Responsabilidade que pesa vs responsabilidade que liberta

A responsabilidade que pesa é aquela que é excessiva, que é a mais, demais para nós, e muitas vezes não nos pertence só a nós – trazemo-la de trás, dos antepassados, dos padrões familiares, das mulheres ou dos homens da família. A responsabilidade por outros ou por coisas pelas quais nada podemos fazer, como a dor, padrões ou ensinamentos de outros antes de nós que já não fazem sentido actualmente, ou que já não têm de actuar actualmente porque actualmente podemos fazer diferente.

A responsabilidade que pesa é aquela que repetimos, pela força do legado, pela força do padrão histórico, como as mulheres que cuidam de todos, como os homens que garantem a subsistência da família e levam esse peso da vida ser um fardo, difícil, dura. O trabalho como algo pesado, duro, difícil. A felicidade ou o sucesso e a abundância ou prosperidade como algo inalcançável, ou muito difícil, ou que não é para todos.

O padrão de que a mulher deve ser sempre solícita, disponível para ajudar, para cuidar, para se sacrificar pelo todo, partilhar das dores das outras mulheres da sua família, e até do mesmo destino dessas mulheres: casar, ficar sozinha, ter filhos, não ter filhos, cuidar de outros familiares até ao fim dos seus dias, o que seja. O padrão de que os homens devem ser trabalhadores, arcarem com a responsabilidade de cuidarem das suas mulheres, dos seus filhos, das suas casas, ainda que em sacrifício do tempo em família e das suas próprias necessidades emocionais, como não poder assumir que está cansado, que está a sofrer ou de que não gosta do que está a fazer mas não pode mudar porque isso significaria a perda de sustento ou estabilidade familiar.

Padrões como falta, dificuldade, escassez, sacrifício, tomar as dores de outros e não poder ser feliz ou livre porque outros antes não o puderam ser, é a responsabilidade que pesa: a responsabilidade de repetir padrões que foram passados geracionalmente e que não têm mais de ser repetidos, porque às gerações posteriores (nós) cabe a possibilidade, e o direito, de poder fazer diferente, ainda que possa surgir a culpa do fazer diferente.

Por lealdade, e amor cego, achamos, inconscientemente, de que não temos o direito de prosperar, ser felizes ou livres quando outros antes de nós não o puderam ser. Podemos experienciar a culpa por nos afastar dos padrões da nossa família e fazer diferente, sendo a “ovelha negra”, por exemplo, como a pessoa que não pensa nem age da mesma forma do que o expectável e faz tudo ao contrário. Podemos até experienciar a crítica e o julgamento, porque a força destes pactos sociais, culturais e familiares está na previsibilidade do comportamento e do resultado.

Mas, e a responsabilidade que liberta, qual é? É exactamente essa de fazer diferente, reconhecendo os limites da anterior, reconhecendo o peso e o fardo que é repetir padrões passados de geração em geração, e reconhecendo de que é possível mudar, fazer diferente, ser livre desses padrões, ainda que com crítica ou julgamento e até desconhecimento, ficar no vazio e na estranheza do que é fazer algo de novo e diferente do que foi feito até aqui. E essa é a responsabilidade de seguir para a Vida, num posicionamento totalmente novo, mas com a capacidade de reconhecer e honrar o passado, bem como a coragem de assumir novos moldes de funcionamento.

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