Os tempos que correm

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Tem sido difícil. Tem sido duro. A primavera a chegar e a vida a acontecer a um ritmo mais lento e inusitado. As ruas mostram uma realidade só vista em filmes de ficção. Aposto que nunca ninguém pensou que, dia menos dia, iria ter de usar máscaras e luvas para sair de casa e que o acesso a todas as superfícies comerciais teriam de ser condicionados. Nós que nos habituámos às certezas, ao consumo a qualquer hora do dia, à liberdade de movimentos, de afectos, de contactos humanos, agora vemo-nos assim, numa redoma, numa ilha onde não sabemos se é seguro sair.

Estes tempos instigam medo, instigam incerteza, insegurança. Também eu a sinto. Até quando irá durar tudo isto? Quais serão as consequências sociais, económicas e profissionais que este desafio colectivo irá trazer? Será que tudo regressará à normalidade? Eu não sei. O que sei é que todos estamos muito esperançosos, há bastantes discursos e movimentos optimistas nas redes sociais, bem como notícias sobre o estado do mundo e do país. Há bastantes críticas e revolta também, mas acima de tudo, esperança e fé de que “vai ficar tudo bem”.

Somos um povo de fé, de esperança, de acreditar sempre que o melhor ainda está por vir. Somos um país de descobridores, de gentes alegres, cultura de rua e de café, de afectos e de socialização, de toque, abraço e beijo na cara. Somos assim, queremos mais, sempre mais, estar com amigos e família, almoçaradas, jantaradas e convívio animado. Ansiamos por isso. Actualmente esperamos, aguardamos em compasso de espera, como quem carrega no “pause” e esperamos que tudo passe.

E sim, há de passar. Sempre tudo passa. Enquanto isso, lá fora, as andorinhas regressam, o sol sorri, as flores e os pássaros passam distraídos a tudo o que acontece dentro de nós, e a vida acontece. O mundo respira, rejuvenesce, a chuva cai e o vento sopra. Nada mais há a fazer a não ser esperar, aguardar o momento do movimento novamente, cair e reerguer-nos novamente; desesperar, respirar fundo e arranjar alternativas a tudo: ao tédio, à ansiedade, ao não saber, à incerteza, ao medo e à tristeza.

Estamos juntos nisto, e nunca o nosso coração esteve tão próximo de outros. Vizinhos que nem se falavam agora têm tempo para se conhecer, ainda que à varanda. Nas ruas, sozinhos, sorrimos a estranhos, como quem diz “Que situação esta, não é? Pois o que é que havemos de fazer… Há de passar!”. Usamos janelas como nunca pensámos usar, janelas da mente e da alma para nos libertarmos e voarmos mais do que as autoridades nos permitem; janelas virtuais para tocar outros no coração e sermos tocados de volta.

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