Paixão, intensidade e perda

Já viveu uma grande paixão, daquelas que fazem perder o fôlego quando vê a pessoa ou quando ela lhe liga ou manda mensagem? Uma paixão que mais parece uma obsessão? Aquela grande paixão que nunca esquece e que, inevitavelmente, compara com todas as pessoas que conhece e sente-se frustrado/a por mais ninguém igualar todas as coisas que viveu e sentiu com essa pessoa?

Pois é, ao que parece grades paixões não dão grandes amores nem uma vida serena de companheirismo, cumplicidade e amizade. Que o digam os grandes escritores e dramaturgos de todos os tempos. Onde houve uma grande paixão, também houve uma grande tragédia. O mais perto disso é a famosa história de Romeu e Julieta, bem como a história de Adão e Eva (e aí veio a sedução – a serpente – e acabou com a perfeição e calma que havia no paraíso).

Porque é que essas relações nos marcam tanto? Porque fazem-nos viver perigosamente à beira do abismo, como se estivéssemos entre a vida (o ter) e a morte (o não ter). Nessa dinâmica entre o ter a pessoa e poder perder essa mesma pessoa, surge a activação de um circuito neuronal que está envolvido na resposta de dependência neuroquímica a uma substância, libertando enormes quantidades de dopamina (sensação de prazer) quando o objecto da afeição está por perto ou dá sinais de vida, ou mesmo quando se pensa e fantasia com essa pessoa.

Viver perigosamente do abismo, sabendo que não vamos morrer fisicamente, faz desejar mais dessa adrenalina, dessa dose de excitação, porque não se sabe quando tudo isso vai acabar, se essa pessoa irá voltar ou não, se ficará ou não, e se sim, por quanto tempo. Tudo é uma incógnita, e nesse não saber, gera-se uma sede e uma compulsão por querer mais dessa intensidade. Então a intensidade está sempre ligada à perda ou à possibilidade da perda, como qualquer pessoa que desafia a própria vida, só para sentir o gosto do risco.

Há quem seja viciado em viver no limbo, arriscando a própria vida, porque tudo o resto parece aborrecido. Mas neste caso, o circuito de recompensa gerado pela libertação de substâncias químicas no cérebro após esses encontros com esse objecto de idealização romântica, faz com que se gere uma dependência emocional, de querer ter essa pessoa e saber que é perigoso ter essa pessoa, que jamais pode ficar por qualquer motivo.

Esse nível de activação não acontece com todas as pessoas que conhecemos, mas por alguma razão, acontece com aquele sujeito ou aquela sujeita em particular. Nesses casos, a intensidade não é possível de manter indeterminadamente no tempo, ou a longo prazo, por isso, ou a paixão esfria, ou a paixão converte-se noutra coisa qualquer. Dificilmente passa para amor, porque ou uma ou outra pessoa acabam por se afastar por ser “demasiado” para aguentar, como se o instinto de sobrevivência se accionasse e o evitamento ou a fuga fossem a melhor resposta.

Como tal, há coisas que são para ficar e perdurar. Outras não, porque ninguém consegue ficar tempo suficiente a sentir a iminência da perda (da morte) sem se afastar ou destruir esse sentimento de alguma forma. E você, já viveu uma grande paixão?

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