Somos muito mais pequenos do que gostaríamos

Não podemos salvar ninguém do seu destino, da sua dor, das suas mágoas, por mais que queiramos. Esse é um desejo infantil, e um pensamento mágico: “Tomo para mim aquilo que é teu. Sacrifico-me por ti, assumo parte ou a totalidade da tua dor”. Mas isso não funciona, pois não? Nem a outra pessoa fica mais leve nem mais aliviada da sua dor, pois vai continuar a tê-la pois faz parte da sua experiência e do seu mundo emocional, nem nós cumprimos o nosso propósito e o nosso desejo mais íntimo – sermos especiais (grandes), e capazes, ao ponto de fazermos tamanha proeza.

O síndrome do salvador e do cuidador está em muito boa gente, que tem as mais nobres e altruístas intenções, mas cujo resultado fica muito aquém do desejado. Perpetuamos a dor nesse sistema de lealdade – “eu sofro por ti” – e assim sofrem duas pessoas, e uma terceira se houver um filho ou uma filha. Conseguem ver a sequência deste sistema? A mãe ou o pai sofrem, a filha ou o filho sofrem pela mãe ou pelo pai, têm um filho ou uma filha que, por sua vez, sofre por ver pai ou mãe a sofrer. Quando é que isto pára? Nunca, se não sair desse sistema.

Fala-se de que vivemos em um planeta de expiação, de dualidade, de karma, da “roda do ratinho”, e é verdade. Vivemos imersos em sistemas de dor, de identificação e lealdade com outros antes de nós, e queremos fazer o que é certo por esse clã, que é perpetuar o seu legado – ainda que de dor, perda, falta e escassez. Como quem diz: “Porque vocês não puderam ter, não puderam ser felizes, eu também não posso, senão desonro esta linhagem”. E sentimo-nos culpados pela felicidade, pelo sucesso, pelo prazer e pela abundância.

Este processo é altamente inconsciente, está-nos no sangue e nas células, aliás, está-nos na programação celular. Foi assim que fomos desenhamos e é assim que a nossa a psique funciona, uma vez que é quando crianças que herdamos o legado e não o conseguimos destrinçar de nós. A criança tem um amor cego pela sua família, e por ela assume tudo. Enquanto adultos, estamos presos e não sabemos ao quê nem porquê, e quando ousamos começar a libertar-nos de tamanho fardo, sentimo-nos culpados. Afinal, ficamos em “má consciência”, que é fazer diferente, que é ficarmos só com o que é nosso e deixamos os outros, finalmente, com o que é só deles.

Essa leveza parece-nos estranha, ficámos tanto tempo agarrados a isso, que achávamos que era nosso. Como um animal selvagem preso numa gaiola, quando finalmente é solto, estranha a liberdade, duvida dela até, olhando para trás a medo, e para a frente, para o campo aberto, com leveza, entusiasmo e esperança. É exactamente assim que se deve sentir: leve, aliviado e entusiasmado. A vida pertence-lhe a si. Não gostamos de ser pequenos, mas repare, somos pequenos perante tamanha grandeza do que vem antes e do que é do outro, que pode exactamente com a carga que lhe foi destinada ou que se permite aceitar e viver.

Ficarmos na nossa pequenez, na humildade de nada podermos, é assustador, mas grandioso e fortalecedor ao mesmo tempo.

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