Tem ansiedade?

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Na verdade, quem não tem? Sabia que a ansiedade faz parte de nós e se não fosse por ela nem nos levantávamos de manhã para fazer o que fosse?

A ansiedade é o nossos sistema de activação, de alerta, aquele que nos desperta e incentiva a fazer (lutar, fugir ou desistir). Um sistema ancestral imbuído nas nossas células e parte do nosso sistema nervoso. Como um programa, ou app, pré-instalado no nosso cérebro. Já nascemos com ele, portanto. A partir daí, as nossas experiências e vivências vão moldado e regulando esse sistema, activando-o mais ou menos.

O problema é que esse sistema está sempre em activação e nem sempre sabemos como “desligá-lo” ou reduzi-lo. Mas é possível! Não desespere. Não leve é muito tempo a procurar ajuda, caso esse sistema lhe esteja a dar cabo dos nervos, a levá-lo a ter ataques de pânico e andar completamente stressado todo o tempo, cheio de medo de alguma coisa que nem sabe o que é e com uma preocupação constante sobre o futuro e as coisas que podem vir a acontecer mas que não estão a acontecer agora.

O que pode fazer:

1. Respiração

Nada funciona melhor do que esta velhinha prática. Gosto particularmente da respiração da coerência cardíaca, ora procure online. A respiração traz-nos, como mais nada neste mundo, ao momento presente. Não se trata só de respirar, mas de tomar consciência da respiração, fazendo uma respiração natural, sem esforço, deixando o ar entrar e sair. Encontre e implemente uma prática de respiração consciente diariamente.

2. Consciência corporal

Pare para reparar como está o seu corpo. Que zonas de tensão tem? Quais aquelas provocadas por más posturas ou tensão abdominal e más práticas de respiração? Andamos constantemente a correr de um lado para o outro, imersos em pensamentos e preocupações, que desprezamos por completo o que isso faz ao nosso corpo em termos de tensão. Ora os músculos têm memória, se anda tenso todo o dia, também anda o seu corpo (e vice versa). Mesmo quando está descontraído, o corpo continua tenso.

3. “Scanner” corporal e relaxamento progressivo

Não é à toa que é uma das principais ferramentas do Mindfulness. É observar como está o seu corpo, sentindo as várias partes corporais e ajustando a sua posição, descendo os ombros, relaxando a zona abdominal, soltando os braços e ombros, bem como os maxilares. Estas são as principais zonas de tensão.

4. Cortar o ciclo de pensamentos

Aos fazermos estas práticas, podemos, por si só, quebrar o ciclo mental em que estávamos envolvidos antes de as fazermos. A mente foi criada para resolver problemas, mas os problemas não estão a acontecer a todo o instante. Quando não há nada em termos práticos a fazer no imediato, pense nas soluções possíveis para cada uma das situações que tem de resolver, e ocupe-se de outra coisa mentalmente, reparando no meio ambiente, focando-se apenas na tarefa que tem em mãos, etc.

5. Práticas de relaxamento regulares

Sejam elas quais forem. Tudo aquilo que o possa relaxar e que goste de fazer. Toma banho ou faz a sua higiene todos os dias? Pois bem, deve fazer a sua gestão emocional diariamente também, senão é como uma tulha de roupa suja sempre a acumular, essas coisas que são os pensamentos e emoções. Devem ser reciclados, limpos e descartados. Pode ser ter um momento para si, para ler, ouvir música, dar uma caminhada ou uma corrida, ir espreitar o mar, ficar em silêncio, escrever, fazer um exercício meditativo ou respiratório, fazer uma massagem, tomar um banho de imersão. Você escolhe.

Como vê, há coisas simples e rápidas que pode fazer para atenuar ou reduzir a ansiedade. A ansiedade não é um bicho papão que se esconde atrás do cortinado ou debaixo da cama, com o único propósito de nos perturbar. É algo que existe e vai continuar a existir em nós, por mais que tome ansiolíticos. É um circuito interno que pode gerir, com estas ou outras práticas que conheça e implemente com sucesso e regularmente. Eu diria até diariamente.

A mulher depois dos 30

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A mulher depois dos 30 já sabe aproveitar o seu tempo livre, fazendo coisas que lhe fazem bem e que gosta de fazer. A mulher depois dos 30 já cuida melhor de si (ou deveria cuidar, em termos de alimentação, exercício físico e cuidados à pele, por exemplo), já sabe o que tem de fazer para se sentir melhor, já aprendeu (ou deveria aprender) a gostar mais dela, a valorizar-se mais e a não fazer fretes. Já sabe bem o que quer e não quer,o que gosta e não gosta, já aprendeu (ou deveria aprender) a fazer as pazes com as coisas que não consegue mudar e com aquilo que é.

A mulher depois dos 30 já aprendeu algumas coisas, através das vivências e relacionamentos que teve, através das várias experiências nos vários contextos de vida, e, com isso, já sabe quais os caminhos que deve percorrer (ou que serão bons para ela), e quais os que deve evitar, evitando cair em esparrelas e ilusões. Ilusão é exactamente algo que cai aos 30, ilusão sobre os outros e sobre nós. Ilusão sobre como as coisas são ou devem ser. Começamos a ver com mais clareza e discernimento.

Aos 30 podem dar-se crises existenciais: será que estou no caminho certo? O que deveria estar a fazer? Qual a profissão ou o trabalho ideal para mim? Como desenvolvo a minha paixão, missão ou propósito? Quais são eles? O que é suposto eu fazer no mundo? Como deixo a minha marca? Como posso ser melhor mãe, companheira ou profissional? Como posso ser melhor pessoa? Sentir-me melhor comigo mesma?

Estas e tantas outras questões. Na casa dos 30 é esperado concretização pessoal, familiar e profissional. Espera-se que, na casa dos 30, se constitua família, se tenha um companheiro e trabalho estáveis, se saiba o que se está a fazer e se tenha tudo all figured out, ou resolvido em termos de convicções, certezas, opiniões e sobre o que se tem de fazer ou não. Mas, por vezes, nada poderia estar mais longe de acontecer.

Estamos envolvidos numa sociedade e cultura dominante, padrões familiares e sociais, expectativas que tais. Para mim, aos 30 é quando se começa a contestar o que é certo e sabido. A contestar quem, na realidade, somos. Se somos uma construção de vários factores, vivências, crenças e padrões, quais são os padrões e crenças que são nossos e fomos nós que criámos, e quais não são nem devem fazer mais parte de nós? Quais os que queremos manter e quais não queremos?

A mulher depois dos 30 já só quer fazer o que lhe faz bem, manter o que é de manter, e quer ser ela mesma, ela própria. E ser ela própria envolve algumas questões, dúvidas, incertezas, inseguranças e questionamentos. E eu acho que é a partir dos 30 que nos tornamos quem somos ou deveríamos ser. Esse questionamento é o que nos leva lá, a descobrir o que é dos outros e o que, de facto, é nosso. O que queremos manter ou não do que aprendemos, acreditámos, esperámos e sonhámos. O que é certo para nós ou não.

A partir dos 30 começa o caminho da maturidade, autodescoberta em termos mais profundos, não de vivências e experiências como a casa dos 20, e autodesenvolvimento direccionado aos sonhos e paixões que queremos seguir. Despimo-nos (ou devemos despir) de uma série de condicionamentos criados por nós ou impostos e recebidos por parte do exterior, que aceitámos, muitas das vezes por não haver outras alternativas ou opções. Aos 30 começa a vida, depois desta filtragem. A partir daí, podemos ser quem realmente somos ou queremos ser, criando o que devemos criar. Bem hajam os 30!

Cura, integração e totalidade

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Antes de nos sentirmos bem, em equilíbrio e paz interior, precisamos de passar por processos de cura. E não falo de cura física, falo de cura interior, cura emocional e mental. O corpo cura-se com medicação, alimentação e exercício físico, bem como através da mente também, com o poder mental que temos de converter a frequência do pensamento – passar do desânimo para a esperança e crença de que é possível melhorar, introduzir mudanças, conseguir o que queremos, etc.

Esse poder mental ou a força da convicção é o que nos leva a todo o lado, o que nos faz ser bem sucedidos, chegarmos mais além e sentirmo-nos melhor connosco, com a vida e com os outros. O poder da crença tem a capacidade de nos condicionar e a capacidade de nos fazer transcender. Quando acreditamos que somos donos e senhores da nossa cura, da nossa vida e podemos fazer dela o que quisermos, não há nada que nos possa demover.

E a cura também é isso, é podermos navegar nas nossas crenças inconscientes, as crenças limitantes e autosabotadoras, resgatá-las à consciência e reestruturá-las. O melhor mesmo é fazê-lo com a ajuda de terapia, para ser mais fácil e rápido esse processo. Na realidade, podemos passar anos a investigar as nossas crenças, a descobri-las e a tentar modificá-las. Normalmente não acreditamos que elas possam ser mudadas porque acreditámos nelas toda a nossa vida, nem sabemos bem a partir de quando.

Com a hipnoterapia tenho assistido a fenómenos incríveis de lembrança do quando tudo começou, quando estabelecemos “leis mentais” que ditam a nossa conduta e forma de estar e viver as coisas da vida. Convicções que criamos afincadamente para nos salvaguardar da dor, sofrimento, desaprovação, etc. A integração é quando podemos fazer as pazes com tudo o que nos limitou, transformando esses limites em algo mais flexível ou abrangente.

Como se faz isso? Quando nos conhecemos tão bem, quais as nossas limitações, crenças e dificuldades, e começamos a usar isso a nosso favor. Sabendo até onde podemos ir, ou não, o que realmente podemos fazer, ou não. E estando bem com isso – não desejando ser quem não somos, porque seria melhor, mais fácil, ou o que seja. Aceitando-nos incondicionalmente. Reconhecendo as nossas falhas e fragilidades, acolhê-las, falar com elas, compensando com todas as outras coisas boas que temos.

Integração de todas as nossas partes, boas ou más, aceites ou não, as rejeitadas, as tristes, as revoltadas, todas aquelas que nos compõem e integram o nosso mundo. Fazendo um trabalho de acolhimento com elas, transformando-as, ouvindo o que têm a dizer, falando com elas no sentido do aconselhamento, apaziguamento. Esse é o trabalho da criança interior, ou jovem, ou adulta… Todas as partes que fazem parte de nós.

Totalidade é quando começamos a movimentar-nos no mundo com a integração pacificada de todas essas partes. Começamos a agir com sabedoria, consciência, aceitação do que não podemos mudar e do que temos a oferecer ao mundo e como. Totalidade é quando nos sentimos livres e libertos de todos os condicionamentos que nos prenderam até então. Reconhecermo-nos, trabalharmos em nós, até não sobrar parte nenhuma nossa ostracizada.

A noite tranquila

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A minha alma tem vazios
Fendas e buracos negros
Tem intempéries
Tem lapsos do tamanho do Tempo
Tem camadas e convés
Não cabe na palma da mão.
A minha alma percorre mundos
Espaços e linhas de tempo
Não tem direcção nem destino
Foge como quem voa certo
Estica e encolhe
Está em parte incerta
Brinca e relampeja.
É tudo o que sou mas também o que não sei
O que não sou e desconheço
Tentar agarrá-la e uma labareda se ergue
Deixar que venha é a solução
Parar, esperar por ela
Volátil
Escarninha
Chama acesa
Intemporal, tudo o que é e há de ser.
Se paro, sorrio e ela confia
Aninha-se em mim tal gato selvagem
Espírito do mar ou do ar
E aí, tal fogo morno
Adormece no meu ventre
E eu sou tudo o que Há e há de Haver
Sou tudo o que sou e sei
Sou a existência em si
E tudo entra numa paz profunda
Como uma noite silenciosa e tranquila.

O parto da mãe

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Quando nasce um bebé, também nasce uma mãe. Antes do parto, mas também durante o parto, alguns medos podem existir: serei capaz de ser boa mãe? Correrá tudo bem? O meu/minha filho/a irá gostar de mim? Iremos dar-nos bem, ter uma boa relação? Irei conseguir vincular-me ao bebé? Irei conseguir amamentar…?

Estas e outras questões, mas também: o meu corpo irá mudar? Quais são as consequências físicas da gravidez e do parto em si? Como irá ficar a sexualidade entre mim e o meu/minha companheiro/a? Irei perder a libido? Irei conseguir descansar? Ter tempo para cuidar de mim ou da casa nos primeiros tempos? Como irei fazer tudo isso com um bebé pequeno?? Como é ficar sem tempo e sem descanso? Serei capaz…?

A mulher ao “dar à luz” perde a sua individualidade e a sua independência nos primeiros anos, de certa forma. Nada é como antes. Não há a mesma disponibilidade, em termos de tempo e energia, para todas as coisas que, dantes, poderiam acontecer mais facilmente, em termos de cuidar de si, ter tempo para o companheiro ou companheira, tempo para sair, cuidar da casa, etc.

Essas coisas já todos sabemos, não são novidade e em vários sítios se pode ler sobre o assunto. O que quero falar hoje é sobre a mãe, na mulher gestante e na mulher parideira. Já houve o tempo em que as mulheres eram resumidas à sua capacidade reprodutiva. Hoje em dia é, essencialmente, uma escolha, normalmente ponderada, que é equacionada relativamente ao estado da relação, ao estado económico ou financeiro lá de casa e a nível do momento profissional que se vive.

Tudo certo até aqui. Uma mulher pode querer muito ser mãe, pode ter todas essas condições reunidas, mas não existe sem medos nem dúvidas. No momento do parto, ela dá o máximo de si, todo o seu esforço e sacrifício físico, psicológico e emocional, para trazer vida ao mundo. Mas com essa vinda, há uma morte. Morte do que foi até ali, morte daquela mulher que era só mulher. Nasce agora a mulher-mãe, a mulher cuidadora, a fera protectora.

Nesse parto, há dor e transição, nesse momento é a despedida de tudo o que foi, como foi. Há, a partir dali, um contracto implícito sob a vida daquele ser que vem ao mundo, que significa: eu irei cuidar de ti até à morte. Nascem as preocupações, os cuidados, o amor incondicional. Esse amor está pleno de potencial sofrimento também. Medo da perda do bebé, da criança, do jovem e do adulto, por alguma doença ou acidente. Medo da possível distância, medo de alguma coisa poder correr mal, medo da rejeição, medo do não saber.

Traumas de infância, traumas relacionados com a educação que se teve, o não querer repetir os erros dos pais, o medo de repetir padrões inconscientes, o excesso de consciência do possível impacto que os próprios comportamentos possam vir a causar, medo da interferência das próprias emoções na saúde psicológica da criança… A lista é imensa. Eu acho que ter uma criança não se faz sem medo nem sem coragem, ou muita força de vontade e de querer. Não pode ser uma decisão leve ou irreflectida.

Então, nesse momento, no parto, a mãe também ela está a nascer, sair da carapaça de mulher, para dar à luz uma mãe, uma cuidadora, uma educadora, um novo papel, a acrescentar aos que já tem. Não se faz sem dor ou sacrifício também. Às custas do seu próprio corpo, a mente é levada ao limite dos anos vindouros. Será desafiada, testada na sua paciência, na sua resiliência, na sua capacidade de prover, nutrir e responder a provocações e desafios próprios das várias idades.

A mãe nasce… A mulher renasce com um novo papel, despe-se de si e das suas necessidades como únicas e soberanas, para dar tudo aquilo que tem e que pode a outro ser, que dependerá dela para sobreviver nos primeiros anos. Há o parto do/a filho/a e há o parto da mãe, dois partos num só momento. A partir dali é tempo, tempo para se adaptar, tempo para se reajustar, habituar-se e aprender a ser ela mais 1.

O equilíbrio

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O equilíbrio é uma sucessão de desequilíbrios que se conseguiram conter ou controlar. Ou mesmo uma série de desequilíbrios que se foram sucedendo mas, a seu tempo, deram lugar ao equilíbrio.

Não há equilíbrio sem alguma forma de desequilíbrio. Mas como chegar lá? Qual a fórmula mágica para se atingir o tão almejado “equilíbrio”? Para já, o que é o equilíbrio afinal?

O equilíbrio pressupões sempre uma forma de bem-estar, de neutralidade, sem excesso de um lado ou de outro. Pressupõe sempre um meio, um centro, um atingir de qualquer coisa. Podemos falar em equilíbrio mental, emocional, físico, alimentar, espiritual, relacional, conjugal, profissional, ou mesmo um equilíbrio em todas estas coisas na nossa vida, como um conjunto ou um todo em “equilíbrio”.

O equilíbrio também pressupõe alguma forma de instabilidade. Por definição, equilíbrio é o “estado de um corpo que se mantém, ainda que solicitado ou impelido por forças opostas”, ou então, referente a “harmonia”. Daí a instabilidade: corpo desafiado por forças opostas. E aqui podemos falar de corpo mental, emocional e físico. Ou até mesmo espiritual, se quiserem.

Como sabemos, não podemos existir neste mundo sem “forças opostas”: desafios, lições ou sem a malfadada dualidade. A dúvida, incerteza, insegurança, medo, e por aí afora. Somos seres duais, de razão e emoção, bom ou mau, ser ou não ser, fazer ou não fazer, certo ou errado.

Mas esse fugidio equilíbrio pode ser alcançado, talvez não diariamente ou constantemente, mas podemos cultivá-lo, se quisermos e estivermos dispostos a isso, na maior parte do tempo. Requer algum esforço, persistência e diligência.

Podemos encontrar esse equilíbrio na forma de nos alimentarmos, na forma de nos relacionarmos com os outros e connosco também, tendo algumas práticas ou rotinas de saúde e bem-estar, alguma forma de exercício físico, mas também alguma forma de práticas de relaxamento, meditação ou trabalho interior de auto descoberta.

O equilíbrio pode durar um momento, pode ser uma sensação ou tornar-se num estado ou certeza, a partir do momento em que aceitarmos, em igualdade de direitos (de existência), o seu irmão bastardo, o desequilíbrio. Um não se dá sem o outro. Quando couber em nós a capacidade de aceitar um e outro, estamos a meio caminho para criar essa verdade, o meio ou o centro, onde todas essas partes (dualidades) podem existir, em equilíbrio.

 

 

As mulheres que ficam

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Existem mulheres fantásticas, magníficas, inteligentes, cheias de garra, excelentes mães, excelentes profissionais, não deixam faltar nada a ninguém, mas que, muitas vezes, estão em relações de uma infelicidade estonteante. Ou em relações de vazio, de silêncio, de distância afectiva ou emocional.

Relações vazias de romance, de carinho, de compreensão, afecto, paixão, amor, sentimentos, gestos e atitudes carinhosas. A essas mulheres não as podemos acusar de amar de mais, mas sim, amar de menos… Amar-se de menos.

Há mulheres que não concebem passar a vida sozinhas e ficam em relações porque se não houver essa relação, o que será delas? Há mulheres que ficam porque, de facto, amam uma pessoa, mesmo que essa pessoa não seja merecedora do prato que, diligentemente, apresentam diariamente à hora da refeição, a camisa ou a roupa passada a tempo e horas, e outros exemplos.

Vivemos na era moderna, as mulheres são livres para se relacionarem com quem quiserem, as vezes que quiserem, que ninguém leva a mal. Sim, ainda há críticas e ainda há preconceitos e julgamentos, e ainda há conceitos familiares do patriarcado que se fazem sentir em mentes mais conservadoras. Vivemos numa era em que as mulheres também podem ficar sozinhas, se quiserem. Sem marido, companheiro ou filhos.

Temos todas as escolhas possíveis ao nosso alcance, mas, mesmo assim, há relações forçadas, de obrigação, de subserviência, de culpa, de mágoa, de carência e de dependência (ou “apego”). Mas uma vez, apego à segurança ou conforto de se saber que não se está sozinha, que existe ali alguém, ainda que esse alguém só esteja em corpo presente. Mentes que não comunicam, corações que não se entrelaçam, corpos que não se desejam mais.

E há os casos de tremenda falta de amor… Falta de amor por si, consciente ou inconscientemente. Nesses casos sim, fica-se porque não se pode partir. Aguenta-se ficar, estoicamente, sofrendo-se em silêncio, porque há o quadro, a imagem idealizada de casal ou família perfeita: “eu tenho alguém, eu importo, eu existo e não estou só”.

Mesmo que seja aparência, mesmo que seja porque não se tem a coragem de partir, do como é que vai ser depois, ou “porque assim estou acostumada, e o que é que a minha família irá fazer”, ou até mesmo o medo das consequências, caso o companheiro seja um homem violento…

Tantos os motivos. De qualquer das formas, é uma escolha. É um resolver ficar porque “não quero passar por tudo aquilo que acontecerá, ou sentirei, caso escolha partir, deixar, terminar”. E está certo… O instinto de sobrevivência, ou de protecção aos filhos, é o instinto que temos mais forte em nós.

Esse instinto manda-nos ficar em situações de falta, se for preciso. Falta emocional, falta de carinho. Mas há um lar, uma rotina, um tecto e uma cama onde dormir, comida na mesa e dinheiro ao final do mês, que vai chegando para os gastos.

Há muitas mulheres que ficam por dependência financeira dos maridos, é verdade, ou por escassez de recursos. Mesmo assim há saída, solução. Procura activa de trabalho, pedir ajuda a familiares ou alguém que possa ajudar temporariamente em termos de estadia ou empréstimo de algum dinheiro, procurar ajuda especializada para aconselhamento, orientação…

É possível. E é possível, ainda mais, aprender a amar-se, respeitar-se e julgar-se merecedora de algo bom, algo melhor – sozinha, ou acompanhada. É possível terminar-se esse ciclo ou loop de falta de amor (próprio e do outro). Há que despertar desse transe e fazer por encontrar uma saída. Ainda que custe, vai valer a pena.