A menina que guardava segredos como quem guarda tesouros

girl-797837_1920

Quantos de nós não guardamos segredos? Nossos ou de outras pessoas, quer seja de amigos ou mesmo de familiares. Esta é a história de uma miudinha que queria fazer a família feliz, e guardou tudo o que não era seu para guardar, e, por isso, suportou um grande peso que nem sabia que tinha. Por amor, por lealdade, quis aliviar a carga a todos, e não percebeu o quanto isso a afectava.

Esta é a história de uma menina que foi crescendo numa determinada família que, tal como todas as famílias, tinha segredos. Segredos que se guardavam entre mulheres, e segredos que se guardam entre homens. Mas a esses ela não tinha acesso, afinal era apenas uma menina. Se fosse menino seria diferente, e aí já pertenceria aos segredos dos homens. Esses segredos dos quais, sem querer, fez parte, eram segredos relacionados com a vida e com a morte, com a saúde e com a doença, com o nascer e com o perder.

Tal como em todas as famílias, há amores e desamores, encontros e desencontros, histórias de traição, violência, engano, incesto, perdas, rejeições e abandonos. Não há que enganar, as famílias são constituídas por dezenas e dezenas de elementos. Não pensem que estamos aqui a falar só de pais e mães, tios e tias, avós e avôs. Essas são as histórias que melhor conhecemos, e, mesmo assim, não as conhecemos completas, inteiras. Vamos ouvindo retalhos aqui, retalhos ali, nunca a história de fio a pavio. E ainda bem, é assim que tem de ser. Cada um com a sua, e cada um sabe de si. Só que não.

Mal sabemos nós, e eu descobri isto recentemente, de que, mesmo não sabendo, participamos de destinos, de histórias que não são nossas, pelo simples facto de pertencermos a determinada família. E quando falo de família, estou a falar de uma família alargada, que compõe todos os elementos desde o princípio, até ao fim dos tempos. E, quando sabemos, estamos a representar, ou a vivenciar, um tema que é da nossa família – e tal como em todas as famílias, há temas que são a trama principal e em que todos, mais ou menos, estão envolvidos, cada um à sua maneira, enredados no destino colectivo daquela família, que é vivenciar determinadas coisas.

Voltando à história, depois de todas as voltas que a menina deu, um dia ela cresceu e percebeu que afinal tinha guardado tantos pesos que já não queria mais guardar, ou suportar. Teve de devolvê-los. E estes pesos, deixem-me que vos diga, não são fáceis de largar. Exigem esforço, consciência, e uma grande dose de coragem. Por vezes faz-nos até sentir peso na consciência, ou culpados de o fazermos. Mas, desta vez, esta menina-que-se-fez-mulher, largou finalmente esses pesos, sem dó nem piedade – que é como quem diz: completamente decidida -, com amor por si e pela dor que tão valentemente carregou sozinha até ali, e disse:

“Aqui está, este peso é teu, deixo-o contigo. Percebo que ele não é meu para carregar, é teu. Carreguei-o até aqui, mas agora deixo-o e fico livre deste peso. Ele não é o meu segredo. É o teu. Como tal, a carga de o carregar não é minha, e hoje eu vejo. Aqui está, fica contigo e eu fico livre. Eu sou inocente.”

E assim foi. A menina pode agora crescer em liberdade e leveza. Devolveu um peso de cada vez, cada vez carregando menos aquilo que não é seu, devolvendo, de tempos a tempos, pesos que não são seus, a quem verdadeiramente pertencem esses pesos. Pôde então crescer feliz com a certeza de saber que estava a fazer o melhor por si, por todos os que vinham antes e por todos os que viriam depois, reconciliando-se com a sua história, respeitando a hierarquia dos acontecimentos, e podendo ser pequena enquanto outros antes dela ficam os grandes, capazes de guardar os seus próprios segredos e os seus próprios pesos.

Ela, ao crescer, irá ter os próprios pesos para carregar, mas esses serão novos e apenas aqueles que pode realmente carregar – e não serão mais os de outras pessoas antes dela. E assim é. Ela pode ficar pequena perante a grandeza dos que vieram antes dela e essa é a lei da hierarquia: quem veio antes pode e é responsável por aquilo que é seu. Os que vêm depois nada podem com a grandeza do que sucedeu antes. Os mais novos tomam a força da vida e levam-na para a frente e para o futuro. Não é sua responsabilidade ou dever guardar o que foi e pertence aos mais velhos.

(Esta temática pertence aos movimentos das Constelações Familiares, que são regidos segundo algumas leis ou ordens, nomeadamente o pertencimento – o direito de pertencer a determinado sistema, a hierarquia – que foi explorada nesta história, e o equilíbrio entre dar e receber.)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s