Não nascemos em branco

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Existe uma teoria que defende que todos nascemos como uma folha de papel em branco, ou tabula rasa, e que ao crescermos, vamos adquirindo as percepções, os pensamentos, as crenças e os comportamentos, de acordo com o que nos rodeia, como se a nossa consciência fosse desprovida de qualquer conhecimento inato. Com os estudos das ciências que analisam os factores decorrentes da gravidez, parto ou pós-nascimento, percebemos que o bebé já está sujeito a uma série de condicionamentos mesmo ainda na barriga da mãe, e em todo o processo para sair dela, bem como as primeiras experiências fora do útero, nas primeiras semanas.

As teorias genéticas defendem que herdamos uma carga genética, não só de traços físicos mas também características de temperamento, personalidade e inteligência, e os estudos transgeracionais indicam que herdamos uma carga familiar, não só de traços familiares mas de destinos comuns, lealdades e identificações inconscientes a outros elementos da família, quer estejam vivos, ou mortos. Parece estranho, como é que uma criança pode estar identificada com alguém que nem conheceu? Mas pode até dar-se o caso, como exemplo, de uma criança que se compadece com um irmão que nunca nasceu, pois foi gerada no mesmo útero que tem informações desse mesmo irmão. Uma vez cá fora, essa criança pode sentir que não merece viver porque o seu irmão não o pôde fazer. E este é um dos muitos exemplos.

Estas teorias explicativas das dinâmicas do ser humano tentam alcançar uma compreensão daquilo que se passa connosco, porque se passa daquela forma e o que é que se pode fazer a respeito. A psicologia e outras ciências vão beber a essas fontes no sentido de tentar encontrar não só explicações para os “porquês” mas também para os “como”, tentando encontrar fórmulas de diagnóstico e tratamento, de forma a superar o que conduz ao sofrimento, à dor e disfuncionalidade. Para mim, somos uma teia complexa de interacções, vivências, hereditariedade, legados geracionais, culturais e sociais, pensamentos e percepções próprias.

Quando olho para uma pessoa, posso observar uma série de mecanismos a operarem inconscientemente, e é o meu interesse poder pegar nesses mecanismos e torná-los conscientes, poder observar isso com o ou a cliente, mais até do que os aspectos conscientes daquilo que prende e limita essa mesma pessoa. O que é consciente nós podemos nomear e identificar e dizer: isto e isto limita-me, não me deixam avançar, acho que é por isto ou por aquilo que me sinto assim. E isso já é uma grande parte do trabalho. Cabe depois ao terapeuta, ajudar a pessoa a encontrar também as causas inconscientes, e elas estão lá, em comportamentos, pensamentos, crenças, na dificuldade em dizer que não, na dificuldade em estabelecer limites saudáveis e nas relações que não dão certo, na escassez e dificuldade em lidar com o sucesso ou abundância, por exemplo.

Então não, eu não acredito que nascemos em branco. Até um telemóvel novo vem com aplicações instaladas, tal como nós: nascemos com um cérebro reptiliano, repleto de informações e instintos de sobrevivência e medos comuns à nossa espécie, nascemos com um cérebro emocional e com um cérebro intelectual muito rudimental, que de facto se vai desenvolvendo com a socialização, mas está tudo lá, não só no cérebro, mas também nas nossas células, informações importantíssimas relativas à espécie e à família, prontas para eclodir quando fizer falta. E todos esses mecanismos operam em nós: o presente e tudo o que nele acontece e que dele retiramos, mas também o passado e tudo o que ele inclui de faltas, de excessos, de traumas, de exclusões, de buscas, insucessos e fracassos. Mas também há o bom, a força e a vida que vem dele e das aprendizagens que dele podemos tomar.

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