Os vários lutos que vivemos

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Não entramos em luto só quando morre alguém, podemos entrar em luto por nós também. Luto é uma reacção a um processo de perda, seja ele qual for. Por todos os fins de ciclo, por todos os “renascimentos” que fazemos, por todas as transformações que nos pedem mais, diferente. Por todos os momentos que temos de nos recriar, ir além dos nossos limites habituais de quem achamos ser, de quem pensamos ser. Principalmente em ideais, relacionamentos, projectos inacabados, relações inacabadas ou que têm de ficar para trás.

Esses lutos são difíceis. Ter de deixar ir partes nossas. Quem éramos numa determinada altura ou relação, o que sonhámos para essa altura ou relação, e quem perdemos nessa relação que chegou ao fim. Termina o sonho, termina o projecto, termina o ideal, e tudo o que acompanha isso: as expectativas, as ilusões, a projecção no futuro com essa pessoa, essa relação, esse projecto que não pôde ser. Somo uma pessoa com aquela pessoa, quando essa pessoa já não está, para onde vai quem fomos com ela? Há um luto da pessoa que fomos naquela relação, luto da relação que chegou ao fim e luto do que esperámos dessa relação ou projecto a dois.

Podemos fazer também diversos outros lutos, como o luto da criança que não queria ser mulher – que não queria crescer porque crescer é duro e difícil e traz muitas responsabilidades – luto da mulher que se tornou mãe e deixou de ser apenas mulher, passou a ser mãe também – e muitas cedências e mudanças têm de ser feitas a partir daí – e o luto das pessoas que perdemos e que não podemos ver mais porque simplesmente não existem mais no plano físico. Ainda que acredite no plano espiritual, não pode mais tocar e conviver com essa pessoa que perdeu, e a nossa mente existe aqui, no aqui e no agora, no plano material.

Como vê, são vários os lutos que vivemos ao longo da vida. Sempre perdemos algo, alguém, partes nossas que se transformam, a própria perspectiva muda, o crescimento, o amadurecimento, a evolução pede-nos isso mesmo: morte e renovação. Morte e renascimento. Não podemos ser eternamente os mesmos, ter as mesmas coisas da mesma maneira sempre. Mesmo em um relacionamento que se mantém, várias partes partes nossas também vão dando lugar a outras para que esse relacionamento possa crescer, e evoluir. Também um relacionamento é uma coisa viva, que se transforma.

Há que ser paciente com estes processos. Normalmente o luto envolve algumas fases: o choque, a negação, a barganha ou negociação (quando tentamos negociar para que tudo se mantenha igual para não termos a sensação de perda de algo – porque a mudança nos deixa extremamente desconfortáveis), a raiva ou revolta, a ansiedade, a tristeza, e, por fim, a aceitação, se o pudermos e conseguirmos fazer – a aceitação de todas as fases anteriores e a aceitação daquilo que tem de ser e é possível no momento. Requer de nós toda a nossa força e toda a nossa humildade.

A perda, e o luto, tornam-se mais fáceis quando podemos renunciar ao que o nosso ego ou personalidade desesperadamente querem: a manutenção de tudo o que conhecemos, como conhecemos. Quando podemos curvar-nos aos desígnios da alma, do grande desconhecido, aceitamos o que vem, e o que parte, sem resistência, a vida flui e teremos exactamente o que precisamos e o que é bom para nós, independentemente do quê e de quem fica.

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