O que (não) fazer para reconquistar um homem

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As mulheres são, normalmente, cheias de truques para não perder o companheiro ou namorado e fazem de tudo para o manter ou para o reconquistar, caso ele decida afastar-se da relação. Há algo de ancestral nisso. Desde os primórdios do tempo mulheres recorrem a videntes e curandeiras (vulgo “bruxas” ou médiuns) para manter os seus homens ou para conquistar aqueles que poderão estar numa relação com outra mulher.

Utilizar-se a sedução, a culpabilização, a vitimização, as ameaças de suicídio, de manipulação e chantagem através dos filhos, são muitas das tácticas. Outras podem ser o tentar descobrir se há outra mulher e tentar tornar-se amiga desta ou, pelo contrário, ameaçá-la ou ofendê-la, tentando fazê-la sentir-se culpada e afastar-se. A vitimização e culpabilização, são das mais fortes, ou uma das primeiras: “Fiz tudo por ti. Dei-te tudo, sempre te acompanhei nos piores momentos, prometeste-me que ficavas, fizeste-me acreditar que seria para sempre, enganaste-me, eu não merecia, não sou nada sem ti, preciso de ti, sem ti eu morro, sem ti a vida não faz sentido…” etc.

Pode ser também através de ameaças relacionadas com a imagem social: “Vou contar a toda a gente que me queres deixar, que me vais abandonar, que tens outra pessoa, que me traíste, que me vais deixar sozinha com as crianças, toda a gente vai ficar a saber que não prestas como homem” e outras que tais. Quando uma mulher não aceita uma separação, muitas destas coisas podem acontecer. Não quer dizer que o contrário não aconteça, que as mesmas tácticas não possam ser usadas pelos homens, mas hoje quero falar nas mulheres e nas distâncias que são capazes de percorrer para manter os seus homens.

Há uma expectativa social de que a mulher deve saber “prender” o seu homem. Que cabe a ela a responsabilidade de ele ficar ou não na relação. Que a mulher deve ser cheia de artimanhas para manter o companheiro. Deve cuidar dele e das necessidades dele, deve estar sempre presente, compreensiva, afectuosa, arranjada e atraente. Deve querer ter sexo com ele regularmente, ainda assim ele não procure outras. E quem não tem desejo sexual por uma variedades de motivos, sente-se a mais culpada das criaturas.

Pois bem, nesse campo há muito que se lhe diga, mas uma coisa é certa, as mulheres desejam a presença emocional e física dos seus companheiros. Precisam saber que eles estão ali, que têm sentimentos por elas e que os mostram, que as façam sentir-se amadas e desejadas. As mulheres precisam disto para se sentir seguras. Disponibilidade e presença. Que eles possam estar, mais do que ficar. Muitas vezes isto não acontece, elas não se sentem amadas nem desejadas. Muitas vezes sentem-se tomadas por garantidas, e isso limita bastante o seu desejo sexual. Se os homens só procuram as suas mulheres para isso, elas vão sentir-se rejeitadas e usadas, objectificadas. Não esperem uma mulher sempre no auge da sua libido se assim for.

Continuando, se um homem não quiser ficar numa relação consigo, faça-se um favor a si, e a todas as outras que vêm a seguir a si: deixe-o ir. Deixe-o seguir o seu caminho. Uma pessoa só deve ficar numa relação com outra se quiser, se o desejar. Todas as pessoas têm o direito à sua liberdade pessoal. Se um homem quer estar com outra mulher, deixe-o seguir caminho. Se o aceita de volta, caso ele queira voltar, isso fica a seu critério. Mas tudo o que é recriminação, controlo, palavras de ódio e desdém e fazer outro sentir-se culpado, não abona a favor de ninguém: nem de si, nem do seu companheiro nem dos filhos que tiverem em comum.

Quando um casal enfrenta problemas, dúvidas ou dificuldades: procurar um especialista. Terapia de casal, terapia familiar se for preciso, ou terapia individual para cada um dos elementos, em conjunto com terapia de casal. Quando os dois querem ficar juntos, aí sim, explorar todas as possibilidades. Encetar um caminho de autodesenvolvimento e de crescimento pessoal e individual, bem como em conjunto. Os dois comunicarem abertamente as suas questões, os seus sentimentos, as suas emoções, os seus pensamentos. Não há nada mais revelador do que uma conversa franca, sem julgamento, sem crítica, gozo ou desprezo, sem culpabilização. Não procurar culpas nem culpados, procurar analisar friamente comportamentos e atitudes, enumerá-los e dizer como eles a fizeram sentir.

Se a outra parte estiver disponível para fazer esse caminho consigo, para dialogar e comunicar abertamente, se a outra pessoa estiver disponível para mudar, ajustar-se, comprometer-se com a mudança, com o crescimento e com as necessidades do casal, aí sim há caminho para percorrer. Quer isso aconteça depois ou antes de uma separação efectiva, está tudo certo. Se um homem decide não estar numa relação consigo quer seja para ficar sozinho ou comprometer-se com outra pessoa, há que aceitar. Pode não querer, não concordar e até pode ter dificuldade em aceitar, mas respeite a vontade do outro.

Deixá-lo ir para que possa voltar, caso assim decida e você aceitar, ou deixá-lo ir para não mais ser seu companheiro, namorado ou marido, ainda que tenham propriedade ou filhos em comum. Se todos pudéssemos ser livres e respeitar a liberdade do outro, não haveria tantas chatices nem divórcios litigiosos. Mas há que fazer trabalho em si, no perdão, na aceitação da perda e gestão dessas mesmas emoções de raiva, revolta, impotência, fracasso e derrota. Desejar mal a outra mulher ou à nova relação do seu ex-companheiro também não traz nada de bom ao mundo. Tudo é energia, até a força dos nossos pensamentos. Todos sofremos com isso.

Como tal, sem jogos, sem artimanhas, sem “trabalhos” de amarração, feitiços, maus olhados e todas as coisas que criam karma – acção e consequência. O todo é prejudicado com isso, criamos ciclos e ciclos de dor e sofrimento para nós e para o colectivo quando nos envolvemos com energias densas de ódio e vingança. Queremos elevação, crescimento, equilíbrio e felicidade. Como tal, seja a elevação que quer ver no mundo. Trabalhe em si as suas feridas de rejeição, abandono e traição. Cure as mulheres antes de si e as que vêm através de si, sela pelo exemplo, seja pela maternidade. Estará a fazer a si, e a ao mundo, um grande serviço.

Grupo de pertença

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Todos nós sentimos necessidade de pertencer a algo, um grupo, uma família, uma relação. Na verdade todos necessitamos relações, relações com outros que sejam significativos para nós. Desde cedo pertencemos a uma família, a uma comunidade envolvente. A seguir, fazemos parte de uma creche ou escola, e alargamos o leque dos nossos relacionamentos. Mais tarde, fazemos amigos que se tornam o centro da nossa existência, e o próximo passo é a relação íntima.

Hoje não quero falar das relações íntimas, quero falar das relações de amizade. Deduz-se que, com o tempo, vamos fazendo amigos e eles vão mantendo-se, mais ou menos. Há sempre este ou aquele que se afasta por algum motivo, mas a expectativa é que um ou outro se mantenha pela vida fora. E normalmente todos temos pelo menos um amigo ou amiga que temos há alguns ou muitos anos e que se vai mantendo mais ou menos próximo/a.

E até aqui tudo bem. Mas, e quando se muda de cidade, de país ou região? E quando os amigos se afastam e não sabemos porquê? Ou quando nos deixamos de identificar com os amigos que temos? São várias as possibilidades em termos de ruptura das relações de amizade: ou porque eu não quero mantê-la, por algum motivo, ou porque o outro não a quer manter, ou eu estou longe e não consigo investir nas minhas relações de amizade.

Vejo um grande número de pessoas em sofrimento por falta ou carência destas relações afectivas. Seja porque não as têm, seja porque as que têm não lhe trazem satisfação, seja porque não têm tempo ou possibilidade de usufruir delas. E essa falta de possibilidade pode até ter a ver com um companheiro ou companheira ciumentos, que não gostam de socializar, que não quer passar tempo com os seus amigos, etc. Mas o que é certo é que a socialização é um dos pilares da nossa saúde mental – a busca de pertença.

Queremos pertencer onde nos identificamos, onde gostamos de estar ou onde achamos importante estar. E não só, onde somos aceites, reconhecidos, aprovados e acarinhados. Nem sempre temos isso. Por vezes há aquele núcleo de amigos que só nos critica e põe para baixo, ainda que nem sempre perceba que o faça, sob “conselhos” e projecções dos próprios desejos, expectativas, fantasias ou desilusões. Muita das vezes é difícil sair do próprio transe para verdadeiramente estar para o outro.

E quando não se tem este grupo de pertença, o que fazer? Perseverança, espera, paciência e tentativa. Tentativa em fazer actividades que gostamos de fazer, aproximar-se de outros, escutar, participar ou intervir nas conversas de forma simpática e interessada. Em actividades que gostemos podemos mais facilmente ligar-nos a outros de interesses afins, já se começa com algo em comum. Paciência para se ir conhecendo as pessoas e ir criando um grupo, nem que seja de várias pessoas espalhadas em grupos diferentes. Paciência para se criar uma relação, para se criarem e fortalecerem laços.

Paciência também para a espera, para o tempo que isso levar a conseguir e também para as desilusões que por vezes acontecem (as outras pessoas podem não estar interessadas em novas amizades, ou passado um tempo acabarem por se afastar, etc.) Perseverança para tentar sempre, para recomeçar as vezes que forem precisas, e investir aquilo que pode nessas relações recém criadas em termos de tempo e disponibilidade.

Aqui é preciso ter cuidado com as expectativas: nem toda a gente está à procura de integrar novas pessoas nas suas vidas ou pode já ter um grupo consolidado e acabar por fazer planos com esse grupo ou com aquelas pessoas e não a convidar sistematicamente. Vão sempre haver aqueles amigos de conveniência ou das saídas esporádicas, aqueles com quem pode combinar uma corrida ou uma caminhada, e aquele a quem poderá ligar de vez em quando. E poderá também criar uma boa e sólida amizade que ficará para todo o sempre com alguém com quem possa partilhar uma variedade de momentos e situações regulares.

Sentar com a dor

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Como é que podemos seguir quando a outra pessoa nos fica? Quando o nosso coração parece compartimentado por outras histórias, outros amores? Como podemos partir e deixar tudo isso para trás? Como podemos seguir? Deixar de sentir, deixar de pensar, ultrapassar?

Não é possível.

Não é possível seguir. Só é possível parar. Absorver. Sentir. Sentir a dor da partida, a dor da chegada que não pôde ficar. Chorar a perda, a dor, o não poder ficar, o outro, nós. Não podermos ficar. Não poder ser.

Não lidamos bem com a perda nem com a dor. A dor parece que nos fica para sempre, que nos cola, nos envolve, como uma luva amiga. Como um companheiro que não pôde ficar, como uma companhia que conhecemos bem demais, que não conseguimos largar.

A essa dor, o que lhe fazemos? Como a choramos quando todas as lágrimas já foram vertidas? Como lidar, superar, ultrapassar, quando só o que nos apetece é ficar? E sentir aquilo tudo que não quer sair? Quando a culpa de não termos conseguido nos persegue?

Como seguir? Como parar? Como sentir o que não queremos mais sentir? Como não sentir o que estamos a sentir?

Sentimentos são como uma teia que nos prende, que nos envolve, a nós e a outros que habitam no nosso imaginário. O outro que nos fica é apenas uma faceta nossa. Nem é o outro, somos nós que fomos representados, apanhados pelo outro. O outro é apenas um polaróide que nos fica de um sentimento ou emoção nossa.

E olhamos, olhamos para esse polaróide. O que nos diz? O que não diz? Quando já tentámos rasgar, queimar, cortar, pintar por cima, e nada funciona? Guardamos na caixa de memórias, mas volta e meia esse polaróide volta à nossa mente, e tudo volta acima novamente.

Há que rever a história, dar-lhe um novo final. Reviver não é a solução, o desfecho não vai mudar. Há que dizer: “Ok, fizeste parte de mim. Reconheço-te, estou aqui. Vejo-te. És uma parte querida minha, não vou mais rejeitar-te e remeter-te às minhas sombras onde só arde o medo e a dor. Que me perdoem todos o que não pude amar, todos onde não pude ficar.”

A dor pode ser transformada em amor, em compreensão, consciência e integração. Não conheço outro caminho. É dizer: “Aceito-te. Vejo-te. Honro-te. Estou aqui.” Sentando assim com a dor, ela é como um lume que queima até ficar brandinho e apagar por completo. Como uma criança que chora até adormecer. Assim é a dor. Como todas as emoções, quer apenas ser vista e validada, integrada. Esse é o caminho.

A busca de significado

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Todos nós, a dada altura da nossa vida, queremos ter pessoas com quem nos identificarmos. No caso da adolescência, temos o grupo de pares, os colegas, os amigos, os primos. Começam aí os anos mais intensos de socialização e identificação. No secundário, temos de escolher uma área de estudos e, logo aí, tem de haver identificação intelectual ou cognitiva por determinadas áreas específicas que, normalmente, fazem parte dos nossos interesses, perspectivas futuras, idealização e competências que naturalmente temos.

Como por exemplo, estarmos mas inclinados para as artes, para as ciências, humanidades ou desporto. Porque queremos seguir uma dessas áreas futuramente, porque nos idealizamos a ter determinada actividade futura, ou ainda mais simples, sabemos que somos melhores em determinadas áreas e escolhermos essa área porque nos é mais natural ou mais fácil, como no caso de pessoas que escolhem humanidades para fugir às matemáticas, por exemplo.

Procuramos sempre a identificação. Na escolha de desportos ou hobbies, na escolha de amigos ou potenciais parceiros românticos. Vamos sempre pela via da identificação. Normalmente, e muito antes disto, identificamo-nos a partir de determinada altura mais pelo pai ou mais pela mãe, isso pode mudar com os anos (a esses fenómenos foram dados os nomes de complexo de Édipo e complexo de Electra, quando falamos no desenvolvimento psicossexual da criança).

Na adolescência temos o grupo de amigas ou de amigos, consoante somos rapazes ou raparigas, e normalmente andamos em bandos ou grupos. Quando saímos do secundário acontece uma individuação, perdemos esse bando ou grupo de pertença e ou começamos a trabalhar, ou vamos para um curso técnico ou ingressamos na universidade. Aí criamos novos grupos de pertença, e muitas vezes os amigos que deixamos para trás, de facto deixam de ficar tão próximos com o tempo, pois criamos laços e vínculos com outras pessoas que se tornam mais significativas para nós, não só porque passamos mais tempo com essas pessoas por convivência e proximidade, mas também porque há uma maior identificação intelectual, social e emocional com essas pessoas, por consequência.

E está tudo certo. Na idade adulta, depois dos estudos concluídos, depois de estarmos no mercado de trabalho, outra busca pode acontecer: a busca por sentido, por significação e aprofundamento das relações. O que é superficial sai, vai embora, não tem como ficar. Não há tempo para relacionamentos de circunstância, as vidas mudam, as rotinas e os hábitos também. Investe-se mais tempo na vida profissional e doméstica. Aqui noto o início também de uma procura de um mestre ou mentor.

Ainda que não seja claro, procuramos isto nas terapias, em aulas online, nos cursos e workshops, no trabalho de desenvolvimento pessoal e nos livros. Aqui percebo que andamos todos um pouco perdidos. Primeiro não temos consciência clara de que procuramos a mestria e que essa mestria acontece primeiramente com um mestre ou mentor, alguém que está mais evoluído que nós, seja em termos intelectuais, emocionais ou espirituais. Todos procuramos alguma coisa, alguém que nos ensine, que nos guie e mostre o caminho.

Nunca vivemos numa era que tivesse tantos gurus, mestres, professores, terapeutas, coaches, etc. Todos procuramos o mesmo nessa busca de sentido, de aprofundamento das nossas experiências pessoais e humanas. Queremos relacionamentos mais significativos, mais evoluídos, mais verdadeiros e sentidos. Então, de certa forma, andamos todos que nem baratas tontas à procura da próxima terapia, do próximo terapeuta, do próximo livro ou curso que nos leve lá, mais próximo de nós mesmos e do que queremos. E essa busca faz parte do caminho iniciático, em que o discípulo desperta para uma nova realidade. Sai para fora de si mesmo para se contemplar – os primórdios da consciência.

Então o ser que desperta é aquele que procura o sentido, o sentido da vida, de estar vivo. Qual o meu propósito? Porque estou cá? São as primeiras questões. E aí começa um caminho, uma jornada, que leva o discípulo cada vez mais longe de quem julgava ser. Acontece uma desconstrução, perceber que viveu numa ilusão o tempo todo. De quem era ou de quem tinha de ser, porque era o que se esperava dele, ou que ele esperava dele próprio, porque foi o que aprendeu, como aprendeu.

Nesta jornada, nesta busca de sentido e de propósito, o discípulo vai encontrar vários desafios, vários mestres e várias teorias/terapias. Vai cruzar-se com o trabalho de grupos (o sagrado feminino, o encontro com a guerreira ou deusa interior, a busca do poder pessoal, o PNL, o coaching, processos de liderança, yoga, etc.), vai fazer reiki (sessões e as iniciações), entra em contacto com uma série de terapias, como a leitura de aura, tarô, entre outras, e começa a despertar para a realidade espiritual, para as suas necessidades mais profundas e para o sentido mais profundo da vida.

Quando tiver esgotado essas hipóteses, essas terapias e livros relacionados com a espiritualidade e desenvolvimento pessoal, o discípulo, ainda assim, sente-se descontente, insatisfeito – quer mais. Mais de si. Significa que já incorporou toda a informação e todo o conhecimento. Significa também que já tem as suas práticas, que foi aprendendo com as terapias, os livros, os cursos e workshops que assistiu. Nessa fase, quer apenas uma coisa, uma linha por onde seguir: quer encontrar um mentor que o ensine, que ajude a organizar tudo o que foi adquirido até ali.

Neste momento o discípulo começa a esvaziar, começa a deixar de lado o que está a mais, o que está em excesso, o que não faz sentido e com o que não se identifica. Ainda assim sente que precisa de ajuda, precisa de um modelo, um exemplo a seguir. Alguém que lhe fale ao coração e alguém que já tenha feito esse processo e que já não esteja em busca. Aí tenta encontrar um terapeuta, um escritor, guru ou mestre espiritual, que o ensine a interiorizar todas as lições que aprendeu até ali.

Enquanto se debate com conhecimento e informação, ainda está no plano mental, na interpretação e na análise do sentido de tudo. Quando tiver absorvido tudo, quando sentir que não há mais que absorver, que não há mais espaço, há um momento ou fase de introspecção, de desidentificação e afastamento de todas as matérias que se estudou até então. O discípulo torna-se no modelo. Procura só o que é essencial, o que é fundamental. O que faz sentido no momento. Abandona todas as teorias, todo o conhecimento, e passa a viver no sentir, no intuir. Educou a sua mente, ela não comanda mais o processo. Algo superior passa a guiar. Há um funcionamento superior, subtil, gentil e suave. O discípulo deixa-se guiar pela vida, pelos relacionamentos. O discípulo deixa de buscar. Ele encontra em si o que sempre procurou fora. Ele vive em sabedoria e conexão.

Procuramos esses modelos porque, no fundo, muitas das vezes não tivemos modelos à altura. Os modelos que tivemos estavam em falta, de compreensão, de amor, de sabedoria, de intuição. Tivemos pais ou professores que nem sempre foram compreensivos, amorosos, gentis, presentes ou disponíveis. Nem sempre foram seres evoluídos e capazes na educação que foram capazes de nos passar, então cá estamos nós, à procura de um pai ou de uma mãe, um modelo feminino ou masculino de sabedoria, paz, elevação e amor incondicional. Será que esse modelo existe? Eu acho que existe em várias pessoas. Podemos encontrar isso e buscar isso em vários modelos. Todos eles, mesmo pai ou mãe, deixaram algo, mostraram algo bom. Vários terapeutas podem mostrar facetas do que buscamos. Mas o maior modelo e maior professor iremos ser sempre nós.

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.” Carl Jung.

Os tempos da inquisição moderna

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O tempo da caça às bruxas acabou, ou será que não? Dou por mim a abrir os comentários de publicações de várias pessoas, sites ou notícias, com temas controversos – e nada grita mais controvérsia do que política, ambiente, alimentação, saúde e maternidade, bem como todas as novas teorias que vão surgindo a cada dia para nos estafar a cabeça – com conteúdos extremamente violentos, mensagens de ódio, desejos de morte, etc. E eu nem quero acreditar…

Ficou algo de inquisição em cada um de nós, de delatar, de apontar o dedo, expor, denunciar, tudo o que é diferente, tudo o que não é suposto, tudo o que choca, tudo o que sai da “normalidade”, da convenção, do esperado. Somos livres de ter e expressar a nossa opinião, mas valha-nos Deus se o fazemos e ela vai contra a corrente! Somos esfolados vivos em haste pública. Já não se apedrejam os infiéis na praça da cidade, nem se enforcam ou cortam cabeças em praça pública, agora temos as redes sociais para isso.

Muito mais sanitário e antisséptico. A crueldade e crítica humana pode mudar de forma e de canal mas continua a existir. E eu penso: como se defende a inclusão nas escolas, dos meninos menos adaptados e com mais dificuldades, de elementos da comunidade cigana e outras etnias, dos jovens com dificuldades de adaptação e de comportamento, se nem os nossos pares conseguimos aceitar, quando fazem ou dizem algo com o qual não concordamos?

Há muita violência contida dentro de nós. Revolta, angústia, medos e todas as coisas que teimamos em calar, que calaram por nós, que nunca foram expressas, em anos, décadas e milénios, de opressão (do governo, da religião). Esse veneno acaba por ser destilado por quem nem tem nada a ver com essas formas de ódio que temos contidas no nosso sistema celular (ADN), que vem de antepassados, e de gerações antes de nós. Se não, de onde viria todo esse ódio, quando vivemos em tempos de liberdade de expressão e de inclusão?

Vejo meninas de 12 e de 13 anos chamarem p#tas umas às outras, quando uma de elas é ousada, gosta de namoriscar ou flertar. Ou mesmo quando põe algodão no sutiã porque acha que tem as maminhas pequenas. Miúdas que se chamam gordas umas às outras, só para se ofenderem. Adolescentes que dizem a alguém tímido ou introvertido que deveria de morrer, pois não faz falta nenhuma. Mas o que é isto? Que violência é esta? Miúdos que, à partida, têm tudo em casa, todos os confortos materiais, pais adultos e formados, andam à escola uma série de anos, sabem o que é o bullying, têm apoio psicológico se precisarem, andam em explicações, têm adultos e familiares que falam com eles e os aconselham… Porquê tanta dor? Tanta revolta? O que verdadeiramente falta?

Vivemos numa sociedade profundamente doente. No sistema escolar, no sistema jurídico, no sistema político, no sistema de saúde… No sistema onde vivemos. No sistema mental e emocional. Temos milénios para curar em nós. Milénios de dor. A sociedade avançou depois do holocausto, depois das grandes guerras, mas o corpo de dor está lá. O corpo de dor do planeta, das sociedades, da população mundial.

Todos partilhamos o mesmo ADN humano. Esse ADN está ferido, profundamente ferido. Que possamos, individualmente, curar o nosso próprio corpo de dor. Acredito que, um a um, possamos fazer a diferença. Um dia, quando o número suficiente de pessoas tiver feito o seu trabalho, o mundo muda. Porque nos cabe a todos fazê-lo. Todos somos responsáveis. Não são os outros, não é o governo. São as pessoas. Somos nós, cada um de nós. E isto é profundamente importante. Que o façamos. Em nós e nas nossas casas. O mundo está à espera. Nós somos aqueles de quem sempre estivemos à espera.

Aos mantos vermelhos e pretos

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Alguém me dizia hoje que a depressão era como um edredom vermelho e, por vezes, também preto. Achei curioso. Normalmente a depressão é vista como uma nuvem negra ou um peso no peito e na cabeça. Estas são as formas mais comuns que encontro quando peço para simbolizar a depressão, tristeza ou mesmo medo. O objectivo deste exercício é dar forma ao que sentimos, olhar para essa forma e dialogar com ela. “Vê-la”, oficializá-la. Nas crianças há um exercício muito engraçado que é o BI do Medo, dando uma cara e um nome ao medo, junto com algumas características desse medo.

Há uma parte de um dos filmes do Harry Potter, numa das aulas de defesa contra as artes das trevas, em que os alunos tinham de confrontar o seu maior medo. Havia um “sem forma” que assumia exactamente a forma do medo dos alunos, e, nesse momento, em que essa criatura assumia essa forma, eles teriam de a ridicularizar. Um dos alunos imaginou uma aranha e logo a seguir patins nas patas da aranha, fazendo com que esta se desequilibrasse constantemente e não conseguisse atacá-lo. Ao rirem todos das figuras da criatura, ela perdia o seu poder (deixava de dar medo).

Aqui não é bem o caso. O que é certo é que olharmos para os nossos fantasmas nos ajuda a isso mesmo, que eles deixem de ser fantasmas e existirem de forma omnipresente e difusa no nosso ser, como algo incognoscível. Ao olharmos de frente para as nossas emoções, ou mesmo o nosso ego, fá-las perder tamanho. Perdem volume, são apanhadas em flagrante.

Já presenciaram aqueles cães queixosos que uivam languidamente, como se todos os males do mundo lhes tivesse caído em cima, e quando vamos ao pé deles e falamos com eles, eles se calam, ainda que com aqueles olhos de inocente acossado, mantendo um ar de quem foi atraiçoado, enganado ou injuriado? Ou mais ainda, quando uma criança faz birra mas é só encenação, para ter atenção de alguma forma? Pois bem, acho que assim já ficam com a ideia.

As emoções são sintomas do nosso corpo, tal como uma doença física, também ela podendo ser reflexo do nosso mundo mental e emocional (e muitas vezes, ou a maior parte das vezes, é). Mas emoções dolorosas que ficam tempo demasiado, convertem-se mesmo em doenças, doenças mentais, como as diagnosticadas no livro das doenças mentais que nós psicólogos usamos como base de estudo: a depressão, a ansiedade generalizada, o luto patológico, a perturbação do pânico, etc.

O que podemos fazer com esses “mantos” ou “edredons” de tristeza e depressão? Que nos fazem isolarmo-nos, fecharmo-nos, evitarmos a vida lá fora e a vida dentro de nós? Não nos habituarmos a eles. Tal como o inverno tem de acabar para dar início à primavera, também o inverno da alma tem de acabar. Devemos fazer como fazemos aos guarda fatos na mudança de estação: pegar nas mantas e roupas pesadas e mudá-las de sítio, para darmos lugar a roupas mais frescas e mais leves.

Dizer a esse edredom amigo e companheiro das noites sós e frias: “agradeço-te a companhia, mas habituei-me demasiado a ti. Sei agora que me pesas e olho para ti como o que tens sido – uma capa, uma protecção, um casulo. Quero sair agora. Agora sou grande, agora vejo o mundo lá fora. Agora quero sair, viver, e ser feliz. Agora estou pronto. Agora posso fazê-lo.”

A neurose de colocar os outros sempre em primeiro lugar

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Porque é que as necessidades dos outros são mais importantes do que as suas?

Atendo demasiadas pessoas com sentimentos de culpa, desgaste, exaustão e depressão por deixarem as suas necessidades de lado a favor de outros. Sendo uma situação temporária, em que se assiste um membro, ou mais, da família, percebemos que é algo circunscrito no tempo, apesar de trazer desgaste e cansaço na mesma, é um factor de stress agudo. Hoje quero falar de factores de stress crónico, prolongados no tempo.

Uma coisa é cuidar de filhos pequenos, outra completamente diferente é cuidar de pais ou outros familiares acamados ou com redução da autonomia, demência, cancro, ou doença de Parkinson. “Mas eles não compreendem que eu tenho a minha família… Não aceitam ajuda de mais ninguém, não querem estranhos lá em casa, não querem ir para uma instituição ou apoio externo…”.

Filhos que se mobilizam para acudir a tudo e todos, na sua vida pessoal e familiar, que têm as suas casas e problemas para gerir, ainda prestam assistência aos seus pais ou outros familiares, como os sogros, ou um irmão dependente, por exemplo. E até aqui tudo certo, se tem o tempo, a vontade e a disponibilidade financeira para tal.

Há quem largue tudo para assistir um familiar. Há quem deixe as suas próprias vidas pessoais e investimento na carreira, para se dedicar a um familiar. Mas a factura é pesada. O custo é grande. O desgaste, a exaustão e esgotamento acompanham. A depressão também. Então podemos deduzir que algo não está bem neste cenário. Se estivéssemos a fazer o que é certo para nós, não deprimiríamos. Sim, sofremos com o sofrimento dos nossos, é verdade, mas ninguém deveria ter de pedir, ou esperar, que outra pessoa deixe a sua vida para cuidar, indeterminadamente, de outra.

Não, não vivemos em um mundo perfeito, mas já há muitas respostas sociais, lares e unidades de cuidados continuados. Há centros de dia e apoio domiciliário. Há unidades de cuidados paliativos e unidades de reabilitação. Há a possibilidade do descanso de cuidador, para quem não conhece (até 90 dias de internamento numa unidade de cuidados continuados). Há apoio particular, pessoas que cuidam de idosos, fazem a higiene, limpam e cozinham, passam a noite. Se é ideal? Sim, para quem cuida.

Para o idoso, ou pessoa dependente, estas respostas não são o ideal. Por não querer sair da sua casa, por haver o sentimento de humilhação de ter de ser cuidado por pessoas estranhas, por julgar que os filhos devem cumprir com essa obrigação, por não querer assumir que está dependente, etc. Mas aqui o sacrifício acaba por calhar, muitas das vezes, sobre as filhas, ou filha. Quando há irmãos ou irmãs, há sempre um que acaba por ser o mais sobrecarregado. Raras vezes há uma partilha igualitária de tarefas. E muitas vezes, é esperado esse papel ser assumido pela mulher. Pela filha ou pela nora.

Sobre muitas mulheres recai o papel de cuidar. Ter de cuidar dos pais até ao seu falecimento, ter de cuidar de um irmão dependente, ter de cuidar dos sogros. É os casos que mais conheço. É esperada essa tarefa das mulheres, das filhas, das irmãs, das noras. E é esperado também que tenham a sua própria casa impecável, os maridos e os filhos cuidados, sem nada lhes faltar. Também precisam de trabalhar e conseguir o seu sustento. E, já agora, que arranjem também o tempo de pintar os brancos dos cabelos, fazer as unhas, e andarem arranjadas.

Quem consegue isto? Conseguem pois, pois as mulheres acham que podem ser super mulheres. Que têm que colocar os outros sempre antes delas mesmas. Esperam isso delas. Quem, perguntam vocês. Quem espera isso delas? Toda a gente. Os pais, os irmãos, os genros, os maridos, os vizinhos, os tios, elas mesmas… Todos têm o dedo apontados para elas. Parece que descemos ao mundo para cuidar. E historicamente assim foi. Desde os tempos da pedra. Mas os tempos mudaram. Antigamente as mulheres ficavam em casa, não trabalhavam. A sua missão reduzia-se aos trabalhos domésticos e, exactamente, cuidar dos filhos e dos maridos. Posteriormente, cuidar dos pais e dos sogros.

Mas o mundo mudou. As mulheres não ficam mais em casa. Contudo, elas continuam a achar que sim, que têm de ficar. Que têm de abdicar delas mesmas em prol dos outros, senão, Deus-nos-livre!, vão acusá-las de egoísmo, e ninguém quer essa sentença sobre as suas cabeças. E sim, muitas mulheres submetem-se a esse julgamento social e familiar.

Cobramos demasiado delas, esperamos demasiado. E elas quebram, elas correm aos médicos de família para tomar ansiolíticos, antidepressivos e medicação para dormir. Andam a toque de químicos. Recorrem a psicólogos porque estão deprimidas. E quando lhes apresentamos soluções, diferentes daquilo que tem sido as soluções até ali, recusam-se, ficam de cabelos em pé, pois sentem, desde logo, o peso da rejeição, da perda de afecto, da crítica, da culpa.

Os outros querem que elas continuem, apesar do seu sofrimento, do seu desgaste, da sua exaustão. Os outros estão confortáveis nas suas casas enquanto elas correm de um lado para o outro e abandonam, muitas das vezes, as suas próprias casas. Não, não acho justo. Não acho certo. Defendo a liberdade acima de tudo, o bem-estar acima de tudo. As respostas sociais acima da depressão e do esgotamento de outro ser humano.

Se acha que está nos limites das suas forças, independentemente da opinião do familiar, ou familiares, que estão a seu cuidado, eu digo: é sobre si que recai a decisão. É você que está a sair do seu ambiente de conforto para ajudar, para cuidar, para lavar, para cozinhar, para acompanhar, para fazer. Se acha que não aguenta mais, se se está a prejudicar em termos profissionais, em termos familiares (o marido e os filhos acusam a sua falta), e em termos da sua saúde mental, então requer uma pausa, um “já chega”, um “não aguento mais”.

Os outros podem não aceitar, podem não compreender. Mas é você quem precisa decidir o que é importante daqui para a frente. O que deve ou não fazer. Os outros ajustam-se a uma nova realidade, com maior ou menor aceitação, tal como você teve de se ajustar a uma nova rotina ao cuidar de esse outro alguém. O que é estranho deixa de ser estranho, o que é humilhante e inconcebível também deixa de ser com a continuação. Tudo é uma questão de hábito. Limites são necessários existir, ainda que perante um ente querido. Se é a sua altura, força. Peça ajuda para saber quais são as opções disponíveis, peça opinião a profissionais de saúde. Mas trate de si por favor. Senão não irá restar mais ninguém para o fazer.