Distraímos a mente para não nos confrontarmos com ela

As redes sociais invadiram as nossas vidas nos últimos anos. Vamos ver o telemóvel só para abrir as várias aplicações e ver se há notificações novas, se alguém gostou ou comentou alguma das nossas publicações, para ver o que há de novo ou para abrir novas mensagens e responder a essas mensagens. Fazemos o scroll down no Instagram ou no Facebook várias vezes ao dia, clicamos numa história e deixamos rolar as próximas histórias até nos fartarmos ou até alguém enviar uma mensagem o que perfaz várias horas por semana só nisto, sem nenhum propósito a não ser o de estarmos aborrecidos e queremos distrair-nos. Com o telemóvel e com a televisão igual, no tal fenómeno de zapping. Há quem chegue a casa e ligue logo a televisão, para não estar em silêncio.

Dizemos que os miúdos hoje em dia são todos hiperactivos mas não percebemos que as nossas mentes, enquanto adultos, são hiperactivas também. Vivemos rodeados de inúmeros estímulos a toda a hora, principalmente dos dispositivos electrónicos que fazem parte das nossas vidas, cada vez mais. Quase todos nós trabalhamos com computadores diariamente, quando não estamos ao computador, estamos ao telemóvel, quando não estamos no telemóvel nem no computador, estamos a ver televisão ou no carro a ouvir rádio.

Andamos nestes transes diariamente, constantemente, dia após dia, ano após ano, e não nos apercebemos. Recebemos milhares de informações diariamente e temos a compulsão de estar disponíveis a toda a hora – nem o telemóvel desligamos à noite, e há quem até nem lhe tire o som, e receba notificações de tudo e mais alguma coisa ao longo da noite, bem como o próprio ecrã do telemóvel se acende várias vezes. Como tal, nem o sono se escapa à enxurrada de estímulos luminosos e auditivos. Isso e a televisão ligada no quarto para quem se deixa dormir a ver um qualquer programa. 

Ensinámos a nossa mente a consumir, a estar desperta constantemente, (hiper)vigilante, a todas as solicitações que já temos da nossa família, amigos ou trabalho, juntando a isso todas as notificações de telemóvel, as mensagens, os telefonemas, as redes sociais, os chats… Um sem número de inputs. Então questionamo-nos porque andamos sempre agitados, ansiosos, stressados, não dormimos como deve de ser, temos insónias, etc. Parece que temos de estar sempre em cima do acontecimento, não podemos deixar nada passar, nem deixar bada para trás, ou dá-nos a sensação que seremos nós a ficar para trás, nesta correria a que chamamos vida.

Temos um medo terrível de ficar no vazio, de ficar no silêncio, de ficar no presente, no que é, no aqui e no agora, e na fuga desse medo, rodeamo-nos de distracções para que não possamos perceber o quanto estamos assustados nem o quanto estamos sozinhos dentro da nossa mente e enredados nos nossos medos e inseguranças. Se passássemos tanto tempo a ler, a meditar, a passear na natureza, ou até no silêncio, como passamos nas redes sociais ou a ver televisão, garanto-vos que as vossas vidas (e mentes) seriam bem mais pacíficas. 

Tem educado a sua mente a ser uma menina mimada, que quando está aborrecida, stressada ou à espera de algo ou alguém, dá-lhe um pouco de Facebook ou Instagram. São as novas bolachas Maria: “Toma lá e entretém-te. Em vez de fazeres fita ou chorares, toma lá uma bolachinha”. Tem ensinado a sua mente, e o seu corpo, que tem uma recompensa se trabalha muito ou se tem um dia difícil, pode relaxar com um bom prato de comida ou alguma bebida alcoólica, e a fazer binge watching – que é como quem diz, ver séries como se não houvesse amanhã – na Netflix.

E assim vamos vivendo, de comportamentos inconscientes e sistemas de recompensa ou contenção das nossas emoções pouco adequados, que não trazem valor nenhum e que são, muitas vezes, mecanismos de distracção, fuga ou evitamento daquilo que realmente importa: o que se passa dentro de si e da sua cabeça. Podemos parar o que estamos a fazer e contemplar mais o que vai dentro de nós, comunicar com essas partes, dar-lhes um sentido e um conforto, em vez de fugirmos de tudo isso que nos compõe. Quando aprendermos a ficar com aquilo que nos surge, vamos poder viver mais despertos e mais conscientes, bem como mais em paz e em maior equilíbrio, apesar das distracções. Afinal, nós já não seremos a nossa própria distracção.

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