Não conseguimos salvar ninguém

Já vos tinha dito isto? Pois é, que terrível notícia para quem tem o síndrome do salvador, que quer resgatar tudo e todos do seu sofrimento e miséria existencial. Quem pode com as dores dos outros? Os salvadores, pois está claro. Podem com tudo, só que não. Cuidam – ou tentam cuidar – das dores dos outros, mas falham miseravelmente, porque não conseguem – porque não é possível. E essa é uma das grandes desilusões do adulto: não conseguir salvar os outros dos seus destinos dolorosos. Destino como lugar de dor e de responsabilidade. Os outros adultos – pai ou mãe, outros familiares ou mesmo o/a companheiro/a – podem, são capazes, e responsáveis, pela sua dor e experiência, seja ela qual for.

Esta necessidade de salvar alguém vem da infância, da nossa criança, que quer salvar os progenitores e a família da sua dor e problemas. Perante tal amor cego – e lealdade – faz da sua missão de cuidar dos sentimentos e emoções de outros, ainda que lhe custe a vida, ou a saúde. Por esse amor cego sacrifica tudo, a sua paz, a sua liberdade e o seu sucesso, se for preciso. Fica refém dessa missão, de querer que tudo seja diferente, de querer que tudo seja perfeito, que todos se dêem bem e que haja o final feliz. Repete até as dinâmicas familiares nos seus relacionamentos no intuito de lhes dar um melhor desfecho: aquele que nunca olhou para mim (pai) finalmente me veja (companheiro), aquela que nunca cuidou de mim ou me aceitou (mãe) pode finalmente dar-me colo e compreensão (companheira).

Todos queremos o final feliz, e ficamos muito surpreendidos quando ele não acontece. Os outros não nos podem dar aquilo que queremos nem nós podemos tirar o outro do seu próprio sofrimento ou que escolha algo que seria indicado para nós só porque o desejamos. E aqui andamos todos às cabeçadas uns com os outros e nos nossos relacionamentos, querendo que o outro seja o nosso pai ou a nossa mãe, e que represente esse papel naquilo que faltou na nossa infância, porque nos falta sempre algo, dê por onde der. Só o pai ou a mãe dos contos de fadas é que são perfeitos, e nada lhes falta – são sempre gentis, generosos, presentes, carinhosos e amorosos, tudo perdoam e tudo permitem. Deve ser por isso que morrem sempre cedo, como que a representar esta transição da infância para a adultez quando se perde a noção de que os pais são perfeitos (“heróis”) e tudo podem.

Mas a vida não é um conto de fadas e não tem um desfecho de “felizes para sempre” quando se encontra o príncipe ou a princesa. Aí começa uma nova dinâmica de representações e projecções mútuas, em que ambas as partes do casal procuram na outra parte uma correspondência, e uma expectativa de conseguir aquilo que não foi conseguido no passado pelo próprio modelo de casal que os pais representaram, e pela própria criança face aos seus progenitores.

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