O ópio da autoanálise

Há várias formas de nos anestesiarmos. Pode ser com comida, drogas, bebida, filmes ou séries, socialização ou ocupação compulsiva, trabalho em excesso, relações, o que seja. Mas conhecia esta, a da autoanálise? A autoanálise serve como protecção emocional pelo uso excessivo do mental para analisar e tentar perceber todos os detalhes da sua vida, os porquês, os sinais, as possibilidades de futuro, etc. E porquê protecção? Porque todas as formas de anestesia servem exactamente como uma compensação, ou protecção.

E do que nos protegemos nós? Da dor e do sofrimento, sempre. E fazemo-lo de várias formas que nos sejam possíveis. É tão aterrador para nós ficarmos em desvantagem, no vazio e no desconhecido, no desconforto, que o tentamos combater a todo o custo, até pela constante autoanálise, porque isso tira-nos do que é, do agora, do que foi e do que tem de ser, da forma que for e que tiver que ser. A nossa mente não suporta não saber, ficar no que é, no presente, com o que falta e com o que pode vir a ser. Mas há boas notícias, isso treina-se, apesar do desconforto que nos traz.

Para os viciados na autoanálise e na compreensão de todos os seus fenómenos mentais, emocionais, físicos e comportamentais (porque sinto, faço ou penso desta ou daquela maneira), não desesperem. Parem de tentar procurar todas as respostas, de saber toda a informação, de não perder pitada. Fiquem no vazio, no desconforto de não saber, abram o peito a isso, de não saber, muitas vezes, o próximo passo a dar, a próxima coisa a fazer. Não se julguem se ainda não estão no patamar ou no nível que gostariam de estar. Não se critiquem se ainda não fazem, ou pensam ou sintam da forma que seria a ideal. Não se julguem só porque tem sentimentos ou pensamentos contraditórios, dilemas, conflitos internos ou dúvidas existenciais.

Não se cobrem demais, não tentem perceber ou saber tudo. Deixem espaço para o desconhecido, para o grande mistério que é a vida. Deixem espaço para a surpresa, para o espanto, para o inesperado. Riam-se de vocês mesmos/as, do vosso ego a tentar perceber tudo, a querer saber e opinar sobre tudo. Fiquem na inocência do não saber, e então toda a vossa vida será uma prece, um êxtase, e o estado de presença que tanto procura.

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