O peso dos desabafos dos pais para os filhos

girl-4000270_960_720

Os pais, por vezes, desabafam à frente dos filhos, queixando-se do seu casamento, da sua vida e das dificuldades que tiveram até ali, ou das dificuldades que a educação dos filhos lhes traz, dizendo coisas como: “Tens sido tão difícil a criar…”, “Tens dado tanto trabalho”, “Não tens sido nada fácil, não sei o que hei de fazer contigo ou o que será da tua vida daqui para a frente com esse feitio”, “O teu pai é tão mau para mim”, “Sofro tanto, tenho uma vida tão difícil”, “O casamento não tem sido nada bom, não sou nada feliz com o teu pai… Por causa dele não avanço na vida ou não consigo estar bem”, entre outras coisas.

Os desabafos dos adultos pertencem aos adultos. Os desabafos do casal pertencem ao casal. Os filhos devem estar protegidos deste tipo de discurso. Os filhos não são, nem devem ser tomados, como confidentes, como amigos, como ouvintes. Não cabe aos filhos partilhar das dores dos pais, das dores dos adultos e das dores do casal. Por processos de lealdade, de amor cego, os filhos assumem parte dessa dor, parte dessa angústia, e parte dessa culpa. Mais tarde, projectam isso nas suas vidas, tomando o casamento como algo difícil, por exemplo, de evitar, como um peso. Ou assumem que os relacionamentos são um fardo, ou sentem que não são merecedores de coisas boas, pois são tão “difíceis” que ninguém vai gostar deles, entre outras possibilidades.

Muitas vezes atendo adolescentes ou jovens adultos que vêm acompanhados pelas mães, queixosas, abatidas, deprimidas, em exaustão emocional, que arrastam os filhos como problemas, como dificuldades, pois também não sabem lidar com alguns comportamentos, sintomas ou transtornos dos filhos, e muitas vezes até desvalorizam esses mesmos transtornos, por ser demasiado difícil de encarar, por não saberem como lidar com isso, com o sofrimento dos seus filhos. Trazem os filhos aos psicólogos na esperança que o psicólogo “conserte” o filho, faça o problema desaparecer, mas o sintoma que traz o filho à consulta é, muitas vezes, um sintoma da própria família, de algo do sistema familiar que precisa ser visto e trabalhado.

Vejo também que o adolescente (não atendo crianças, daí dar este exemplo) sofre por fazer os pais sofrer, ainda que não mostre isso. Normalmente coloca uma “capa” ou uma máscara em casa, uma defesa, mostrando-se desinteressado ou desligado (“frio”), primeiro para não incomodar ou perturbar os pais, porque também lhe custa fazê-lo, depois porque não quer ouvir comentários, críticas ou desaprovação: “És um preguiçoso, não queres fazer nada, isso são coisas da tua cabeça, tens de superar isso, tens de ser forte”, etc. O adolescente apercebe-se das dificuldades dos pais e, normalmente, está consciente do peso que também traz à família, caso esteja deprimido, tenha ataques de pânico ou tenha um transtorno obsessivo-compulsivo, por exemplo.

Então não só está o pai ou a mãe à beira dum esgotamento, como poderão também eles próprios sofrer de depressão, stress ou ansiedade. Mas o filho torna-se o problema identificado – é ele que tem de receber tratamento, quando, muitas vezes, a própria família precisaria de intervenção. Não esquecer que o adolescente ou o jovem adulto está inserido num sistema, numa família, e as coisas não estão separadas. O que o jovem experiencia, muitas vezes é um reflexo do que se passa na própria família. Mas isso tem de ser explorado caso a caso, e, por vezes, a família terá de ser encaminhada para uma terapia familiar, por exemplo.

Quanto à abordagem a ter com o seu filho ou com a sua filha, que mostra sinais de ter um transtorno psicológico ou emocional, deve ser encaminhado sim, para um serviço de psicologia. Mas, por favor, não fale dele em tom depreciativo à frente dele, a outras pessoas. Estará a rotulá-lo como incapacitado, inútil, insuficiente, problemático, um peso e um fardo para si ou para a família. Como acha que ele se sentirá? Normalmente isso agrava a sua condição. Deverá protegê-lo também dos seus assuntos pessoais, das suas dores, daquilo que sofreu no passado. Você é responsável por aquilo que sente, se quer partilhar, deve fazê-lo com uma pessoa amiga ou com um terapeuta.

Como tal, a cada um cabe o seu próprio peso, o seu próprio fardo. O dos adultos pertence aos adultos, o dos pais pertence aos pais, o do casal pertence ao casal, o do adolescente pertence ao adolescente. Pesos não devem ser partilhados, cada um fica com o que é seu, resolvendo-o da forma que for possível. Deve procurar-se ajuda, sim, se não sabe o que fazer com esses fardos. A vitimização do adulto em frente do jovem deve ser evitada e trabalhada com quem tem competência para isso. Falei um pouco nisto recentemente: O princípio multiplicador e a equanimidade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s