A matriz do medo

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Todos nós nascemos com um sistema de defesa incorporado, ou uma central do medo, de alerta, de vigilância, como lhe quiserem chamar. Faz parte do nosso sistema nervoso, conseguir detectar ameaças do meio e convertê-las em sinais que consigamos perceber, bem como activar recursos fisiológicos que nos permitam enfrentar essa ameaça. Só que muitas das vezes, e na sociedade estruturada em que vivemos, as ameaças que enfrentamos são muitas vezes sociais ou internas, como o medo da desaprovação, do erro, do fracasso, da rejeição ou do abandono, por exemplo.

Numa sociedade em que temos a sobrevivência garantida, casa, comida à disposição e meio de subsistência, os medos tornam-se mais complexos e menos práticos, comparativamente como era antigamente as questões da sobrevivência, que dependiam de encontrar abrigo e alimento para todos, bem como para se defender das condições climatéricas. Hoje temos supermercados e frigoríficos onde ir buscar e armazenar mantimentos, temos casas de tijolo e betão, bem como uma moeda de troca para adquirir todas as coisas básicas de que precisamos.

Mas fica o medo primário na mesma, por mais que tenhamos evoluído enquanto espécie e enquanto sociedade tecnológica e científica, como o medo da morte, do desconhecido e de não ter o suficiente: de não conseguir arranjar trabalho ou mantê-lo, medo de não ter as competências necessárias para conseguir singrar na vida, etc. Temos actualmente as questões de desemprego ou subemprego, baixas remunerações, condições de trabalho sazonais ou instáveis, etc. Como tal, continuamos a lutar pela sobrevivência, mas de forma diferente, ou com outras condições.

Apesar de tudo isto, o maior medo que a humanidade enfrenta é exactamente o medo do desconhecido, o medo de não saber. Não saber o que vem, não saber o que vai acontecer, não conseguir prever o futuro. Vivemos nessa matriz de medo que nos mantém reféns da necessidade de controlo, numa vã tentativa de conseguir conduzir as nossas vidas com o menor grau de incerteza possível. Como conseguimos isso? Arriscando pouco, jogando pelo seguro, não seguindo os nossos sonhos ou caminhos que nos dizem que é perigoso seguir – ainda que nos levem à maior concretização possível – temos medo da desaprovação, da crítica, da humilhação e do fracasso. Como tal, muitas vezes ficamo-nos por isso mesmo: pelo medo de falhar.

Carl Gustav Jung defendia a teoria do inconsciente colectivo, que no fundo é um sistema de crenças colectivo, onde todos, de certa forma, vamos beber. Da mesma forma de que herdamos as estruturas cerebrais com as quais nascemos, herdamos também um sistema de crenças, que está enraizado na nossa cultura de pertença e na sociedade à qual pertencemos, onde habitamos ou onde crescemos. Podemos distanciar-nos muito da nossa cultura e até viver no outro lado do planeta, decidir viver sozinhos numa caravana algures ou entre os indígenas de um qualquer povo nativo de outra região do planeta, mesmo assim vamos levar as nossas crenças (e medos) connosco.

O que é que isto quer dizer? Que vivemos imersos num mundo de dualidade, de medo induzido pelos media, mas antes disso, pelos grupos de dominação social que sempre existiram, como a religião (o clero) e os governos (e antes deles, a monarquia). Através desses grupos estruturados de pessoas que eram e são encarados como figuras de autoridade às quais temos de obedecer, aprendemos o que era o certo e o errado, o que era bom ou mau, desejável ou indesejável. A bíblia e as leis foram “inventadas”, ou criadas, para estabelecer uma norma à qual todos nos temos de submeter de forma a pertencer a uma dada sociedade. O não cumprimento ou respeito dessa norma, teria consequências terríveis.

E assim aprendemos a temer o que os vizinhos dizem, o que os outros dizem, de nós. Temos essa forma de controlo social, em que amigos, familiares, cultura escolar ou laboral, nos dizem (nos relembram) os ensinamentos patriarcais que foram passados de geração em geração: há que obedecer, a todo o custo, o que é pretendido de nós: produzir para a sociedade (para os outros) como forma de obter rendimentos para podermos sobreviver (comprar alimentos e pagar guarida). Ao mesmo tempo que nos ensinaram que desejar demais era arrogância e soberba, que não nos devemos orgulhar dos nossos feitos porque seria vaidade, que temos de ter cuidado com o que dizemos para não ferir o próximo, que a vida custa, que devemos fazer sacrifícios, etc.

E não, não tem de ser assim mais. Vivemos em 2020, década e milénio em que já deveríamos ter uma tecnologia muito mais avançada, um maior progresso médico e científico (já deveríamos voar em naves acima das nossas cidades como meios de transporte diário e ter braços, pernas e órgãos biónicos), ou uma realidade totalmente pós apocalíptica, mas ainda vivemos com crenças geradas na idade média. Como pode acontecer tal? É que as nossas mentes, estruturalmente falando, não acompanham o progresso das civilizações com a mesma rapidez com que evoluímos.

Ou seja, a evolução dá-se a passos muito lentos, apesar de nas últimas décadas ter havido um grande diferencial relativamente à era dos nossos pais ou avós. Falando da mente humana, e da nossa evolução sócio emocional, nada tem gerado mais desenvolvimento do que as novas terapias, os livros de autoajuda ou desenvolvimento pessoal, os cursos e workshops nessas áreas. Todos eles nos ensinam a pensar “fora da caixa” e exercitarmos o pensamento divergente, ou fazermos uma análise crítica do que acreditámos até aqui.

Nada é mais revolucionário que isto: contestar as nossas crenças. Já o defende a psicologia cognitivista há décadas, mas a psicologia tem vindo a ser introduzida nas nossas vidas diárias de forma muito gradual, e cada vez mais consistente. Então e como tudo isto se relaciona com a matriz do medo que falo? Sairmos dessa matriz requer esforço, paciência e consciência. Necessitamos elevarmo-nos acima dessa matriz. Desprendermo-nos e dissociarmo-nos dela. Ela existe sim, mas não requer a nossa participação. Basta-nos ter consciência dela, perceber que não nos temos de manter nessa matriz, e tomar as medidas para deixar de participar, ou estar imersos, nela.

O que é necessário para fazer isto? Constantemente optar pelo caminho da confiança, da entrega e da renúncia ao medo que paralisa, ao medo que nos faz questionar constantemente o nosso valor. Herdamos toda uma programação de escassez, falta, insegurança, medo e dúvida dos nossos ancestrais, mas essa programação não tem de ser mais nossa. Agradecemos, confiamos, e deixamos ir. Primeiro tomamos consciência dela, depois trabalhamo-nos para escolher as crenças que verdadeiramente queremos manter. E é isto.

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