Carta aberta ao coronavirus

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Viste deixar-nos a vida do avesso, é verdade. Ninguém estava à espera disto. 2020 vinha com grandes promessas, de recomeço, de estabilidade, de fixar e reestruturar a nossa energia, a nossa evolução, o resultado do nosso trabalho individual e enquanto espécie de desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, bem como de expansão da consciência.

Vieste e lixaste-nos os planos, de convívio e celebração da amizade e da vida. Em Portugal vieste mesmo na virada da primavera e das férias da Páscoa, arrasando com planos de férias e de viagens. Vieste e suspendeste tudo, carregaste no botão de pausa e decidiste fazer um reset, como quem diz:

“Fica tudo em casa! Já chega! Andaram a brincar estes anos todos, e o que aprenderam até aqui, hã? Julgam-se superiores à natureza, julgam-se superiores a Deus? Brincam com a vossa liberdade, brincam ao despertar da consciência e à espiritualidade, às energias do bem e da gratidão. Falam como se soubessem tudo, contradizem-se ao não fazerem o que pregam. Seres evoluídos e conscientes julgam-se vocês… Coitados, nada são. São um joguete de forças que nem têm capacidade para compreender. Forças humanas, jogadas políticas e económicas. Quem manda em vocês e quem dita tendências são aqueles que estão acima de tudo, de qualquer moral e senso de justiça. Peões, é o que são. Vão despertar agora? Vão parar de consumir tal parasitas? Vão deixar de produzir tanto lixo? Vão continuar alheios à Vida? Ao planeta? Às vossas responsabilidades e deveres para com Ele? Estão a ver os resultados da vossa existência na Terra? Percebem agora? Vão despertar, finalmente, ou vão continuar a dormir? Pensam que só os vossos trabalhos importam? Que sem eles não (sobre)vivem? Pois vejam, reparem. Estão a trabalhar agora? O mundo parou? Não, o Mundo continua a girar. A Vida continua a acontecer lá fora e dentro de casa, dentro de vocês. Continuam a respirar. A Vida continua, apesar de vocês. A vossa experiência é só trabalhar e, nos tempos livres, anestesiarem-se? Não. Agora parem. Sintam. Pensem. Reflictam. Percebam. O que vão fazer com este Tempo que vos dei? Não o pediram? Não o rogaram, imploraram por ele? Esse tempo está aqui. Esse tempo chegou. O que vão fazer com ele? O que vão aprender com ele?”

Sim, eu oiço-te. Eu sinto a tua raiva, a tua revolta, a tua força arrasadora. Se tenho medo? Não. Aceito-te, tal como és, tal como vens, de onde vieres. Não me importa se foste feito por humanos, por Deus, por aliens ou por uma mutação da natureza. Não interessa. Sabes porquê? Porque aceito o plano da Vida. O plano da Alma, o plano Divino. Seja ele qual for. Aceito o que vem. Desprendo-me disso, de qualquer resultado, de qualquer processo. E sabes como consigo fazer isso? Desligando-me do que está fora. Ligando-me só ao que está dentro.

Vens para instigar medo, para impor ordem e respeito. Vens como uma lei da natureza: viver, morrer ou sobreviver. Muitos de nós têm de se reinventar, sim eu sei, mas sempre assim foi. Crises vêm e vão. Quantas existiram nestes últimos tempos? Em décadas, séculos e milénios? Eu só vivi pouco mais de três décadas e já assisti e conheci tantas crises. Fora e dentro. Nós somos feitos de crises. De ciclos. Nós é que, constantemente (e propositadamente), nos esquecemos disso. Parece que não queremos ver.

Mas eu agora vejo. Na crise é onde vivemos. Nas nossas crises diárias, nas nossas crises comezinhas, mesquinhas, se escolho o branco ou o amarelo. Se ganho mais ou menos. Se tenho de fazer isto e aquilo que não gosto. Se tenho de fazer isto ou aquilo, ponto. Se começo ou termino um relacionamento. Se tenho um relacionamento e ele ou ela é assim ou assado. Estúpido, completamente. Estúpida a forma como usamos o nosso tempo, com preocupações e produções mentais. A vida é tão mais que isso.

Sim, obrigaste-me a parar. Eu que ia a um ritmo frenético, eu que ia tão bem, tão organizada, tão cheia de planos e objectivos. E sabes que mais? Ainda assim continuei depois de surgires. Porque não sabemos parar. Porque pensei que sabia parar, mas afinal não. Aprendi a continuar, sempre. Ainda hoje, percebo que tenho de o fazer e, mesmo assim, algo em mim, como um dínamo, me impele a agir, a ficar ocupada, a produzir. Bolas! Como cheguei a este ponto? Eu que apregoo o saber parar. Ah, como o feitiço se vira contra o feiticeiro…

E esta carta, que já vai longa, poderia bem ser um livro, de tanto que tenho para te dizer. De tanto que tenho para perceber, para tirar de dentro de mim. E sim, por mais que me custe, vou submeter-me à tua vontade, à força da tua lição: estou aqui, sobreviverei se assim tiver de ser, e aprenderei, aprenderei, por fim, a Parar. A Silenciar. A Ouvir. E sim, a Submeter-me à vontade do Espírito, ou Alma, ou o que seja que sempre me guia, mesmo quando não estou atenta. E aprendo também, a submeter-me ao Plano, ao Serviço ao qual me entreguei e que agora sirvo também, mesmo quando não sei o que fazer.

Mas continuo. Paro. Escuto. E entendo finalmente. E sempre esteve lá, a resposta que sempre procurei. Que vai ficar (sempre) tudo bem. Eu sei… Só tinha de aprender a confiar (novamente) nisso.

2 thoughts on “Carta aberta ao coronavirus

  1. Olá Paula🌼! Se pudesse subscrevia esta carta… sinto todas as tuas palavras, tão bem ditas, leio nelas a clareza da tua consciência observadora e assertiva. Gratidão por partilhares o que te vai na alma 🙏💗🙏

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