A Força do Lugar

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Com as constelações familiares tenho aprendido muito sobre posicionamento, sobre o lugar que cada um deve ocupar e sobre os que não deve, de todo, ocupar. Na verdade,a nós só nos cabe exactamente um lugar: o nosso. O de filha/o, irmã mais velha, irmã mais nova, irmã do meio, o de mãe, pai, irmão mais novo, mais velho, o sexto, de mulher, de marido, etc. E isto enquanto elemento de uma família.

Enquanto elemento de uma organização ou associação, igual, cada um tem o seu lugar, e não se deve nem sobrepor nem subestimar esse lugar. Temos sempre uma hierarquia que respeitar, seja ela qual for. Mesmo enquanto profissionais, há sempre algo que veio antes. No meu caso, antes de mim vem a própria Ordem dos Psicólogos, que é o órgão máximo da psicologia, como tal, há regras que temos de respeitar enquanto psicólogos. De filho ou irmão igual, de colega e patrão/chefe/director/coordenador, a mesma coisa. Antes dos mais novos vêm os mais velhos, do maior vem o mais pequeno, e esta é a verdadeira lei.

O lugar que é nosso permite-nos liberdade e autonomia dentro de um sistema, seja ele qual for, respeitando determinadas regras. Quando nos queremos sobrepor a alguém ou a algo maior do que nós, há uma disrupção no sistema, quando por exemplo os filhos se colocam no lugar dos pais, ou quando os pais se colocam no lugar dos filhos, ou as mulheres no lugar de mãe dos seus companheiros, e vice versa. Há uma descompensação e desorganização do sistema.

Quando isso acontece, há filhos a ficarem ressentidos com os pais por terem de cuidar ou serem responsáveis por eles ou pelos irmãos, marido e mulher que já nem têm relações sexuais porque inconscientemente estão a representar o papel de pai ou de mãe dos seus respectivos, o que significa que um deles ou é o filho ou a filha, mulheres ou homens que não conseguem deixar os seus namorados ou namoradas porque querem cuidar deles ou delas e não ser responsáveis pelo sofrimento deles, etc.

Quando nos queremos responsabilizar por algo que não é nosso nem nos cabe a nós tomar essa responsabilidade, garantidamente que fica algo em falta. Primeiramente, o outro que não aprende a responsabilizar-se se há outro a fazer isso por ele, a tomar conta da sua vida, a tomar as suas decisões e responsabilizar-se por elas. Segundo, estarmos a fazer aquilo que cabe ao outro fazer, nem que seja passar pelo processo de aprendizagem, independência, autonomia e autodeterminação. Terceiro, julgarmo-nos superiores e mais capazes do que essa pessoa a gerir a sua própria vida e a própria dor que as situações podem causar (tentando proteger). Por melhores que sejam as nossas intenções, isso subverte a lei.

A força do lugar vem de um lugar que é nosso e só nosso. Ninguém pode viver a vida por nós nem nós podemos viver a vida por ninguém. E viver a vida refiro-me a tomar decisões ou a fazer coisas por essa pessoa que só ela deveria fazer, ainda que essa pessoa nos seja muito querida e muito valiosa. Não estou a dizer para pais ou mães não cuidarem nem protegerem os seus filhos menores, falo de adultos, apesar de aos adolescentes também ser necessário atribuir responsabilidades adequadas a cada faixa etária.

A força do lugar vem de dentro, de sabermos que não podemos cuidar da dor de ninguém, das perdas de ninguém, daquilo que o outro sente, fundamentalmente. Fazêmo-lo porque fomos desenhados para pertencer, para querer pertencer, pois a pertença a um grupo é o que nos faz sobreviver, primeiro porque somos bebés e indefesos, depois porque vamos para a escola e precisamos de amigos, e depois porque vamos trabalhar e precisamos de colegas, colaboração e trabalho de equipa para aprender. A força da pertença é muito grande, e fazemos de tudo para não a perder, para não deixarmos de pertencer.

E, para não deixarmos de pertencer, tememos fazer diferente, diferente do que a família faz, diferente do que os amigos fazem, diferente do que o grupo social a que pertencemos faz. Quando o fazemos, enfrentamos crítica, julgamento, gozo, humilhação, ridicularização. No geral, desaprovação. E nós tememos acima de tudo a desaprovação, porque sermos desaprovados, é o potencial de deixarmos de pertencer à aquele grupo, não sermos aceites. Não sermos aceites é morte social.

Então, a força do lugar vem da nossa verdade, do que acreditamos, do que é nosso e só nós podemos, do que é nosso para sentir, para gerir e para poder processar. O que é dos outros aos outros pertence. O que é dos outros é grande demais para nós porque a eles pertence. Conseguem entender a importância disto? Senão andamos a sofrer as coisas uns dos outros num loop sem fim e assim ninguém tem forma de sair do sofrimento, do peso, da perda e da culpa. Essa é a força de tomarmos para nós o que é única e exclusivamente nosso. O resto, é responsabilidade alheia, ainda que seja de alguém que nós amemos. Essa pessoa também é capaz, à sua maneira, de lidar com o que é dela, e assim está bem.

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