Viciados em viver sob stress

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Parece que nem sabemos viver diferente sem ser sob stress, não é? Nem reparamos, mas habituámo-nos a estar constantemente sob stress e pressão, com a urgência sempre em algo. Habituámo-nos a sentir que tudo era urgente, que temos de dar resposta, que temos de produzir, e andamos assim, em piloto automático a maior parte das nossas vidas.

Começa na escola, com os horários, com as provas, os TPC, os testes, o tomar banho, o jantar, o deitar cedo a horas, para novamente recomeçar no dia seguinte. E continuamos assim, até à idade adulta, nos nossos trabalhos. Claro que, aos domingos, feriados ou folgas, se ficamos a descansar em casa sem nada fazer, ou acordamos tarde, se for preciso, até nos sentimos culpados com isso: “Fogo, não fiz nada o dia inteiro… Que mau”, pensamos. Como se tivéssemos constantemente alguém a a vigiar-nos e a olhar por cima do nosso ombro.

Perante este cenário, vivemos numa resposta de luta ou de fuga constante, accionada pelo nosso sistema nervoso, que produz químicos como o cortisol e a noradrenalina, que nos mantêm vigilantes e prontos para a acção a qualquer momento. Isso faz com que tenhamos dificuldade em relaxar, insónias, ansiedade e ataques de pânico. Este estado é impelido por uma sociedade de consumismo e produção em massa que nos transforma em pequenos soldados que têm de estar preparados para tudo e dar resposta a tudo, a qualquer momento. Essa condição agrava com a existência da tecnologia que nos permitiu estar contactáveis 24h por dia.

Neste ritmo frenético, estamos a ficar doentes, e não é só pelo ritmo frenético, é também pelo que consumimos, em termos do que assistimos e do que comemos e bebemos. Demasiado açúcar, álcool, sal, produtos processados e demasiadas farinhas brancas (gluten de trigo geneticamente modificado, principalmente). Demasiadas notícias e o alarmismo constante dos media. Um estado de stress constante, suprime o nosso sistema imunitário, faz-nos deprimir e entrar em exaustão (esgotamento ou burn out). O nosso corpo não foi preparado para resistir a um stress constante no tempo. As respostas de stress devem ser agudas, para resolvermos algo rapidamente, ou para fazermos algo a tempo.

Existe o stress físico, o stress químico ou orgânico, e o stress emocional. O físico diz respeito a traumatismos ou ferimentos, como partirmos a perna num acidente, por exemplo. O stress químico diz respeito a uma alteração biológica, como um vírus, por exemplo, e toda a reacção do nosso organismo a essa ameaça externa que vem perturbar o equilíbrio orgânico. O stress emocional acontece quando algo nos perturba, como uma separação ou um divórcio. E todos estamos sujeitos a estas ameaças diariamente, principalmente o stress emocional.

O stress emocional acompanha-nos a vida toda. Quando bebés, tudo existe para nos agradar, tudo nos era providenciado com relativa facilidade, e obtínhamos tudo o que precisávamos, como as necessidades de afecto, segurança e conforto, bem como de nutrição. Isso acaba após os primeiros anos de vida, quando os nossos comportamentos começam a ser desaprovados pelos adultos e começamos a ter uma noção de certo ou errado, que às vezes vão contra aquilo que nos faz sentir bem, e temos de deixar de o fazer, por receio do castigo, da reprimenda ou da desaprovação, e é aí que o stress emocional começa: o medo da desaprovação dos outros.

O medo da desaprovação coloca a nossa sobrevivência em causa, pelo menos a nossa percepção de sobrevivência. Sentimos que, ao sermos desaprovados, podemos deixar de pertencer, como tal, ter a nossa sobrevivência em risco, visto que dependemos de terceiros nesta fase. Dessa forma, faremos tudo para pertencer, e isso envolve seguirmos as regras que nos impõem, quer concordemos com elas ou não. Até porque, nesta idade não temos um desenvolvimento cerebral que nos permita um sentido crítico e de argumentação apurados, bem como uma autonomia, que nos permita contestar a autoridade vigente, seja pai, mãe, professor, ou qualquer outro adulto. Aí entram as regras da hierarquia.

Crescemos e esse medo continua connosco: da desaprovação e da perda de afecto. Esse medo vem com uma cláusula inconsciente, de que a desaprovação causa a não sobrevivência, só que nesta fase, a de adultos, não dependemos fisicamente da aprovação, apenas emocionalmente. Faço-me entender? No fundo, levamos a vida a querer agradar, consciente ou inconscientemente, ou, pelo menos, a não querer desagradar, para não perdermos a aprovação e o afecto de outros. Como tal, podemos sujeitar-nos a quase tudo, como um emprego de que não gostamos, uma relação onde não somos felizes, só porque “O que os outros dirão se eu fizer diferente?”.

Isto é uma parte da história. Outra é as nossas crenças, que derivam das aprendizagens que fizemos nos primeiros 7 anos de vida, considerando que tal “tábua rasa”, recebemos a maior parte da programação social e cultural do meio onde vivemos, que é dizer todas as regras e expectativas que os outros têm sobre nós. Como não viver por elas, se toda a vida nos disseram como tínhamos de viver? O que ouvimos, o que vimos, foi num determinado sentido? “Cumpre as regras e serás recompensado”. Vivemos assim, numa formatação constante, e tornamo-nos adultos cumpridores, a todo o custo, para não “infringir” a lei, porque infringir a lei tem (e sempre teve) consequências.

Mas, e quando essas “leis” não servem o nosso propósito mais elevado? Todos somos dotados da capacidade de pensar, de analisar e de reflectir. O nosso sentido crítico pode ser instigado, podemos colocar-nos questões e refutar algumas crenças que temos mantido. Sim, isto é possível. E todo este tema daria toda outra dissertação, aqui o que importa é: o que acreditou até aqui que lhe servia? O que não serve mais? O que está a limitara sua vida neste momento? Há que questionar isso, bem como o seu estilo de vida, e a sua maneira de pensar. Nada impacta mais a nossa vida do que a nossa maneira de pensar. Alterando isso, podemos alterar quase tudo nas nossas vidas. Há que começar por aí.

 

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