Há partes nossas que se recusam a morrer

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Defendo esta teoria, quase como uma explicação para as nossas defesas ou resistências relativamente à mudança e aos assuntos do coração. Criamos uma série de defesas para nos protegermos de desilusões, dor, mágoa, perda, ou, no geral, do sofrimento. Contemos o choro, aprendemos a ser duros, resilientes, marchando em frente tal soldados da vida, porque não há hipótese de não seguir em frente. Os dias sucedem-se e continuamos, por ali afora, aos trambolhões pela vida, fazendo o que podemos e o que sabemos, defendendo-nos dos desafios da forma que conseguimos, ou até fugindo deles e evitando-os.

Mas tudo isso fica, tudo isso tem impacto, até o que achávamos que não teria tanto impacto assim, e seria apenas um facto ou um marco histórico nas nossas vidas, ou informação factual com pouca ou nenhuma (pensamos nós) emoção associada. Como em muitas coisas na vida, nem tudo é o que parece e tudo onde fomos envolvidos, tem um impacto. Tudo nos enreda quando é a história da nossa vida e dos seus envolvidos, principalmente a família.

Herdamos coisas que nunca julgámos herdar, como uma série de informações emocionais, tramas e ligações inconscientes ao legado do nosso clã, da nossa família. Herdámos um destino colectivo, cujos elementos desse colectivo, todos têm uma parte, mesmo não querendo. E quando vamos fundo, exploramos essas dinâmicas – porque sim, nem tudo é trabalho só connosco e com os nossos pensamentos, crenças e traumas – podemos perceber, de facto, o que tanto nos limita e prende, e sem dúvida que estamos enredados na história da nossa família e dos seus temas.

Acerca dos temas, são variados, como a violência, a agressão, a traição, a escassez, o alcoolismo ou outras dependências, doença, questões de saúde mental, etc. E nós carregamos connosco esses temas também. Se não os sofremos na pele, iremos, certamente, escolher um parceiro ou parceiro que nos mostre isso mesmo. Não me perguntem qual a ciência desses encontros, porque não sei se há, mas o que é certo é que acontecem, tal e qual dessa forma: todos os nossos relacionamentos espelham temas que trazemos em nós. É exactamente assim que os podemos ver, aprender e evoluir.

Quanto às partes em nós que não querem morrer, são essas mesmo: as que precisam ser vistas, honradas e reconciliadas antes de partirem subtilmente, como espíritos do além que até à data só nos importunavam, mesmo que os tentássemos espantar, recalcar ou deixar de ouvir, e que finalmente cumprem a sua missão e podem enfim partir em paz. Costumo defender que as emoções são mensageiras, e todas essas partes em nós que gritam agonizantes até as ouvirmos e fazermos caso delas, são isso mesmo – mensagens que precisamos escutar sobre nós, sobre o nosso passado e sobre a nossa família.

Não, elas não querem morrer, não querem deixar de existir, tal é a nossa relação com esses conteúdos latentes. Costumamos querer calar essas partes, rejeitamo-las, queremos suprimi-las, mas o segredo aqui é, por mais aterrador que pareça, é deixar tudo isso vir à superfície, com ajuda de alguém experiente, preferencialmente, para podermos olhar tudo isso e fazer as pazes com o que lá está, honrar o que precisa ser honrado e ver o que precisa ser visto e compreendido. Isso sim é libertador.

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