Fazer as pazes com o medo

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Há várias imagens destas a circular nas redes sociais, a falar em como devemos sentar-nos com os nossos medos, fazendo as pazes com eles. Acho essas imagens deliciosas, porque é isso mesmo. No fundo, é olhar de frente para eles, identificá-los, dar-lhes forma e nome, simbolizarmos esse medo.

Ao olharmos de frente e reconhecermos o verdadeiro “bicho papão”, esse medo redimensiona-se, torna-se mais pequeno, e isto porque se torna visível, porque o estamos a enfrentar ou confrontar. E quando é assim, ele deixa de ser tão assustador.

Gosto imenso desse trabalho simbólico nas minhas consultas, uma vez que a carga associada a um medo imaginário reduz drasticamente quando fazemos esse exercício. A pessoa pensa: “Mas era disto que tinha medo??”. E ao percebermos de onde veio esse monstrinho, figura ou ideia, podemos descondicioná-lo ou reduzi-lo. Destraumatizar, no fundo. Ou ressignificar.

Quando racionalizamos os medos desta forma, eles tornam-se conscientes e não “fantasmas no armário” ou monstros debaixo da cama que vêm para nos apanhar desprevenidos. No fundo o medo o que é? É uma ideia ou preocupação, expectativa de algo acontecer de determinada forma, relacionado com experiências que vamos tendo ao longo da vida, crenças e condicionamentos sociais.

O que quero dizer com condicionamentos sociais? Muitas vezes os medos são causados ou adquiridos por aquilo que outras pessoas à nossa volta também receiam, e não só, há também os medos relacionados com os outros, com as outras pessoas. Há um inconsciente colectivo e toda uma panóplia de situações indesejadas, como o caso de falar em público, enfrentar um chefe ou outra figura de autoridade, medo de falhar ou errar, etc.

Quanto aos medos, podem ser enfrentados sim. Redimensionar, reduzir, diminuir, dissipar ou até eliminar. O medo é uma emoção ancestral com valor evolutivo, protege-nos do perigo e faz parte de nós, do nosso sistema de alerta que nos prepara para a resposta de luta ou de fuga. Quando o medo começa a ser intenso, constante e generalizado a uma série de situações injustificáveis, é altura de procurar ajuda.

 

Gestão emocional e padrões parentais (entrevista)

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A minha amiga e colega Rita Guapo, autora do blog Pés na Lua, convidou-me para um desafio que não podia recusar: dar uma entrevista sobre temáticas ligadas à parentalidade. Como tal, não poderia de deixar de falar nas questões relacionadas com a gestão das emoções e os padrões parentais que são adquiridos na nossa relação com os nossos pais ao crescermos, falando também no que é a hipnoterapia e como pode ser utilizada numa melhor relação – mais saudável e mais feliz – com os filhos e com o facto de se ser pai ou mãe neste mundo moderno.

A Rita criou uma nova rubrica no blog dela, que vale muito a pena conhecer: “Diz quem sabe”. Esse será um espaço de partilhas sobre temas ligados à parentalidade positiva e consciente, desenvolvimento infantil e adolescente, com a intervenção de vários profissionais e de várias áreas, que ajudarão a dar uma perspectiva mais rica e aprofundada aos temas mencionados.

Aqui vai o link para a entrevista na íntegra, espero que gostem 🙂

Níveis de mestria pessoal

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Esses níveis são conquistados com o nosso trabalho, autoconhecimento e autodesenvolvimento. Fazendo terapias, experimentado coisas novas, saindo da zona de conforto, desafiando-se.

Os níveis de mestria pessoal são vários e fazem parte do nosso crescimento e constante desenvolvimento e maturação, não só das nossas estruturas físicas e psíquicas, mas à luz da experiência e conhecimento que vamos adquirindo ao longo dos anos (maturidade).

Podemos aprender bastante com exemplos, gurus, autores, líderes, etc., mas o caminho da mestria pessoal dá-se de forma solitária, passado um determinado patamar (que temos vários). Eu costumo falar neste processo como quem sobe uma escada, uma escada que não tem fim, composta de vários patamares de pausa, ou descanso, para apreciação da jornada.

Porque é uma jornada esta viagem de crescimento pessoal, feita de altos e baixos, bons e maus momentos. Muitas vezes, quando julgamos que chegámos a bom porto, foi apenas um destes patamares transitórios de descanso, para novamente mergulharmos noutro desafio ou fase de crescimento.

Estas fases podem ser mais ou menos prolongadas. Há ciclos de várias fases. Há ciclos de uma só fase com vários mini ciclos dentro. Morte e renascimento. Como a cobra que larga a pele, sai de um molde antigo e cria um novo. Frágil ou vulnerável ao princípio, mas que se vai adensando ou tornando-se mais e mais rígido, tal couraça.

Tantas vezes temos de largar essa pele ou couraça… Tantas vezes ela nos deixa de servir. It’s a never ending story… Somos seres volúveis, volúveis nas nossas emoções, pensamentos e decisões também, por vezes. Mudamos de direcção várias vezes, idealizamos várias coisas e tanta coisa nos vai acontecendo contra a nossa vontade, mais vezes do que a favor da nossa vontade, se for preciso.

Desafios, pedras na calçada, buracos negros, dificuldades, pedras no sapato, sapos engolidos. Tantas vezes somos postos à prova e tantas vezes sucumbimos ao peso de quem conseguimos ser no momento. Tão incapazes, por vezes. Tão frágeis, tão presos. E vamos, vamos caminhando, vamos perseverando, tal ervinha que lá vai aguentando o inverno, as intempéries ou o verão abrasador.

Mas essa ervinha pode vir a ser flor, arbusto ou árvore gigante. Essa árvore pode ter raízes fortes, um tronco sólido e ramos a tocar no céu. Essa árvore balança mas não quebra, mesmo se os ventos forem fortes. Essa árvore resiste a tudo, a todas as estações, porque elas são necessárias e mais, elas vão acontecer, inevitavelmente.

Então eu digo, não desistam. Perseverem. Persistam. O inverno sempre tem fim, a primavera sempre chega. E a alvorada da alma sempre acontece, quando, por fim, chegam a um estado que sempre imaginaram ou ambicionaram, um patamar amplo e aconchegado, onde podem optar por continuar ou ficar ali mesmo.

A vida é um ciclo sem fim. Percorra os vários patamares possíveis, vai valer a pena.

Não consigo dormir! E agora?

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Tenho atendido algumas pessoas com problemas graves do sono, nomeadamente insónias, ou quem me diz que passa a noite em claro e, quando dorme, tem pesadelos ou é um sono agitado ou pouco reparador.

Normalmente, estas pessoas podem ter passado por períodos de sono interrompido, como no caso do trabalho por turnos, maternidade, cuidar de um idoso, pessoa acamada ou dependente. Nestes casos, anos podem passar-se sem um sono reparador de uma noite seguida ou as horas necessárias para um verdadeiro descanso.

Outras situações que podem provocar a dificuldade em dormir toda a noite, levando à privação do sono em casos mais graves, podem envolver violência doméstica, bullying, preocupações constantes, pesadelos, stress crónico, ansiedade generalizada, medo ou pânico.

O que mais tenho visto são problemas de ansiedade generalizada, com dificuldade em “parar a mente”, “desacelerar” ou abrandar o ritmo. Estas pessoas, podendo ter passado pelas situações acima mencionadas ou não, sofrem de uma dificuldade em parar a sua actividade quotidiana de trabalho e tarefas domésticas. Sentem-se extremamente responsáveis por tudo o que fazem, como tal, não podem “baixar a guarda” ou ficar desatentas.

Este estado de alerta e vigília constante, leva o organismo a estar constantemente preparado para uma situação de luta ou de fuga, libertando quantidades enormes de cortisol e adrenalina na corrente sanguínea. O corpo, ao estar constantemente tenso e a mente atenta a todos os estímulos e mais alguns, faz com que, inevitavelmente, haja um grande desgaste físico e psicológico.

Este é um ciclo que, se a pessoa não tomar medidas, leva ao esgotamento, burn out ou a uma depressão, causada por excesso de activação cerebral. Ora, o nosso cérebro só consegue tolerar uma certa quantidade de estímulos, por um determinado período de tempo. Ultrapassado esse limite, há uma diminuição das funções cognitivas, como o caso da atenção, raciocínio e outras funções executivas, bem como da memória. Para além do mais, outros sintomas psicológicos se fazem sentir, como irritabilidade, labilidade, mudanças de humor, etc. Quando este quadro se verifica, deve procurar-se ajuda médica e psicológica.

Volto a frisar, não é uma coisa ou outra, é uma coisa e outra. Médico e psicólogo. Uma abordagem conjunta é necessária, pois estes casos, muitas das vezes, requerem ajuda farmacológica numa fase inicial. Com a psicologia, nomeadamente a hipnoterapia, consegue fazer-se uma reeducação dos hábitos de sono e de vida, bem como o treino do abrandamento de ritmo, necessário para se entrar na fase de sono.

Nestas consultas, e em quaisquer consultas que tratem este distúrbio, deve ser feita uma psicoeducação acerca do sono, os seus mecanismos e ciclos, bem como uma educação para a higiene do sono e relaxamento, com técnicas simples e concisas, que vão fazer com que o cérebro se possa ajustar a uma nova realidade e um novo funcionamento, mais eficiente e tranquilo na hora de adormecer.

A super-mulher

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A super-mulher faz tudo, é valente, forte e destemida, leva tudo à frente, é capaz de tudo, resiste a tudo. A super-mulher está para tudo, para todos. A super-mulher não chora, não descansa, não baixa a guarda, não abranda o ritmo. A super-mulher está sempre em movimento, num corre-corre constante. A super-mulher é assim todo o tempo, é energética e combativa, resistente e opinativa. A super-mulher não se fica. A super-mulher é extremamente racional, ponderada, sensata. A super-mulher põe as emoções de lado e aparece sempre com um sorriso e expressão determinada e confiante.

Mas a super-mulher também é frágil, tem vulnerabilidades como outro qualquer ser humano. Tem necessidades e precisa parar, abrandar o ritmo, por vezes. Precisa descansar e chorar, se for preciso. Mas a super-mulher não consegue fazê-lo, não. A super-mulher quando vem à consulta está cansada, saturada, exausta. A super-mulher quando vem à consulta diz que não consegue chorar, sentir. Mas tudo o que sente é tristeza e não percebe de onde vem. A super-mulher viveu muito tempo debaixo da sua capa de super herói e aguentou demais, demasiado tempo.

O que esta mulher precisa de aprender é aceder às suas emoções, permiti-las, permitir-se senti-las. Permitir-se descansar, repousar, fazer as coisas a outro ritmo, a outra velocidade. Esta mulher precisa aprender a respeitar os ciclos, as estações do seu ser emocional. Precisa despir a capa e substituí-la com vestes mais leves e permeáveis, porque esta mulher não se permite sentir, muita das vezes. Não se permite sentir a fraqueza, a dor, a mágoa, a tristeza, o cansaço, a si mesma, na verdade. Não se sentido a si mesma, não se permitindo ser também a sua parte vulnerável, cria esta couraça dura e resistente, que a faz afastar de si mesma e, por vezes, dos outros também.

Ao acontecer esse afastamento da sua essência, do seu ser emocional, esta mulher desliga-se, muitas vezes, da realidade de si mesma. Vive em piloto automático. “Parar é morrer” é o seu lema, porque não se permite sentir, parar, ou ficar no vazio de ser ou estar sem actividade. Mas esse estar no vazio ou estar em nós, é o exercício de maior plenitude e encontro que podemos ter. Então esta mulher até tem dificuldade em descansar, a maior parte das vezes. Porque o descanso implica reduzir a actividade, a velocidade, o ritmo, e “desligar” os sistemas cerebrais, sempre activos.

O desafio na terapia com estas mulheres, ou mesmo homens, é fazê-las aceitar esse abrandamento de ritmo, cruzar os braços ou aligeirar a armadura e baixar as armas. Sentir as emoções que lhes fluem debaixo do corpo, debaixo da carapaça. Ir ao encontro delas mesmas. Da essência que lhes teima em falar. Parar e ouvir, escutar os sussurros da alma.

Precisam aprender a reconhecer as necessidades emocionais e físicas também. Porque quando estas pessoas procuram terapia, o corpo já está a dar de si. Já tem queixas psicossomáticas que os médicos não conseguem explicar. E nesse momento a mente deprime. O corpo entra em colapso, recusa-se a dar passo. E estas mulheres, revoltadas, não aceitam os limites que o corpo está a impor actualmente.

E eu digo: sim, parar não é morrer, parar é descansar, é bom e faz falta. A depressão que se instalou? É porque deu demais em demasiado tempo ou demasiadas vezes. Não consegue explicar o porquê da depressão? Olhe para os últimos anos da sua vida. Quando foi a última vez que parou, descansou, usufruiu de estar simplesmente sem fazer nada? De ter tempo de qualidade para si? Sem estar sempre em actividade? Que situações emocionais enfrentou? Perdas, separações, mudanças, cuidar de outros…

A capacidade física, mental e emocional é limitada. Precisamos aprender a reconhecer os nossos limites, porque quando eles são ultrapassados, a mente vai sinalizar. E normalmente é em estado limite e aí o organismo deprime, a mente deprime, perde as capacidades, as faculdades normais. A mente precisa repousar e o corpo também. Nessa altura é altura para as emoções serem atendidas.

Não há erros

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Não há erros, não há fracassos, não há errar. Há percepções sobre as situações, há avanços e retrocessos mas também pausas. Há lições e aprendizagens, há limites e há níveis de consciência, discernimento ou entendimento. Há patamares de desenvolvimento, crescimento e maturidade. Há formas de ver, de sentir e de agir. Há deslizes, esquecimentos, medos, insegurança. Há aquilo que conseguimos ou não fazer. Dizer ou não dizer. Há aquilo que conseguimos e aquilo que não conseguimos.

Temos uma capacidade limitada no que toca a formas de pensar, de agir ou sentir. E porque digo limitada? Porque estamos dentro deste corpo, desta mente, destes limites físicos. Temos uma programação limitada às nossas aprendizagens e formas de interpretar a vida, de acordo com as nossas experiências, nível de consciência e de inteligência nas suas várias modalidades e nas várias alturas da nossa vida. Só conseguimos ser, a cada momento, de determinada forma. Como nos recriminar de como fomos em crianças? Ou em adolescentes ou há 5 anos atrás? Não há sentido nisso.

A minha máxima, como já vão começando a saber, é “fazemos o melhor que podemos em cada momento”, e isto direcciona a minha vida tal lamparina no meio da escuridão. Não nos devemos permitir criticar, julgar ou condenar as pessoas que fomos nas várias fases ou idades da nossa vida, porque existe o crescimento contínuo. Somos limitados a cada momento com as capacidades que temos em cada momento, mas somos ilimitados (quase) na possibilidade de crescimento, expansão de consciência e aprendizagem. Isto deixa-me tão, mas tão, em paz. A vocês não?

Podemos ser a cada momento o que é possível ser, fazer, pensar, sentir… A cada momento. Porque amanhã somos outros, aprendemos as nossas lições a cada dia. Cada dia é uma tábua em branco, onde construímos o nosso barro da vida sobre o barro ou construção de ontem. Nunca recomeçamos no vazio, mas em branco. Faz sentido? Todos os dias são uma folha em branco, que permite rasuras, rabiscos, linhas rectas e linhas tortas, desenhos e ensaios.

A vida, para mim, toda ela é um ensaio, uma peça, um jogo. Vamos experimentando vários papéis e personagens ao longo da vida. Somos várias pessoas, com várias personalidades ao longo da vida, com várias possibilidades de encenação, capítulos e cenas. Podemos reinventar-nos a cada dia, também defendo isso. Não mudar radicalmente de personalidade, isso não é possível, mas fazer diferente. Pensar diferente, trabalhar o nosso potencial, direccionar o nosso caminho a cada dia, mudar de direcção, de ideias, perspectivas, formas de ver. Sermos mais abrangentes, ilimitados na forma de conceber a vida, a nós mesmos, os outros. Sermos quase como uma esfera, com visão a 360º, sermos um todo organizado, coerente, completo, pleno, integrado.

A mente como uma esfera, que consegue olhar em múltiplas direcções, ver as várias nuances da vida, ser introspectiva, sábia, serena, contemplativa. Sermos assim, com essas qualidades, que se treinam, que se trabalham, que se adquirem ou redescobrem. Temos em nós potenciais incríveis que precisam ser descobertos e treinados, recuperados e postos em prática. Todos temos, todos somos suficientes e competentes naquilo que precisamos ser. Se não o estamos a conseguir, há um trabalho a ser feito, todos somos barro. Todos somos moldáveis, por isso todos podemos conseguir ser o que precisamos ser.

 

De onde vem a ansiedade?

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O problema que mais leva as pessoas às consultas, para além da depressão, é a ansiedade. Nomeadamente o pânico e os “medos”. A maior parte dos casos que me chegam são pessoas com ansiedade generalizada. Posso até dizer que parece que vivemos numa sociedade ansiosa, com pressa, impaciente, com medo, assustada. Com medo do erro, do insucesso, do fracasso, dos sentimentos, das emoções.

O que é a ansiedade generalizada? É sentirmo-nos ansiosos a maior parte do tempo. Constantemente, se for preciso. É não sabermos o que é viver sem ansiedade, ou desde quando a sentimos, e estarmos sempre tensos ou alerta. É sermos hipervigilantes, sempre com atenção a tudo e a todos. É, muitas vezes, só nos recordarmos de nós assim, ansiosos, angustiados, com medo ou assustados.

Medo dos outros, de não ser suficientes ou capazes. Medo do que os outros pensam ou dizem, medo do que os outros acham. Medo de expressar-se, medo das respostas, das consequências se o fizermos. Medo de tanta coisa. Medo de sermos atacados, medo de defender-nos, medo de falar ou calar. Não sei de onde surgiu essa necessidade de sermos perfeitos, mas sei que o perfeccionismo e a ansiedade andam de mãos dadas.

O não poder falhar é um dos piores castigos que nos podemos atribuir a nós mesmos. O termos que provar algo a alguém também. Às vezes nem sabemos a quem temos de provar algo, mas talvez aos nossos pais, professores, ex colegas, ex amigos, ex namorados ou namoradas e sabe-se lá a quem mais. Talvez provar-nos a nós que somos capazes, que somos suficientes.

Então vivemos esta crença absoluta de que não somos suficientes. Seja inteligentes, belos, atraentes, elegantes, competentes, ou o que seja. E na verdade nunca seremos tudo isso em comparação com o mundo lá fora, pois ninguém tem tudo. Há sempre alguém mais bonito ou mais inteligente. Todos temos uma mistura de atributos e todos somos mais do que suficientes, dentro da normalidade.

Então de onde vem a ansiedade? Do nosso sistema límbico, da nossa programação ancestral, do nosso sistema de luta ou de fuga, dos medos existentes no inconsciente colectivo, na memória celular. Isso é o que recebemos ao sermos concebidos. Depois recebemos educação, fazemos parte de uma cultura, de um meio social, de uma comunidade familiar, escolar e social, de uma cultura global ou mundial. Aprendemos, recebemos informação, comparamo-nos e somos comparados. O sistema de ensino atribui notas e classificações, a família impõe crenças e convicções, impõe expectativas e ideais.

Há crianças perfeccionistas e exigentes consigo mesmas, há pais autoritários, críticos ou rígidos. Há uma educação, por vezes, inflexível, pouco amorosa ou carinhosa, pouco afectuosa. Há pais ansiosos, há pais distantes, coléricos, agressivos. Há crianças assustadas… Colegas que gozam, humilham e perseguem nos recreios. Crianças que aprendem a estar constantemente em alerta, amedrontadas, assustadas.

A ansiedade é o nosso sistema de alerta, despoletada pelo medo de alguma coisa. Com a terapia conseguimos perceber de onde vem o medo e ao quê. E todas as emoções que o acompanham. Com a terapia consegue-se também trabalhar esses medos e, muitas vezes, extingui-los ou diminuí-los, fazendo as pazes com eles. Ao reconhecer esses medos  conseguimos fazer com que eles fiquem mais pequenos, pois cumpriram o seu papel de nos alertar ou avisar que perigos enfrentamos, ainda que sejam perigos imaginários.

Quantas vezes aconteceu aquilo que previa? Como previu? Nunca acontece como imaginamos, mesmo em todos os cenários que elaboramos na tentativa de prever o futuro. Então, a ansiedade é evolutiva, faz parte de nós, de um complexo sistema de alerta que está sempre activo. O que é certo é que essa ansiedade não tem de ser constantemente alta, intensa ou disruptiva. Pode accionar-se, sim, em caso de necessidade. Mas tal como um cão protector, zeloso do seu lar, também ele pode dormitar serenamente, pois ao menor sinal de perigo ou alarme, os seus sentidos voltarão a activar-se em pleno, mas só em caso de necessidade.

No caso da terapia, aprendemos a identificar os medos, organizá-los por importância, pacificá-los e desactivá-los, se for preciso. Aprendem-se técnicas de gestão e contenção emocional, aprendemos a estar mais presentes nas nossas respostas emocionais, na origem delas e aprendemos a contê-las, para nosso benefício. A terapia não é uma coisa estranha, é irmos olhar para todas estas coisas, compreendendo e tomando decisões acerca das nossas respostas bio-psico-fisiológicas.