Os conflitos interiores e o medo da mudança

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Quem os não tem? Conflitos entre o ser espontâneo e o ser controlado, entre sentir que está a fazer o melhor que pode e ao mesmo tempo sentir que é uma fraude e incompetente, conflitos entre o entregar-se e render-se versus recolher-se e dizer não, conflito entre o querer e o não querer, entre o querer avançar e o querer ficar, entre o querer mudar e crescer e o ficar na mesma e não sair da zona de conforto, entre o ser destemido e rebelde e o ser contido e passivo… Entre outros. Certamente que já passou por alguns destes ou mesmo outros.

Há um movimento para fora, um movimento de expansão, que é assustador e ameaçador, porque apresenta riscos: risco de falhar, risco de errar, risco de perder – perder a segurança, o conforto, aprovação, outra pessoa, etc. E há o movimento contrário, o movimento de retraimento, que é ficar, manter, pausar, parar – que é seguro e estável. Entre estes dois movimentos vamos vivendo, sem excepção. Até porque, mesmo não querendo, vão haver momentos em que é obrigatório expandir, a vida vai pedir-nos isso em vários desafios.

Quando somos crianças, a expansão é maior, somos forçados a avançar, a seguir o que está pré-estabelecido, no caso da escola, dos testes, dos trabalhos, das actividades, etc. Somos forçados a sair de casa e enfrentar os nossos maiores medos: a desaprovação de pares ou professores, o receio de cair no ridículo, o gozo, a humilhação, o ir ao quadro, o ser exposto, amigos que traem a confiança e partilham segredos, etc. É um grande desafio ser criança e ser adolescente. Por isso eles gostam tanto de estar em casa e na segurança do seu quarto, onde ninguém lhes pode fazer mal. E ainda assim, com as redes sociais, a perseguição pode ser constante.

Quando somos adultos, há os desafios profissionais, no trabalho, com colegas, com superiores hierárquicos, com clientes e com a própria organização e dinâmica do local de trabalho. Também há os desafios relacionais, familiares e pessoais. As nossas próprias dúvidas, inseguranças e incertezas. O que em nós está a mais ou a menos. Aí sim, já podemos escolher fazer o mínimo e simplesmente comparecer e fazer o que é para ser feito, ou podemos superar-nos e tentar fazer o melhor e crescer por onde for possível: seja intelectualmente, seja progressão na carreira, seja dar o salto para fora e começar algo próprio.

Mesmo na família e nas nossas relações, podemos sempre seguir o roteiro e fazermos o que sempre fizemos, da forma que fazemos e sempre fizemos, ou podemos fazer diferente. E aí começa o conflito: devo fazer diferente? Se sim, o que me vai custar? O que vou precisar? Será que sou capaz? Será que vai correr bem? Entre outras questões. O conflito gera dúvida, gera indecisão, gera incerteza. Queremos fazer o melhor possível, com o mínimo de risco. O conflito implica tomar decisões, posicionarmo-nos, e ao fazer isso estamos, necessariamente, a colocar-nos em risco.

Muitas vezes, sabemos que fazendo diferente, e até já sabendo como fazer, seremos bem sucedidos, sabemos que é o melhor caminho possível, e que nos trará um desfecho positivo. Ainda assim tememos, porque é exactamente isso: fazer diferente e fazer diferente custa, estamos a dar a cara por algo que não sabemos se vamos conseguir manter – não sabemos se conseguimos manter a mudança. E de qualquer das formas, mudar custa, temos de desprender-nos de partes nossas que estão estáveis e seguras, e criar outras.

Neste processo de mutação, há partes nossas que ficam para trás, é verdade. E elas são partes queridas porque sempre estiveram connosco. Este é um processo de morte e renascimento, de reestruturação, e é aí que entra o medo e o custo daquilo que temos de pagar: a mudança em si. A mudança tem um preço, o preço do crescimento e do desconhecido. Mas quando avançamos para aí, temos mais a ganhar do que a perder. Se perdemos, era certamente algo que já não fazia falta e que nos travava. E o processo é esse mesmo: retraimento e expansão. Os dois são necessários. A aprendizagem é viver entre esses dois movimentos e saber quando accionar ou parar um ou outro.

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