A força do feminino e da ancestralidade

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A força do feminino é também aquela que vamos buscar ao nosso clã, às nossas ancestrais, ao que conhecemos ou não, nomeadamente ao que aconteceu no passado e como outras mulheres sentiram e passaram. Essa força por vezes é positiva, ajuda-nos e traz-nos sabedoria e a reconexão com formas inteligentes de ser mulher, como no caso da ligação aos ciclos lunares, às estações, às ervas e aos cristais, por exemplo.

Mas há outra força, a força da dor e do sofrimento, a força da traição, da rejeição, da perda e do abandono. Quando nos ligamos a essa ancestralidade, podemos não ter passado por isso mas sentimos as mesmas coisas, até as mesmas sensações, sentimentos e emoções. Podemos até tomar partidos, e crenças, de quem veio antes de nós.

O maior exemplo que vejo disto é nos relacionamentos. Vejo demasiadas mulheres envolvidas em processos inconscientes de mágoa e dor quando podem até nem ter passado por eles pessoalmente, mas tomam as dores da mãe, das tias, da avó, ou outro(s) elemento(s) da família alargada. Tomam as dores das amigas, de outras mulheres. Somos solidárias na dor, somos também leais, muito leais ao que acontece aos nossos, neste caso, às mulheres da nossa família, das  nossas vidas.

Este género de lealdade faz-nos separar-nos da realidade que vivemos e dos relacionamentos que são nossos para viver, e, por isso, podemos tornar-nos reaccionárias, revolucionárias, feministas, atacando até os nossos homens e responsabilizando-os por coisas que nem aconteceram nesta era, nesta vida, nem no relacionamento actual. Podemos tornar-nos ciumentas, acusatórias, inseguras, agressivas, porque aquele homem à nossa frente pode ser a encarnação de todo o mal que já foi feito a outras mulheres antes de nós.

Esta lealdade ao clã, ao feminino ancestral, ao inconsciente colectivo das mulheres, faz-nos tomar o partido das que sofreram, não nos permitindo sermos felizes nos nossos próprios relacionamentos, tendo comportamentos defensivos com os nossos homens, pedindo-lhes quase penitência e arrependimento, como expiação por todos os actos cometidos contra o feminino no passado, como se eles fossem os actuais culpados por tudo o que aconteceu.

São comportamentos e atitudes muitas vezes inconscientes, e provêm de um sistema de crenças que nos diz: “Os homens não são de confiança”, “Nunca se deve confiar completamente num homem”, “Nunca se pode gostar mais de um homem do que ele de nós”, “A mulher não se pode deixar enganar, deve estar sempre atenta e alerta com o seu homem e controlar tudo o que seja possível”, “A mulher nunca deve baixar a guarda”, e outros que tais.

Se a mãe sofreu abusos por parte do marido, não pôde ser feliz no casamento, perdeu o marido, foi traída, abandonada, deixada, etc., as filhas podem tomar as dores da mãe, querer ficar ao lado dela na dor e no sofrimento, e na infelicidade, como um pacto secreto e muito inconsciente: “Por não poderes ter sido feliz, mãe, eu fico contigo no sofrimento”, e perguntar-se porque os relacionamentos não parecem funcionar.

Este é apenas um exemplo. Todas nós mulheres, sem excepção, temos exemplos destes na família. Não teremos todas dificuldades nos relacionamentos, seja arranjar ou manter um relacionamento feliz ou harmonioso, mas vai haver sempre alguém da nossa família, uma mulher, que vai ter essa dificuldade e que vai representar uma trama que não é o dela e representar um tema das mulheres daquela família.

O exercício que se propõe aqui é perguntar-se: “O que me limita nos relacionamentos? Isso terá alguma coisa a ver com a situação das mulheres da minha família? Houve divisão, dor, traição, perda, abandono, incesto? Quem estou eu a representar? Que destino quero eu absolver?”, e tentar libertar-se de todas as crenças e padrões inconscientes de toda uma linhagem que sofreu muito, mas que não precisa continuar a sofrer.

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