O monstro da gula

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Come até se sentir “saciado” e para estar “saciado” é preciso comer muito? Saiba que pode estar a alimentar o monstro da gula. O que é que isto quer dizer? Conheço muitas pessoas com excesso de peso que comem até se sentirem cheios, ou às vezes até ficarem mal dispostos. Se comerem menos que isso, costumam dizer que não se sentem saciados. Atenção a dois detalhes: à palavra sentir e à palavra saciado.

Uma coisa é estar organicamente satisfeitos com o que comemos, com a quantidade adequada ao nosso corpo e às nossas necessidades ou gastos energéticos, e isso é bem menos do que aquilo que comemos, normalmente. Ou seja, uma coisa é o que o nosso corpo físico precisa para estar bem e satisfeito, outra coisa é o que o corpo emocional sente falta.

Se para se sentir saciado tem tendência para comer demais, e esse comer em excesso se manifesta em peso acima do que é desejável, provavelmente come compulsivamente, ou tem adição ao açúcar – o que normalmente está associado. O que eu chamo de monstro da gula é isso mesmo, um vazio emocional, um dor, uma angústia, ansiedade ou depressão, que pede exactamente isso: ser preenchido, ser apaziguado, ser confortado.

Então encontrando a “fórmula” que satisfaz esse desejo, a pessoa torna-se refém dos seus próprios (maus) hábitos alimentares. E convenhamos, é muito fácil cair nesse erro. Temos à nossa disposição os meios e os recursos para nos alimentarmos livremente, excesso de oferta alimentar, principalmente de produtos açucarados, e o stress constante a acompanhar.

Vivemos numa sociedade deprimida e ansiosa, que nos pede para consumirmos produtos massivamente e constantemente, quem não cai em excessos? Quase todos nós. Aqui falo na alimentação, mas também poderia falar no tabaco e no álcool, por exemplo. Tudo artifícios para dissimular o nosso senso de incapacidade para gerirmos a nossa vida.

O que digo é uma constatação muito forte, mas os nossos consumos estão intimamente ligados a questões emocionais. Veja o documentário “O Século do Ego” disponível no YouTube para perceber melhor o que quero dizer. A propaganda, o marketing, os produtos que temos à nossa disposição e a publicidade que é feita para os consumirmos, entra profundamente na nossa psique.

A indústria do marketing pesquisa formas de associar produtos a necessidades básicas do ser humano e a desejos inconscientes: ser amado, estimado, ser poderoso, sexy, desejável, etc. O natal é associado a Mon Cherry e Ferrero Rocher, a perfumes, bolo rei, relógios, brinquedos. O dia da mãe, do pai, da criança, todos eles associados a produtos alimentares e bens supérfluos, que nos dão a noção de que, para sermos bons pais, bons filhos, bons cidadãos, temos de comprar – temos de consumir.

Para não me desviar muito do tema alimentação, o que consumimos está ligado a questões emocionais, nomeadamente o excesso de comida. O que em si está a alimentar quando come? O que em si está a saciar? A anestesiar? A satisfazer? Quem está a comer, na realidade? É a mente, é a frustração, a solidão, o medo? O que não pode, na verdade, expressar? Alguma coisa que está a suprimir? O que está a recalcar com a comida? Que desejo não expresso está a ser “tapado” com a comida? Que fuga está a ser compensada com a comida?

Todo o excesso esconde uma falta, alguém disse. Todo o excesso alimentar pode ser visto como uma compensação e, na minha teoria pessoal, um castigo ou vingança. “Como não consigo ser magro/desejável, vingo-me na comida, nem vale a pena tentar ser diferente. Dá muito trabalho, não consigo”. Aqui a pergunta seria: porque é que não pode ser magro? Seria ameaçador para si ser magro, ser desejável? O que mudaria? Do que está a fugir ou de quem?

Há sempre medos inconscientes a serem trabalhados na questão do peso e do comer compulsivamente/em excesso. Olhar para esse monstro da gula é perceber o que o criou, o que ele significa, que emoções ou medos existem, para que possamos estabelecer uma relação diferente com todas essas nossas partes que, por vezes, nos assombram. Há que olhar para isso e ver o que lá se esconde. Vai ficar surpreendido com a resposta. E sim, vai poder com essa resposta, tem as condições para isso. Precisa é passar pelo processo, genuinamente.

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