. Esta é uma história de bom e de mau, de anjos e demónios, e de tudo o que nos quebra e nos faz estar em pólos opostos daquilo que é uma e só coisa: o equilíbrio entre os dois.

Pensando bem nisto, há em todos nós algo de bom e algo de menos bom. O que importa é o que escolhemos fazer a cada momento. Se formos conscientes, e quisermos ser elevados, escolhemos o melhor que podemos fazer em cada momento. Se não formos conscientes nem estamos virados para fazer o bem, não importando a quem, vamos reger-nos por feridas, revolta, ódio, raiva, mágoa ou vingança. E o resultado disso é criar mais feridas, confusão e ódio.

Mas, se todos nascemos puros (“anjos”), o que nos torna “maus”, quebrados? Tudo aquilo que nos fere, que nos magoa. A nossa mente e as suas interpretações, basicamente. Sentimo-nos rejeitados, atraiçoados e abandonados, e em reacção a isso, criamos esquemas mentais, expectativas, formas de pensamento e gatilhos emocionais. Não sei o que aconteceu ao primeiro anjo, e não quero com isto criar uma discussão religiosa ou teológica, mas certamente que estava descontente, não concordava com a forma de fazer as coisas, como tal, “degenerou”. Sentiu-se excluído, incompreendido, não aceite. Os especialistas o dirão.

O que é certo é que alguém que não se sente aceite, compreendido, amado ou acarinhado, fica ferido e, muitas vezes, na inconsciência, fere outros ou a si mesmo. O que percebo aqui é que todos nós, na nossa inconsciência e ignorância de processos psíquicos mais profundos, muitas vezes nos sabotamos, criamos situações de falta, carência e escassez nas nossas vidas. Falta de carinho, presença de outros, compreensão, amor, etc. Há em nós algo sombrio que precisa ser visto, a nossa sombra. O nosso lado incompreendido, não aceite e rejeitado. O lado em nós que não gostamos, os nossos demónios.

O anjo foi primeiro anjo antes de ser demónio, o que significa que o bom é sempre aquilo que pode ser transformado em mau. Mas se partimos sempre do bom, ao bom podemos sempre voltar. O que é certo é que em nós habitam várias forças, por vezes opostas ou contraditórias. Podemos desejar o melhor a outra pessoa e, ainda assim, sentir inveja dessa pessoa, pelo seu sucesso, pela sua alegria, pela sua forma de ser, etc. Podemos sentirmo-nos na pior fase das nossas vidas e, ainda assim, sentir que o melhor está por vir. Estes e muitos outros exemplos.

Aqui o que há a fazer é aceitar esta nossa natureza dual, com uma história, desde os seus primórdios, caracterizada por forças opostas e contrárias, como simbolizado pela bíblia e a história do anjo caído (Lucifer). Eu interpreto essa história como o princípio da dúvida, da incerteza, da insatisfação. A partir daí, seguimos numa busca, de algo bom novamente, que nos faça sentir inteiros. Essa busca é humana, conseguir conciliar os opostos e as contradições em nós. Esse é o trabalho, esse é o caminho – o da integração, o caminho do meio, da consciência e harmonização de todas as nossas partes feridas. Trazê-las à luz e ao amor próprio.

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