Podem os narcísicos mudar?

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A questão nem deveria ser essa: Os narcísicos podem mudar? A questão a colocar deveria ser: Os narcísicos estão dispostos a mudar? E a resposta é, normalmente, não – não estão dispostos a mudar, como tal, não podem mudar. Porquê? Porque os narcísicos têm um baixo insight, ou consciência crítica sobre si. Não assumem o erro, crítica ou qualquer responsabilidade pelos seus comportamentos ou emoções. Tudo o que acontecer, será sempre responsabilidade ou culpa do outro. Como pode alguém assim mudar? E a conversa poderia acabar por aqui.

O que é um narcísico? É uma pessoa que tem traços de personalidade patológica como ausência de empatia e consciência crítica sobre si, autocentrada, cujas necessidades têm de ser sempre satisfeitas a todo o custo, usando os outros como um meio para obterem o que querem, não reconhecendo limites pessoais, usando a culpabilização e a chantagem emocional para fazerem com que os outros se sintam mal por desrespeitarem ou não cederem a algo que o narcísico quer. O lema do narcísico é: primeiro eu, depois os outros, não reconhecendo as necessidades dos outros, seja de espaço pessoal seja de afecto, respeito ou reconhecimento.

O narcisismo é uma perturbação da personalidade e tem um nome para isso: Transtorno de Personalidade Narcisista. O que significa que é uma patologia crónica relativa à personalidade. Há pessoas que podem não ter a personalidade narcísica mas podem ter muitos dos traços dessa personalidade, e como em tudo, há variações de intensidade nos comportamentos narcísicos.

Normalmente o narcísico usa o charme e a sedução para cativar as suas “vítimas”, sendo carismático e envolvente nas suas palavras, para mais tarde, e assim que a pessoa com quem está desaprove ou não cumpra alguma das suas regras ou não satisfaça alguma das suas necessidades de atenção, afeição, ou aceitação incondicional, vai reagir intempestivamente, com fúria, desaprovação, crítica ou mesmo desprezo, com palavras mordazes de vitimização.

Basicamente, estar com uma pessoa narcísica é caminhar com uma bomba relógio nas mãos. Nunca se sabe quando vai rebentar, nem porquê. Se a pessoa que está com um narcísico revela ter necessidades próprias de ter tempo e espaço para si, ou se pede mais do que o narcísico é capaz de dar, o narcísico vai desaprovar e dizer que essa pessoa não cuida da relação, que essa pessoa não é boa o suficiente para ele, que é negligente, que é egoísta, etc. No fundo, uma projecção constante sobre o outro. Pede tudo aquilo que é incapaz de dar. Pede uma lealdade incondicional aos seus desejos, vontades e caprichos. Como vê, é difícil agradar constantemente uma pessoa assim.

Os narcísicos vêm em todas as formas e cores. E o que quero dizer com isto? Que pode ser o seu marido ou companheiro, pode ser a sua mãe ou a sua sogra, pode ser o seu filho, o seu pai, o seu irmão. Muitas das vezes os familiares dos narcísicos não os reconhecem como tendo uma patologia. Pensam que é “feitio”, que é uma pessoa complicada, que tem “humores”, que é uma pessoa inconstante ou egoísta. Essas pessoas têm padrões instáveis de relacionamento, pois nunca ninguém preenche todos os requisitos humanamente inalcançáveis que o narcísico estabelece. Ele não é capaz de dar, mas quer receber tudo o que o outro tem para dar. Coloca-se ao nível de um Deus.

O narcísico vive miseravelmente frustrado, julgando-se vítima do desamor dos outros, que nunca lhe dão o suficiente, nunca fazem o suficiente, nunca são o suficiente. E, quem vive com uma pessoa assim, fica com a sua autoestima arrasada, por se sentir sempre inferior, não merecedor, não suficiente, porque o narcísico vai afirmar isso vezes suficientes até que a outra pessoa se convença disso. Não esquecer que são sedutores e manipuladores emocionais natos.

Como tal, pode compreender porque será tão difícil este perfil mudar – exactamente porque esse perfil nunca assume que poderá estar errado ou que precisa de mudar. Para este perfil, quem precisa de mudar são os outros. Consequentemente, não o irão encontrar em consultas de psicologia, e se lhe diz que ele precisa de ajuda, dirá que não está bem da cabeça e que quem é doente é você. De facto, aqui quem pode precisar de mudança será mesmo quem convive com este perfil. Das duas uma:

1. Aceita que o seu familiar, companheiro ou companheira tem este distúrbio e poderá nunca mudar, e mesmo assim assume e decide manter-se por perto.

2. Não aceita os comportamentos nem o perfil dessa pessoa na sua vida e resolve afastar-se, se isso for possível para si.

Afastar-se pode ser mais fácil caso a pessoa em questão seja um namorado ou namorada, marido ou esposa. Caso o perfil narcísico seja um filho, a mãe ou o irmão, poderá ser mais difícil, e mesmo assim há pessoas que o fazem. Aqui a questão é: como conviver com uma pessoa com esta patologia? E a resposta é: limites. O narcísico não vai gostar que lhe imponha limites e vai reagir a eles, vai ficar zangado, vai rejeitar qualquer argumento que use.

O melhor é não se justificar, simplesmente anuncia quais são os seus limites daqui para a frente e que há consequências se esses limites não forem respeitados (as consequências decide você quais serão). E daí para frente há que manter-se firme e não entrar em disputas em lutas de ego pois vai perdê-las todas as vezes. Tem de ser muito assertivo/a e manter as suas decisões. O narcísico, a mal ou a bem, vai adaptar-se, com maior ou menor resistência (conte, contudo, com a maior resistência possível).

Se for muito difícil navegar por estas águas e ainda não estiver a conseguir ver com clareza o que fazer ou se o seu familiar será narcísico ou não, procure ajuda psicológica para fortalecer a sua autoestima, para trabalhar os limites e a assertividade, e para poder esclarecer as suas dúvidas. Por si e pela sua saúde mental.

 

2 thoughts on “Podem os narcísicos mudar?

  1. Tema interessante. Acredito que tentar mudar as pessoas é um caminho de frustrações. Mudar a si mesmo já é um desafio. A sugestão sobre impor limites pode funcionar em algumas situações, em outras com níveis altos de comportamentos irracionais, muitas vezes é preciso tomar decisões difíceis e até mesmo romper o relacionamento – quando possível. Importante não permitir que essa situação de sofrimento se agrave e se estenda por muito tempo.

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