O Eterno Agora

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Já sentiram que apesar de acordarmos todos os dias para um novo dia, às vezes mais parece que estamos em loop e repetimos diariamente as mesmas coisas, pensamentos, rotinas, emoções? Tudo bem, temos de facto as nossas rotinas diárias, os nossos trabalhos e responsabilidades a cumprir, mas muitas vezes, passam-se as semanas, os meses e os anos, e, na verdade, nada parece sair do sítio ou mudar verdadeiramente.

Parece que nos arrastamos no tempo, muitas vezes com a expectativa e o desejo de mudar e transformar a nossa realidade, e mesmo que façamos terapia intensivamente, leiamos todos os livros de desenvolvimento pessoal que existem, sejamos pessoas conscientes dos nossos padrões, e ainda assim a mudança vem a pequenos passos, pequenos solfejos que nos dão a ilusão de estarmos a chegar a algum lado, contudo, parece que, na verdade, não saímos do lugar.

Andamos, fazemos, resolvemos,pensamos, meditamos, mudamos a alimentação, introduzimos rotinas saudáveis, o pensamento positivo, as afirmações diárias, tornamo-nos mais assertivos, aprendemos a dizer não, tornamo-nos menos críticos connosco, mais tolerantes ou flexíveis mentalmente, etc. etc., e onde isso nos leva verdadeiramente? Passaremos pela perda inevitavelmente, pela dor e pelo sofrimento. Levamos os embates da vida na mesma, passamos tudo pelo o que toda a gente no mundo passa, mas estamos mais evoluídos mentalmente, conseguimos amplificar a nossa experiência, senti-la e pensá-la de forma diferente.

Até aqui tudo certo. Mas, o que há mais? Acordamos todos os dias, fazemos o que temos de fazer durante anos a fio. Trabalhamos em nós, para o nosso autoconhecimento, mas as experiências e as lições continuam lá. Nunca param de chegar. Mesmo que pensemos que chegámos a algum sítio, a um patamar de evolução, depressa surge outro, e mais outro. Não há sossego, não há paragem. Quem escolhe esta via, muitas vezes sente-se frustrado. Muitas vezes não vê o fim, o fim da dor, o fim da desilusão, o fim dos pensamentos automáticos negativos, a autocrítica, a indulgência e autocomiseração.

De facto, esta nossa experiência humana é mesmo assim. É custosa, é dura, é longa. Cada ano parecem dez. Cada lição subsequente tem o peso de todas as outras, porque elas acontecem em cadeia, sucessivamente, umas após as outras. Têm um efeito cumulativo. Em vez de nos sentirmos mais leves, sentimo-nos mais fundos – não necessariamente mais pesados. Com a expansão da consciência, vem o peso da responsabilidade e da profundidade. Nada é mais o mesmo, contudo tudo continua no mesmo sítio. As pessoas continuam iguais. A realidade permanece inalterável.

Não mudamos o mundo por sermos mais conscientes. Damos passos nesse sentido. Inspiramos ou influenciamos outros, mudamos o paradigma a pouco e pouco. Mas no fim do dia, o mundo continua a girar da mesma forma. Injustiças e crimes continuam a acontecer a todos os níveis em todos os sítios do mundo. Como alguém me dizia ontem: “Não viemos ao mundo para ser felizes, viemos ao mundo para aprender”. E que aprendizagem essa… Não vem fácil.

Há a ilusão da felicidade, que se acontecer isto ou aquilo, tornamo-nos felizes. Que se fizermos isto ou aquilo, tornamo-nos felizes. Como se a felicidade fosse um estádio, um patamar. Não é. É um espectro. Não conseguimos mantermo-nos lá indefinidamente. Contudo, há um eterno agora onde nos podemos conectar a um estado superior, a um estado de expansão de consciência, a um alinhamento com o todo. Só aí não há passado nem futuro. Só aí somos energia, tranquilidade e paz. E isso só é possível porque nesse estado não há mente. Basta acordarmos desse estado ou do estado de sono/sonho de manhã, que tudo se reinicia.

A mente reinicia-se diariamente, activando, com ela, passado e presente. Preocupações, padrões, expectativas e desejos. Como uma inteligência artificial, como aquelas séries do Westworld e outras que tais, todos somos bonecos do destino e das diabruras do “universo”, como é chamada essa malha de energia que nos guia e enreda. Na verdade, todos estamos cá para o mesmo, com o mesmo propósito, evoluir enquanto espécie. Como isso é feito? Com acção e consequência (“karma”), como um jogo absurdo onde todo jogamos sem saber bem as regras, os motivos e as saídas nem como tudo se processa nem porquê, na verdade.

Apenas sei que nos foi dada esta capacidade de nos religarmos com algo superior, com uma consciência superior que nos guia, orienta e aconselha, se pudermos ouvir com atenção os sussurros dessa voz perene. Nesse estado, estamos (somos) completos, plenos. Aí, e só aí, temos uma pausa, uma “saída” para os jogos da mente e arquitectura do destino. Se podemos perpetuar esse estado, sendo humanos vivendo na terra? Não creio. Seria difícil. Talvez algumas pessoas o consigam, temos gurus budistas que parecem conseguir.

Só sei que podemos introduzir esse estado nas nossas vidas, quão frequentemente nos seja possível. Talvez só quando o fizermos tão ou mais recorrentemente quanto as artimanhas da mente, podemos sentir-nos fora desta terra e desta realidade, estando em paz e equilíbrio. Requer disciplina, requer presença, requer consciência de quando saímos ininterruptamente desse estado. Requer intenção e vontade. Requer fazer, esse reconectar com esse estado de totalidade. Requer-nos tudo de nós, um estado de renúncia constante à mente e às suas armadilhas e testes.

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