O princípio multiplicador e a equanimidade

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Tenho usado bastante esta expressão ultimamente, que me surgiu em uma das minhas consultas. Tentando explicar o que acontece quando tomamos as dores de outras pessoas, fenómeno tão comum em quem procura terapia, e talvez até entre todos nós. Ao fazermos isso, estamos a multiplicar essa dor, e não a dividi-la ou a amenizá-la. O que é que eu quero dizer com isto, perguntam-se vocês? Que ao partilharmos da dor de uma pessoa, não vamos fazer com que essa dor seja menos pequena para ela, ou mais tolerável, e muito menos vamos conseguir fazer com que essa pessoa deixe de ter essa dor, ao senti-la com ela.

Por empatia, por simpatia, por compaixão, pena, e até por amor ou lealdade, queremos ajudar os outros à nossa volta. Achamos nós mesmos a dor ou o sofrimento tão pouco toleráveis que queremos ajudar outros a sair desse sofrimento, dessa dor, a sair dessa situação difícil ou desconfortável. Até nós terapeutas às vezes, tendo a melhor das intenções, podemos cair nesta armadilha, que é tentar salvar o outro da sua dor ou da sua própria história dolorosa. Ao fazermos isso, todos nós enquanto seres humanos, não estamos a ajudar, mas sim a ser paternalistas, ou “maternalistas”.

Ao tomarmos para nós o que não é nosso, excedemos a nossa própria carga, que já de si inclui também as nossas mágoas e dificuldades. Não nos faz justiça a nós, nem ao outro nem ao mundo, porque aí estamos a perpetuar, a tornar eterno e a multiplicar a dor: sente o outro, sentimos nós, e sentirá quem gosta de nós, e por aí adiante. Faz sentido isto? Aqui o princípio a entrar em acção seria o da divisão, ou o da equanimidade, que é, por definição:

1. Igualdade constante de ânimo ou de temperamento em qualquer conjuntura da vida.

2. Serenidade mental.

3. Juízo ou comportamento imparcial. = IMPARCIALIDADERECTIDÃO

Como tal, mesmo não sendo terapeutas ou psicólogos, todos nós devemos ficar exactamente no lugar que nos cabe, naquele que é nosso e só nós podemos viver e sentir. O que é do outro cabe ao outro sentir, sofrer ou viver. Nós podemos ser amigos, companheiros, preocuparmo-nos com a outra pessoa, sermos empáticos, aconselharmos, escutarmos, mas não nos envolvermos emocionalmente com a trama ou história que o outro traz, ainda que esse outro seja o pai, a mãe, o irmão ou a irmã, o marido ou a esposa, o melhor ou a melhor amiga.

Este conceito é novo para nós, e sempre nos disseram que seríamos egoístas se estivéssemos alegres e contentes quando o outro está a sofrer. Como num funeral: todos temos de estar cabisbaixos, mostrar solenidade e sentir alguma forma de dor ou tristeza. Tanto que nos cobrimos de luto (figurativamente falando, já que actualmente não praticamos o luto como em gerações anteriores). Isto é aprendido na infância, se alguém está a sofrer perto de nós, não podemos sorrir, brincar, rir – temos de nos compadecer com a dor daquela pessoa. Há algo em nós que nos diz: se o outro não está feliz, também não o podes estar.

E este sim, é o princípio perpetuador do sofrimento, não só o que mantemos nas nossas mentes constantemente, mas o que é esperado de nós socialmente. Há a culpa pelo prazer, a culpa pela felicidade, apenas porque outros de nós não estão tão bem, então também não mereço estar bem, não é justo. E assim nos encobrimos a nós e os nossos sonhos, e dar a volta a isto requer uma boa dose de coragem, de consciência e decisão. Mas é possível. E como eu digo sempre, vale a pena! Por nós, pela nossa felicidade e pelo nosso sucesso em todas as áreas da nossa vida.

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