Deixar o ego à solta vs. matar o ego: o que fazer?

Qual a solução? Nem uma, nem outra. Se por um lado temos automatismos que se devem ao nosso ego – aquela parte ranzinza que está sempre zangada, oprimida, que é orgulhosa, ressentida, medrosa e invejosa – por outro temos automatismos que se devem ao funcionamento da nossa criança interior – a parte ferida, vulnerável, frágil, que muitas vezes se sente só, incapaz e perdida.

Quando deixamos o ego à solta, essa estrutura da nossa personalidade que se defende constantemente, que se compara e vitimiza, vamos reagir às situações e pessoas à nossa volta, e reagir é calcar no acelerador do piloto automático, e aí entramos em modo defesa, comparação ou ataque. Matar o ego também não é possível, tal como não é possível deixar de ter sentimentos ou emoções, ainda que possa tentar anestesiá-las da forma que conseguir.

Se não conseguimos matar o ego, ainda que tentemos ou gostássemos de ser pessoas perfeitas, sempre calmas, bondosas, receptivas, estoicas, cheias de candura e gentileza a todos os momentos – no fundo, uma ilusão, visto que a perfeição não é possível na forma humana – e não o podemos deixar a solto, como fazemos?

Observá-lo e aceitar que ele existe. Que difícil não é? Aceitar essa parte tão feia da nossa personalidade, assumir que ela existe e vai continuar a existir e que faz parte de nós… E faz, sem dúvida. Todos temos o nosso lado negro, inseguro, volátil, mesquinho, crítico que não queremos que ninguém veja, nem sequer queremos olhar para ele. Mas quando podemos olhar e rirmo-nos da nossa pequenez, podemos descontrair um pouco.

O trabalho com o ego – ou a aceitação dessa parte – faz-se com humor, não há nada melhor. Olharmos e rirmo-nos das nossas fraquezas, com o nosso mau humor, a nossa criancinha que quer colinho, que quer mimo, que quer aprovação e reconhecimento. Penso que, indo bem ao fundo da questão, essas são as duas partes fundamentais do nosso descontentamento e dificuldades na vida: a criança ferida e o ego ranzinza.

Mas há boas notícias, e não é o caso de “se não os consegues vencer, junta-te a eles”, porque podemos desenvolver uma terceira parte: a consciência. O lugar do adulto consciente é aquele em que podemos observar e contemplar as nossas feridas e pressupostos sem julgamento de “bom ou mau”, “certo ou errado” e sorrir para essas partes, acolhendo e aceitando que existem. A seguir, falar com elas com palavras de compreensão como: “Ok, já te vi. Agora posso ver-te. Está tudo bem, agora eu (consciência) tomo conta”, e vai ver que tudo se consola dentro de si.

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