O que é normal vs o que me faz feliz

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No outro dia perguntavam-me: “é normal acontecer isto ou aquilo nas relações”? Quando se trata de falta de diálogo, de não existir contacto íntimo, ou carinhos, a partir de um certo tempo de relação. O que me fez reflectir naquilo que toleramos ou não no que se trata de “normalidade”. É normal um homem maltratar a sua mulher? Estar com outras mulheres? Ser ciumento? É normal as mulheres serem ciumentas, inseguras? É normal as relações seguirem certos trâmites e todos devermos passar por eles, da mesma forma?

O que é normal? O que os outros fazem? O que se espera que façamos? Pela sociedade, pela família, pelos amigos? Quem é a “sociedade”? Os meios de comunicação? Os “famosos”? Quem cria tendências? Somos todos nós, na verdade. Cada um de nós é um influencer (influenciador digital; criador de tendências) à sua maneira, e a nossa sociedade está a evoluir a uma velocidade tal que cada um pode viver a sua vida exactamente como quiser e como escolher viver. Não quer dizer com isso que não será criticado, condenado ou julgado.

Então, questão: vai seguir os outros, porque o que os outros fazem, ou da forma que vivem, é aquilo que deve viver como deve viver, porque é “normal”? Não, não precisa. Não se ficar pelo “politicamente correcto” é ser-se diferente, talvez até um pouco rebelde, ou irreverente, e a maior parte de nós não gosta de se destacar, de chamar as atenções sobre si. Isso começa, normalmente, na escola. Ninguém queria ser o centro das atenções, normalmente. Sempre houve quem se destacasse, por um motivo ou outro, e até que procurasse esse “palco”, mas o resto de nós só queria passar pelas gotas da chuva ainda assim não gozassem connosco e nos ridicularizassem.

Em adultos continuamos com esta lealdade cega ao grupo de pertença, aos modos e maneiras de se fazerem as coisas do clã familiar e social a que pertencemos. E, por isso, muitas vezes passamos ao lado da felicidade. “Se os outros fazem assim, tenho de seguir e fazer da mesma forma”, só que não. Dar as costas a essas formas de viver, não se dá sem desconforto. Fazer diferente e dizer “assim não quero” traz resistência, nossa e dos outros, que podem não aceitar essa forma, se esperarem que se submeta às regras do jogo.

É ameaçador para os outros a mudança, porque faz questioná-los da sua própria existência e vivências. Faz questionar acerca de como vivem, como fazem as coisas e ao que se submetem. Aqui a ênfase deve estar no “o que me faz feliz?” mais do que no que é normal ou não. Não se deve submeter a algo que não a faz feliz, num trabalho (ainda que “certo”, com contracto de efectividade, ou no meio estatal) ou num relacionamento (porque ele até é boa pessoa e está bem assim com a relação como está e eu é que não).

Sei que o sentimento de culpa pode minar a decisão de sair ou mudar de trabalho ou de relacionamento – e atenção, todas estas questões podem ser trabalhadas, desde com vontade de todas as partes envolvidas – mas é um processo, questionar-se, perceber quais são as suas necessidades, validá-las e valorizá-las (talvez não tenha aprendido a fazer isso) e tomar decisões que vão de encontro a essas necessidades. Se ser feliz é uma delas, mude aquilo que a faz infeliz ou termine qualquer relacionamento que a mantenha na apatia, no descontentamento, no sofrimento constante, ou na falta de sentimento ou presença, sua ou da outra parte.

 

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