Às mulheres que sofrem os seus abortos em silêncio

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Não. Os homens não sabem o que é perder um bebé. Não têm como saber. A vida não se gera dentro deles. Não são eles que sentem as alterações metabólicas, hormonais, físicas, emocionais e psicológicas que advêm de uma gravidez, de curto ou longo termo. Muitas vezes são relegados para segundo plano pois a mulher não tem como comunicar a dor que sente, nem sempre a consegue ou pode partilhar, porque sim, fazer um aborto, envolve sempre dor, seja um aborto propositado ou natural.

Quão maior o tempo de gestação, maior a dor. Os homens não sabem que saem pedaços de bebés de dentro das mulheres quando há um aborto, “bracinhos e perninhas”, como já ouvi em relatos. As contracções e as cólicas na expulsão do feto, os pedaços de sangue, a constatação de que há um ser em desenvolvimento cuja vida é terminada brutalmente, e abruptamente e que é aquele sangue e aqueles pedaços que saem pela vagina da mulher. Este é o aborto natural ou medicamentoso, em casa, quando a mulher vai à casa de banho, e acontece na sanita, no bidé ou na banheira. Outra opção é a aspiração pelo médico, onde há uma introdução de um objecto que suga as paredes do útero qualquer coisa que lá esteja implantada.

E este é o processo do aborto provocado ou natural. Outra situação é a morte fetal e a mulher tem de parir um bebé sem sinais vitais (nado-morto). Ou seja, há uma gravidez, um parto, um funeral e um enterro, que é todo um processo mais prolongado, considerando que já há mais de 20 semanas de gravidez. O aborto provocado, ou Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), pode ser feito, legalmente em Portugal, até às 10 semanas de gravidez. Em todas estas semanas, já aconteceram várias alterações na mulher, como mencionei em cima. Toda o corpo da mulher se modifica para integrar a vida que está a ser desenvolvida no seu ventre.

Há muitas mulheres que vêm ou que utilizam a IVG como medida contraceptiva, mas não é. E, mais cedo ou mais tarde, vão ter de se deparar com a dor que ficou da perda dessa ou dessas gravidezes que não chegaram a termo. Podem ser mulheres jovens, imaturas, inexperientes que recorrem a este método, ou, por algum motivo, mulheres mais maduras que, por alguma situação, tiveram de recorrer a ele, de forma voluntária ou forçada (quando há anomalias no feto, por exemplo). O que é certo é que este processo, na mulher, é mais doloroso do que no homem ou no pai. São experiências completamente diferentes, e depende se o homem está envolvido na gravidez ou não, se desejou aquele filho ou não.

A dor que fica de um filho que não se teve é prolongada por gerações. Essa dor é passada geneticamente às mulheres seguintes, e todos os bebés que se perderam, mais cedo ou mais tarde, vão ter de ser incluídos e integrados na família. É o que defendem as teorias e terapias transgeracionais e sistémicas e é o que tenho aprendido nos meus estudos e trabalho pessoal com constelações familiares. Quando as mulheres de uma família podem olhar e honrar essas perdas, dedicando uma profunda reverência a quem teve de fazer um aborto, seja por que motivo for, dizendo: “Eu não faria melhor…” tem um profundo impacto no sistema familiar. Pode haver sanação e reparação desse sistema no que toca a perdas.

No que toca aos homens poderem tomar contacto com essa dor, e com as mulheres que engravidaram e cuja perda também é deles, é também eles poderem ser incluídos nesse olhar, não havendo separação mas sim união. São precisos dois para gerar Vida. São preciso dois para honrar o fim dela também e para o que se perdeu, para o que acabou ali. Esse é o peso da Morte. Ele precisa ser honrado, visto e sentido. Se não no momento, anos ou gerações mais tarde. Assim é o que obriga a Árvore familiar, a que todos possam ser incluídos.

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