Estamos infinitamente sós

Desde que nascemos, e se corta o vínculo físico com o útero, vivemos dissociados uns dos outros, enquanto indivíduos, e passamos a ser seres unos, individuais, uma unidade só. Mas essa unidade estranha a sua individualidade e quer regressar a um estado de “graça” e comunhão com o todo que tinha enquanto na barriga da mãe ou na “barriga” universal, ou fonte, antes de descer à terra. Procuramos por esse sentimento, sem nos apercebermos, toda a vida, essa sensação de completude, plenitude e satisfação, que não vamos voltar a encontrar com mais ninguém a não ser dentro de nós mesmos, numa conexão profunda a algo superior, de acordo com a crença de cada um.

A criança, alheada destes sentimentos ou percepções, vai crescendo no seio de uma família, até se individuar na altura da adolescência, altura em que começa a precisar, mais conscientemente, do contacto com outros e da identificação com outros, bem como a procura de um par, e começa a tomar contacto com a percepção de solidão, de estranheza e de questionamento sobre a vida, sobre si própria e sobre os outros, e aí começa a busca: a busca por si, por Deus e por uma companhia que complemente, que complete a sua existência. E aí começa também a desilusão: ninguém consegue preencher, a longo prazo, esse vazio que sente.

Estamos infinitamente sós. Ninguém consegue tirar-nos esse peso de cima, essa constatação de que nascemos sós e morremos sós, a partir do momento que somos unidades completas, e seres dissociados uns dos outros – esse é o princípio da solidão. Mais ninguém consegue sentir o que nós sentimos, pensar o que nós pensamos, e aliviar-nos da busca existencial e primordial por um sentido, pois cada um está na sua própria busca, e cada um sente e pensa de forma diferente e única. Também ninguém consegue dar-nos um consolo de tal forma que acabe com essa nossa angústia e necessidade de pertencer e dissolver-se em algo ou alguém. Essa é a derradeira ilusão: de que estamos separados uns dos outros e separados da fonte primordial. Não estamos, só temos a percepção de que sim.

Não é à toa que a meditação, yoga, mindfulness e outras disciplinas, bem como terapias holísticas, tenham vindo a ocupar um lugar cada vez maior na nossa sociedade, pois todas as angústias do ser humano, no fundo, são angústias espirituais: quem sou eu, o que faço aqui, qual o sentido de tudo isto, o que acontece quando morremos e o que vem a seguir? Não há ninguém que não se questione. O segredo é encontrar a sua crença, convicção ou prática espiritual que o/a leve para dentro, para dentro de si, e para cima, num alinhamento com a sua verticalidade e com uma experiência sensorial, de expansão de consciência, que o/a possa conectar com essa tal fonte de tudo que tudo acalma. Quando estamos perdidos e com dúvidas, esse é o lugar para estar: dentro e em conexão com esse algo superior. Ai estamos infinitamente completos, acompanhados e em paz.

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