A mulher ferida e a traição

 

59986734_309128040009617_897058564638507008_n

Ainda a respeito do Caminho de Santiago. No percurso de Vigo a Pontevedra, a Senda da Água, passava por uma povoação de nome “A traída”. Esse nome, de alguma forma, ressoou em mim, disse-me algo, e eu reflecti acerca do tema da mulher ferida. A mulher traída, enganada, desanimada, magoada, e todas as feridas que podem ser as de uma mulher. Pensei em toda a linhagem de mulheres atrás de nós, cada uma de nós, das gerações anteriores a nós. As nossas mães, avós, bisavós e todas as que lhes antecedem.

Pensei no corpo de dor da linhagem feminina, os abusos, os abortos, a violência de género que ainda acontece aos dias de hoje, e todas as formas de violência à mulher desde os primórdios da humanidade. Esse corpo de dor tem correspondência imediata com o corpo de dor do masculino, pois um não fere o outro sem estar também ele magoado de alguma forma, a sofrer de alguma forma, seja por inconsciência ou por desordens emocionais ou psicológicas.

A violência à mulher, mesmo a traição, é uma forma de violência contra si mesmo. A pessoa que trai está ela própria magoada, fere o outro, ferindo-se a si mesmo, de uma maneira ou de outra. A traição é uma forma de auto agressão, auto punição, vingança contra si mesmo. “Não gosto de partes de mim mesmo, como tal uso outra pessoa para me poder vir a sentir mal comigo mesmo, de forma a poder contemplar essa aversão que sinto por mim”. Podemos pensar que é o instinto do prazer imediato, que pode ser também uma forma de fortalecimento do ego, mas não é mais do que uma pilha vazia que precisa de carregar-se com alguma fonte de energia externa.

Às vezes a própria sensação de traição, ou engano, por parte da mulher pode derivar de uma relação que não está a ser satisfatória para ela, não correspondendo às expectativas ou ideais dessa mulher para a relação ou para o companheiro. Sobre esse assunto muito se poderia escrever. A minha percepção e análise é que essa mulher colocou uma carga grande sobre o companheiro de determinadas expectativas às quais ele não pode corresponder: ou porque não consegue, ou porque não pode ou porque não quer. Quer seja por personalidade, inconsciência relativamente aos seus processos internos ou por processos de dor que são incapacitantes para ele e que ele ou não quer ou não percebe que pode tratar.

O masculino escondeu-se, ao longo de toda a história da humanidade, das questões emocionais, tradicionalmente endereçadas à mulher. A mulher sempre contemplou, aceitou e viveu o mundo emocional como parte de si, o homem não. A mulher sempre pôde conversar sobre os seus sentimentos e angústias a outras mulheres, sempre pode manifestá-los, expressá-los, sempre lhe foi autorizado, de certa forma, fazê-lo. O homem não. Sabem disto, “homem que é homem tem de ser forte, valente”, “homem que é homem não pode chorar, ter sentimentos – e Deus nos livre – de os mostrar”.

Esse tratamento dado aos homens, não esperando mais deles, ou não os tendo educado para o mundo feminino das emoções e sentimentos, não os permitiu crescer. Milénios de história e inconsciência dos tempos antigos, de dominação do masculino sobre o feminino, não desaparecem de um pé para a mão. Os homens também precisam aprender a render-se ao mundo feminino, ao mundo dos sentimentos e emoções, uma parte deles que lhes tem sido negada até agora.

Sim, não são muitos os homens que se rendem ou pretendem fazê-lo. Quando falo em inconsciência falo disso mesmo: “não preciso, não tenho de o fazer, estou bem assim”. E nós, mulheres, também temos quota parte nas convicções que mantemos, nos comportamentos que temos tido de depreciação, desvalorização e ressentimento a respeito dos homens com quem nos podemos ter cruzado ao longo das nossas vidas. Nós também não correspondemos, muitas das vezes, ao que os homens idealizam e esperam – uma mulher sorridente, que os aceita, que os recebe bem, que trata deles, que não os critica nem julga.

E nestes processos de relacionamentos modernos, com projecção do passado evolutivo dos relacionamentos, fomos acumulando expectativas, ideais e convicções que são contraproducentes e contraditórios também. Todos queremos algo uns dos outros. Mas uma coisa é certa: todos queremos alguém que nos aceite e ame incondicionalmente, que esteja lá para nós em todos os momentos, que seja sensível, maduro, bem resolvido, etc. E nós, mulheres, somos capazes de dar isso também? Que parte sua está ferida e prejudica os seus relacionamentos? É essa a sua parte a ser trabalhada para que possa ter o relacionamento feliz e completo que procura.

O caminho

IMG_20190417_194740

O caminho faz-se a caminhar não é verdade? Existem trilhos marcados que seguimos, com a intenção de chegarmos aonde eles nos levam. Podemos querer chegar mais ou menos depressa, desfrutar mais ou menos do percurso, irmos mais ou menos devagar, podemos ir distraídos, pensativos, meditando, apreciando… O que é certo é que, seguindo aquele caminho, todos chegamos ao mesmo sítio. A questão é como se caminha e como se chega.

Muitos são os momentos desesperantes, frustrantes, cansativos, em que estamos fartos de caminhar, cansados, desejando de chegar. Momentos de dor, de desespero, de angústia, em que nos apetece desistir e nos questionamos porque raio fomos por ali, ou porque nos propusemos determinado desafio ou conquista. E depois há outros momentos, de satisfação, orgulho pelo que conseguimos, a sensação de desafio superado, de descanso merecido, de encantamento pelas coisas que vemos, de êxtase pela maravilha de determinados momentos e paisagens, de locais e situações.

E depois há os momentos “uau”, de caída de fichas, de constatações, em que tomamos decisões, em que nos percebemos melhor, compreendemos determinadas situações que nos acontecem, e porque acontecem. Caímos em nós, caímos do pedestal onde por vezes nos colocamos em termos de certezas e dados adquiridos. Caímos à nossa verdadeira natureza, à humildade de perceber que, por vezes, nada sabemos, apenas julgamos saber.

Este texto hoje é especial, diz respeito a um desafio que me propus fazer, o Caminho de Santiago. Já fazia parte da minha bucket list (lista de desejos) há muitos muitos anos. Foram 6 dias de caminhadas intensas, sob chuva, vento, frio mas também sol e calor. Cada dia uma paragem numa localidade diferente, em albergues públicos ou privados, em que todos os dias se desfazia e fazia a mochila, eterna companheira de viagem, onde reunimos todos os nossos pertences para esses dias.

Cada dia uma aprendizagem, uma lição. Houve momentos de inspiração, momentos em que caminhei sozinha por quilómetros e outros em que caminhei em grupo. Houve momentos em que a minha mente reclamou sem parar, houve momentos em que me permiti não fazê-lo. O hábito da reclamação mental rouba-nos imensa energia. Quando não o fiz, e caminhei ao meu ritmo e ao meu tempo, e me permiti respeitar as necessidades do meu corpo, parando quando tinha necessidade, caminhando mais devagar se fosse necessário, comendo quando tinha fome e não quando o grupo iria parar para comer, o meu corpo (e mente) agradeceu.

O objectivo que me propus para o caminho foi mesmo esse: não ter pressa de chegar. Que é o que costumo fazer diariamente e em vários momentos da minha vida. Levamos o tempo a correr atrás de alguma tarefa, compromisso, solicitação, evento, momento, horário, que nos esquecemos de estar presentes, no aqui e no agora. Mesmo a nossa mente, saltita de coisa em coisa que tem de fazer, num emaranhado de pensamentos sobre uma variedade de assuntos.

Então “O Caminho” no fundo é o caminho da nossa vida, a forma como caminhamos, como vamos vivendo a experiência de estarmos vivos, como nos relacionamos com os outros e connosco também. A forma como nos relacionamos com a nossa mente: deixamos que ela domine e controle ou questionamo-la e moldamo-la a ser mais flexível, tolerante, gentil e compassiva? Com as nossas dores, as nossas sensações e emoções?

Eu falo muito em sermos pai e mãe das nossas emoções, acolhendo-as. Mas e dos nossos pensamentos? Igual… Os pensamentos despertam emoções, as emoções mais pensamentos, então temos de acolher directamente os pensamentos, o que eles nos dizem, o que eles sinalizam. E irmos falando com eles de uma forma benevolente, paciente, compreensiva, empática. Da mesma forma que falaríamos com alguém querido, que é o que costumo dizer.

Acerca do processo de morte e renascimento que podemos experimentar no Caminho, falarei outro dia. O meu caminho foi de Vigo a Santiago de Compostela e teve a duração total de 8 dias e foram cerca de 130km até regressar, com todas as voltinhas. Fiz o Caminho Português da Costa, Variante Espiritual. Paisagens lindas lindas, com muito verde, bosques e água a correr em todo o lado, relembrando-nos da abundância do norte no que toca ao elemento água. Vale a pena conhecer, nomeadamente Pontevedra, Santiago de Compostela e a Rota da Água e das Pedras que parte de Armenteira.

Os lugares de dor

light-3176887_960_720

Há espaços de dor que só se podem abrir de dentro para fora. Há memórias em nós difíceis de quebrar, memórias celulares dos nossos ancestrais, memórias e registos de dor, de trauma, de tormento. A história pode ter-nos passado ao lado em certos aspectos, mas ela continua a viver em nós de certa forma. Não somos indiferentes a catástrofes que não aconteceram directamente connosco, e não só, somos também empáticos com o sofrimento de outros.

Há um sofrimento colectivo que está agregado em nós, nas nossas células, nas nossas memórias inconscientes, naquilo que os nossos pais, avós e familiares mais distantes vivenciaram. Temos padrões em nós ainda, que não fazem qualquer sentido actualmente, mas eles existem, e eu sei que sabem do que falo. Coisas que fazemos, pensamos e sentimos que parece que não correspondem com aquilo que somos actualmente. Nota-se mais quando somos pais ou mães, ou mesmo em algumas reacções que temos, que parecem não corresponder com os nossos ideais ou como decidimos colocar-nos perante determinadas circunstâncias.

Somos uma teia emaranhada de factores, registos, condicionamentos sociais, culturais e familiares. Tanta coisa em nós por decifrar, perceber e trabalhar. Libertar-nos desses condicionamentos e registos não se faz sem dor. Esses próprios padrões ou registos trazem dor, trazem-nos limitações. Limitações no dar, no receber, no agir, no conseguir, no fazer, no ir em frente, ultrapassar determinadas situações, o perdão, etc.

É importante ir dentro, ir fundo, fazer o trabalho de desenvolvimento pessoal, auto conhecimento, fazer introspecção, não nos ficarmos com o “molde” herdado ou criado. Somos tão mais para além desse molde, não podemos permanecer numa estrutura rígida de sofrimento ou limitação. Que possamos romper os moldes para podermos ser leves, flexíveis, libertos e livres enfim. Os lugares de dor são cárceres e carcereiros dos quais nos podemos libertar. Você tem a chave. Sempre teve.

O pensamento e a lei da atracção

chair-731171_960_720

Existe uma cultura do medo, actualmente, representada pela convicção de que “se pensares, atrais”. Uma espécie de pensamento mágico, baseado na lei da atracção. Tudo o que pensamos se manifesta. Ora de todas as vezes que joguei no euromilhões, eu ia convencida que me podia sair a mim. Até hoje nunca me saiu. Muitas ocasiões acreditei piamente que determinada coisa ia acontecer, mas nunca aconteceu. Mas estou a falar, ou a pensar, em coisas positivas.

Quando falo em “cultura do medo”, falo de superstição: “cuidado, se tens medo de vires a ter determinada doença, estás a atrair isso para a tua vida!”. Já me brindaram com esse género de pérolas algumas vezes. Ora pense comigo, de todos os cenários catastróficos que confabula diariamente, algum deles realmente aconteceu? Principalmente se é uma pessoa ansiosa ou pessimista.

Milhares de pensamentos negativos ocorrem diariamente numa mente pessimista. Esses milhares de pensamentos não vão, magicamente, tornar-se realidade de seguida, só porque a pessoa pensou. E a pessoa pode, verdadeiramente, acreditar na possibilidade desses cenários (e normalmente acredita mesmo).

O pessimismo leva a pessoa a evitar muitas situações que poderiam até ser muito benéficas para ela. O evitamento evita isso mesmo, crescimento, evolução e superação. O evitamento leva a evitar a própria felicidade, evitar a alegria, a espontaneidade, a naturalidade das coisas, das circunstâncias e relacionamentos.

O pessimismo, o evitamento, leva a tristeza, baixa auto estima, dúvida, incerteza, insegurança e desmotivação. Mas o que tudo isto tem a ver com alguma coisa? Existe o pessimismo e existe a superstição. São coisas diferentes. A superstição é acreditar em determinada coisa que não tem razão de ser, como acreditar que passar debaixo de um escadote dá não sei quantos anos de azar.

E como é que tudo isto se relaciona com o conceito da lei da atracção? Que o pensamento mágico, só por si, não cria nada. Não faz nada acontecer. Só pedirmos e ficarmos à espera, ou pensarmos e acontecer, não funciona assim. Não é assim tão directo. Ou seja, é mais complexo ou tem mais pozinhos de perlimpimpim do que esta ideia que se vende por aí. Esta ideia é demasiadamente simplista para uma mente inteligente acreditar nela, daí assemelhar-se mais a superstição.

O pensamento produz, de facto, condições poderosas. O nosso estado físico ou orgânico é determinado pelos nossos pensamentos, bem como pelo meio ambiente e aquilo que consumimos. O que consumimos pode ser: alimentos, bebidas, o que lemos, o que ouvimos, sentimos, e o que pensamos também. Somos consumidores diários de pensamentos e emoções. A frequência desses pensamentos e emoções determina a química do nosso corpo, do funcionamento celular.

Neurónios são células, hormonas são substâncias produzidas por centros especializados de células, que são os órgãos. Todos esses órgãos, estruturas ou sistemas orgânicos, tem um estado ideal para funcionar bem. E esse estado ideal é conseguido com uma dieta de produtos frescos, orgânicos, da época, como verduras, frutas, água, e todos os ingredientes, actividades ou condições que favorecem um corpo saudável. Para além disso, temos responsabilidade também, pelo ambiente mental e emocional que damos ao nosso corpo.

Como tal, alimentando-o de pensamentos empoderadores, capacitadores, fortalecedores e de crenças positivas, facilitamos um estado neuronal, ou mental, de elevada eficiência e positividade. Trabalhando as emoções, limpando o corpo de dor, processando as emoções ou pensamentos tóxicos que habitam em nós, podemos purificar o nosso corpo, melhorar o seu funcionamento e optimizá-lo até. Considerando que somos corpo físico, mental e emocional, todos eles estão interligados.

Ora se quer ser saudável integralmente já sabe o que tem de fazer. Para conseguir conquistar algo na vida, igual: acreditar, ir em frente e tentar a sorte, arriscar-se. Se não quer ficar doente, precisa descansar, fazer trabalho interior, comer bem, exercitar-se. E no meio disto tudo, espero ter passado a mensagem. Entretanto recomendo o documentário “Heal” para perceberem melhor o que quero dizer.

 

Sentar com as emoções

6212012005332iwsmt

A tristeza pede carinho, pede recolhimento, pede casa. Casa é colo. A tristeza pede colo, faz-nos querer recolher, isolarmo-nos, pensarmos, meditarmos, contemplarmos a nossa existência. A tristeza é um sentimento de profundidade, de contacto connosco, com a nossa realidade interior. Significa que uma parte nossa chora, está a sofrer por algum motivo. Essa parte pode estar a sentir-se rejeitada, sozinha, não compreendida, mal amada, ignorada, não pertencente a algo, em não sintonia com o todo ou com a própria existência.

Quando sentamos com a tristeza, é o mesmo que quando sentamos com o medo, como já tenho falado aqui. No fundo, quando sentamos com qualquer emoção “negativa”. Sentar com a emoção é prestar-lhe atenção, perceber o que essa emoção precisa. Normalmente precisa disso mesmo: colo, atenção e acolhimento. Quando lhe damos isso, a emoção transforma-se em algo diferente, como alívio, leveza, alegria ou mesmo preenchimento, plenitude ou gratidão.

Todas as nossas emoções nos pertencem, fazem parte de nós. Todas elas podem aparecer mais ou menos no decorrer do nosso dia-a-dia e das nossas vidas. Se há uma emoção recorrente, significa que essa emoção (ou o motivo que causa essa emoção constantemente) ainda não foi totalmente contemplada, cuidada ou reparada. Reparem que digo “sentar com as emoções”, e não “dormir sobre as emoções”.

Sentar é parar para escutar, ter tempo, dar atenção, permitir falar, permitir uma troca, um diálogo, uma partilha. Tal como sentamos com amigos. É uma actividade que envolve troca de ideias, envolve dinâmica, um movimento de dar e receber.  É algo prático. Não é adormecer ou esquecer ou empurrar para longe, como “dormir para resolver”. Não é a dormir que resolvemos alguma coisa, a não ser o cansaço. É confrontado aquilo que nos perturba, ainda que seja uma singela, e perturbadora, emoção.

Atrás dessa emoção vêm acontecimentos, coisas que nos marcaram, situações e pessoas que nos perturbaram por algum motivo. Atrás dessa emoção vem sempre uma dor. Dor de desapontamento, traição, perda, engano, desconhecimento, desprezo, indiferença, um mau trato, inveja, ciúme, o que seja. Pode ser real ou confabulado pela nossa mente, de acordo com as nossas fragilidades, vulnerabilidades ou carências emocionais.

Isto do trabalho de auto conhecimento e auto desenvolvimento não é só ter conhecimento e consciência das coisas, é trabalhar sobre elas. É conversar com elas, essas partes feridas, preocupadas ou amedrontadas. É confrontá-las, ressignificar as nossas crenças e pensamentos. Normalmente a emoção vem sempre a partir de um pensamento, e os pensamentos surgem baseados em sistemas de crenças. O que é certo ou errado, naquilo em que acreditamos ser justo ou não, que queremos ou não, que aceitamos ou não.

Então é isso. Por mais que surja o medo, a tristeza, a nostalgia, a saudade, não há que temer ou evitar. Receba essas emoções como quem recebe hóspedes queridos que vêm machucados, feridos ou angustiados. O que faz? Ouve-los, não é verdade? Escuta, aconselha, acalma. Eles sairão agradecidos e aliviados, e você também, porque pôde ajudar e ser útil, e também porque acalmou uma parte de si.

“Já que não se pode ver livre dos medos (das emoções), aprenda a viver com eles”.

“Quem sou eu?”

winters-1919143_960_720

Esta eterna questão… Quem sou eu e o que faço aqui. Qual o propósito e qual a missão. Qual o meu plano divino. Que ser é este que me habita. O que quero e o que não quero. O que gosto e o que não gosto. O que aceito e o que não aceito. O que acredito e o que não acredito. No fundo, qual a minha verdade? Qual a minha essência? Como chegar a ela?

Habitam-nos tantos pensamentos e emoções, tantos desejos e expectativas, que custamos a dar com o caminho até nós. Tantas são as coisas que nos “atravancam” a visão, o contacto connosco, com as nossas reais necessidades. Tantas são as exigências, preocupações, ocupações e afazeres. Estamos tão pouco connosco, ou em nós, verdadeiramente. E é isso que falta.

Quem sou eu, é uma pergunta verdadeiramente complexa. Podemos responder a essa questão de variadíssimas formas, e mesmo assim, ficaria sempre tanto por dizer. No fundo, somos um ser vivo neste planeta, com gostos, necessidades e personalidades distintas. Somos um todo desorganizado, de certa forma, com tantas incongruências, dilemas e partes separadas e em guerra entre si, muitas das vezes.

E que partes são essas que falo? Todas as partes que nos habitam e que são nossas. Acredito que somos volúveis, em constante transformação e movimento. É difícil definir um ser assim… Porque não há uma estrutura fixa e permanente, que não tenha a possibilidade de mudar ou transformar-se. A verdadeira pergunta deveria ser: quem sou eu agora? O que quero? O que preciso? O que me faz falta agora?

Não somos estanques nem temos barreiras fixas. Ainda que tenhamos, elas são amovíveis. Tantas coisas nos podem tocar e modificar… A vida é uma teia complexa de acontecimentos e ligações. Nessas ligações, transformamo-nos e somos transformados. Mudamos de ideias, de ideais, de perspectiva e de sentimento.

Quem sou eu?

Sou um ser em eterna mutação, evolução e crescimento. Sou massa e sou éter. Sou razão e emoção. E tanta coisa cabe nessa definição… Tenho sangue e tenho veias. Tenho um coração a palpitar. Tenho pensamentos de sobra, tenho sentimentos e emoções que vão e vêm. Tenho aspirações e ideais. Fantasias e magia no olhar. Tenho estrelas e cometas no cabelo. Há toda uma constelação de sentidos na minha pele e no meu corpo. Há um frenesim de células e movimentos orgânicos. Há necessidades e instintos e há uma alma eterna sempre à espreita.

E se tudo isto (e muito mais) não define um ser humano, o que define?

A consciência e a mudança

yellow-926728_960_720

A consciência é algo que desperta, que surge e que podemos ter acerca de variadas circunstâncias e situações, acerca do mundo, acerca de nós e acerca dos outros. A consciência diz: “eu já sei isto”, mas por vezes a mudança continua latente. Então a consciência responde: “mas se eu já sei isto, porque não consigo mudar?!”

Ter consciência é uma coisa, outra coisa é a mudança. São dois processos distintos. Patamares diferentes de percepção. A consciência pode existir, e, para isso, tem de existir, necessariamente, espírito crítico, ou insight. Para a mudança precisam de haver cinco coisas: vontade, determinação, persistência, presença e ferramentas (ou recursos).

Vontade de mudar. Determinação para identificar o problema, procurar ajuda e iniciar a mudança. Persistência no tempo e na implementação da mudança, diariamente, a nível mental e comportamental. Ferramentas que se podem aprender, como gestão emocional, gestão do tempo, aquisição ou modificação de um hábito, etc.

A mudança não se dá apenas pela consciência de um determinado problema. Ajuda a compreendê-lo, pelo menos. Ajuda a estar presente quando ele acontece. A mudança existe, precisamente, quando – conscientes de um comportamento (presença) – implementamos uma alteração comportamental, mudança de perspectiva ou leitura da situação que estamos a vivenciar.

A presença é a palavra da ordem. Podemos ter muita vontade de mudar. Podemos até ter imensas ferramentas ou recursos para a mudança à nossa disposição, coisas que até já aprendemos a fazer, como e quando fazer, mas se não estivermos atentos, presentes em cada momento, reagimos às situações e voltamos a fazer o que sempre fizemos, da mesma forma.

Presença é sermos observadores daquilo que nos limita, inibe ou prejudica. Presença é não evitar, não fugir. Presença é ficar, e fazer o que é melhor, o que nos leva mais além, o que produz, de facto, a mudança. Estar presente é decidir. Decidir fazer, decidir mudar. Só estando presentes em nós e nas situações é que podemos tomar decisões. Vou por aqui ou por ali, faço isto ou aquilo. E é isto.