Viciados em auto análise (trabalho interior e pensamento positivo)

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Ora bem, vivemos na época da autoanálise, do pensamento positivo, da autoajuda, do desenvolvimento pessoal e do pensamento espiritualizado. Até as lojas de decoração sobejam de budas, frases motivacionais, etc. Houve uma explosão de espaços de terapias holísticas, e até em centros de estética e ervanárias se podem encontrar terapias de reiki, tarôt, leitura de aura, hipnose, meditação, entre outras. Nunca se viu tanta gente interessada em processos de autoconhecimento e autodesenvolvimento e a fazer terapias várias. Há para todos os gostos, e em vários locais.

Só que também surge uma onda de pessoas que entram num registo de seguir à letra teorias e práticas de pensamento positivo, em que se rejeitam as emoções negativas e se tenta negar as preocupações e os medos, que se viciam em trabalhar em si e têm dificuldade em desligarem-se de processos internos, dúvidas, inseguranças ou objectivos de trabalho interior, como se houvesse uma Meca onde chegar ou um patamar onde não há medo, nem vulnerabilidade nem incerteza. Estas pessoas ficam alarmadas se se sentem ansiosas ou em pânico, ou se sentem qualquer tipo de desconforto, ou medo de falhar nalguma tarefa.

Vivemos tempos de grande obsessividade relativa a uma série de assuntos. Sempre que fazemos, queremos fazer bem, com tudo a que temos direito. Queremos viver sem risco, sem medo, só com a certeza, a segurança, alegria e satisfação. Tememos tremendamente a frustração, e tentamos evitá-la de todas as formas, e o pensamento positivo veio, exactamente, a calhar, como que a colmatar uma falha: onde dantes havia o pensamento negativo, tentamos agora substituí-lo pelo pensamento positivo e agora só esse pode vigorar, mas esquecemo-nos que os dois fazem parte, os dois são possíveis e desejáveis. Um não vive sem o outro. Há que encontrar um meio termo.

A todas as pessoas cujo trabalho interior não pára nunca, um conselho: por vezes pode andar às voltas, sem parar, sempre com o mesmo tema. Se não consegue superá-lo, aguarde, dê um tempo, foque-se noutras coisas, noutros assuntos. Nem tudo pode ser trabalho interior. Temos de aprender também a sentar com a dor, a perda, o medo, a ansiedade, e ficar neles, simplesmente. Ficar no que é, em vez de a neurose de ultrapassar tudo o que custa rapidamente e assim que possível. Isso trouxe-nos o mindfulness, técnicas de atenção plena. Tudo o resto pode servir como escapismo à realidade.

A meditação e autoanálise constantes, para evitar sentir algumas coisas que possa sentir que sejam menos agradáveis, são muitas vezes uma fuga para a frente, como quem diz: “Não quero sentir isto, é muito desagradável”. O processo da vida engloba tudo isso, o bom e o mau, o agradável e o desagradável. Há que aprender a lidar com a frustração, com a tristeza, com a perda, com o medo e com a ansiedade. Todos sentimos essas coisas, não as podemos negar nem evitar. Não podemos desligar as emoções e aquilo que vamos sentindo em reacção às várias situações de vida que vão surgindo. Pode sim aprender-se a gerir emoções e o impacto delas. O resto? É para sentir, aceitar e passar à frente.

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