A ferida da rejeição

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A ferida da rejeição é como qualquer outra ferida. Dói, tenhamos conhecimento dela ou não, e manifesta-se em determinados comportamentos, atitudes e crenças. Uma pessoa com esta ferida reage intensamente quando se sente rejeitada, preterida, deixada, ignorada, desprezada, não amada e não apreciada (criticada, julgada, etc.). Pode isolar-se, sentindo-se profundamente triste e angustiada, pode discutir, reagir agressivamente, pedindo justificativas, culpando os outros de determinados comportamentos que possam ter, ser desconfiada ou paranóica, julgando que os outros a enganam, que os outros são falsos nos seus sentimentos, que os outros não são verdadeiros, e pode estar sempre à espera de ser deixada, abandonada, não se sentindo merecedora de amor.

O mesmo se pode dizer em termos da ferida do abandono, que julgo serem a mesma coisa, “Quem me rejeita também me abandona”. Ferida é ferida… Todos temos medo de algo, de sermos sozinhos, de ficarmos sozinhos, de não gostarem de nós, de deixarem de gostar de nós, de preferirem outras pessoas a nós, etc., etc. Todas as feridas são uma só, o abandono, a rejeição, a perda, a traição. Todas se manifestam em convicções, em medos, em tentativas de nos protegermos ou de não perdermos, por exemplo. Não perdermos a outra pessoa, não perdermos afecto, respeito, confiança, ou o que seja importante para nós.

Todos, sem excepção, podemos sentir isto a algum nível. Sermos enganados, deixados, traídos. Esta ameaça paira sobre nós constantemente, desde a nossa mãe, que nos deixava no quarto a chorar, por exemplo, ou tinha de ir trabalhar e deixava-nos na cresce, ou tinha de dar atenção a outros filhos. A criança, só reagindo a emoções e percepções, sem a capacidade intelectual plenamente formada, vai atribuir essas ausências a rejeição e abandono. E começa tudo aí, a sensação de amor interrompido. A sensação de ser deixado, enganado, traído. Quando a própria mãe não pode ficar, quem vai poder? Certamente outras mulheres também não poderão ficar, outros homens, ou de quem eu gosto. Logo aí começa a noção do não merecimento: “Se a minha própria mãe não pôde ficar comigo, quem ficará? Se não sou merecedor do seu amor (presença), quem me amará?”

A criança associa ausência (não presença) com falta de amor, falta de aceitação, e logo aí surgem sentimentos de não ser amado, aceite, valorizado. Isso e a associação de castigos, crítica, ser ralhado, e comparações com outros irmãos ou colegas de escola, por exemplo, faz com que a criança possa criar essas ideias e essas noções de que não é merecedor de amor e de que está a menos constantemente. Aí surgem os erros de percepção, ou programas que criamos sobre a vida, sobre nós e sobre os outros. O papel da psicologia é o de poder resgatar estas convicções, estas crenças, estas ideias, esta programação arcaica que ficou, associada a uma não verdade, porque, no fundo, a mãe (ou o pai), sempre esteve, sempre amou, sempre nutriu, sempre esteve ali, ainda que desatenta ou pouco consciente do resultados dos seus actos, correctos ou não.

Quem diz mãe também diz pai. O pai também pode estar presente ou ausente, ter ficado no casamento ou não, ter permanecido na vida dos filhos ou não. O que é certo é que estas duas figuras, principalmente, a mãe e o pai, criam um impacto gigante em como percepcionamos a vida, o trabalho, o sucesso e os relacionamentos. O que aprendemos nos primeiros anos é fundamental. E o que apreendemos nem sempre é aquilo que realmente aconteceu, mas resultado do significado que demos às nossas percepções sobre o mundo e sobre o comportamento dos outros. Nem tudo remete também sempre a mãe ou pai. Há todo um conjunto de pessoas que representam a nossa família mais alargada que também exercem uma influência em nós, nos legados que recebemos e nos programas que partilhamos com outros familiares. Mas isso será assunto para outras explorações.

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