Como escutar a intuição

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A intuição é um barco, ou caminho, que não leva a lugar nenhum (que queiramos). Para escutar a intuição há que silenciar. Silenciar a mente e as emoções. Fazer a pergunta e escutar, esperar a resposta, quase imediata, de um sítio superior, de um nível acima de nós. Um sim, um não, uma palavra, uma sensação. A intuição não explica muito, diz só as respostas que precisamos, e não as que queremos.

Se estamos num estado de desejo, expectativa ou ideal, contaminamos o processo. Para ouvir a intuição, precisamos de estar num estado de pureza, de contemplação, de aceitação, de receptividade, de permissividade. A maior parte do tempo estamos numa postura reactiva, queremos isto ou aquilo, desta ou daquela maneira. Levamos o tempo em lutas interiores, com as expectativas e o corpo egóico de desejo. O desejo é querer que as coisas sejam de uma determinada forma, como as concebemos, projectamos ou idealizamos.

A intuição não serve para nos alimentar esse corpo de desejos, insaciável, orgulhoso e caprichoso. Quer que o sirvam, quer respostas imediatas, quer saber, quer controlar. No fundo, o corpo de desejo é a nossa necessidade de controlo das situações, da vida, daquilo que vivemos ou vamos viver. Temos uma necessidade quase desesperada de saber, de querer saber, o que o futuro nos reserva, o que vai acontecer. Daí ser tão difícil encontrar vaga em consultas divinatórias.

Então o que é a intuição? É um conhecimento subtil, superior, sempre presente, benevolente, uma voz quente de sabedoria, que se liga com o contínuo espaço-tempo, e que a tudo acede. É um caminho, um portal, uma verticalidade que nos liga a um plano superior de consciência. Há que fazer silêncio para se unir a esse fluxo universal, apartar as águas, entrar nesse registo de receptividade, sem nada querer, sem esperar nenhum resultado. Então a voz vem, a voz cristalina da intuição, que nos diz o que é, o que existe e o que está a ser ou poderá vir a ser.

Já parou para se escutar?

Evitar ataques de pânico (estar presente)

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Estando no corpo, estamos no momento presente. E o que quero dizer com isto? Quem está ansioso, normalmente está preocupado com uma série de coisas da sua vida actual, passada ou futura. Não podemos estar no momento presente e estarmos agitados, tensos ou em ansiedade extrema.

Podemos ter, por exemplo, um encontro importante daqui a pouco (uma entrevista, uma apresentação, etc.), por isso é normal estarmos um pouco ansiosos porque, no fundo, queremos fazer boa figura. Mesmo assim, se nos mantivermos presentes, em nós e no momento, é perfeitamente controlável essa ansiedade.

Não quer dizer que não sintamos ansiedade, não precisamos é que ela seja elevada ou a roçar um ataque de pânico, ou mesmo tê-lo. Não há nada mais fácil do que conter um ataque de pânico. Não virem já as vossas pistolas à minha cabeça! Sei que um ataque de pânico não é pêra doce, é uma sensação devastadora, não se conseguir controlar, pensar que vai morrer, ter um ataque cardíaco, enlouquecer ou ter um AVC. São poucas as sensações tão angustiantes quanto o medo em si, o pânico.

Há o pânico de não ser capaz de melhorar, de ultrapassar, de não ser capaz de fazer alguma coisa, de gerir o trabalho e as responsabilidades (principalmente quem é pai e mãe e tem uma vida profissional muito exigente, por exemplo), e todos os motivos que levam a que a ansiedade suba a níveis altíssimos. Quando isso acontece, um ataque de pânico pode estar ao virar da esquina.

Escrevo várias vezes sobre a ansiedade, e um dos meus últimos textos aqui no blog foi exactamente sobre esse tema, com algumas sugestões para gerir a ansiedade. Hoje quero escrever em concreto estar no momento presente e gerir os momentos de stress, ansiedade ou pânico quando eles acontecem, que é o que costumo fazer nas consultas quando ensino técnicas de gestão da ansiedade/práticas de relaxamento:

1. Barómetro da ansiedade

Imaginar uma escala de 1 a 10. Localizar a sua ansiedade, baixá-la, no mínimo até 5.

2. Contagem decrescente

Contar de 10 até 0, em cada número fazendo uma inspiração e uma expiração (usar com a respiração da coerência cardíaca – inspirar contando até cinco e expirar na mesma contagem, com o objectivo de cada inspiração e expiração terem a mesma duração).

3. Central de alarmes

Imaginar que na mente existem vários alarmes a piscar a vermelho que pode desligar ou mudar a cor (de vermelho para laranja/amarelo e de laranja para verde, por exemplo).

4. Telecomando das emoções

Igualmente, imaginar que tem um comando que pode aumentar e diminuir as emoções, é outra técnica de visualização/imaginação que pode utilizar.

5. Ser como uma árvore

Gosto particularmente desta prática, imaginar o seu corpo como se fosse uma árvore, com um tronco sólido, raízes fundas, e ramos a tocar no céu, com as suas folhagens ao vento. Parece poético mas ajuda a enraizar e imaginarmo-nos fortes mas flexíveis.

Estas são algumas das metáforas ou simbolismos utilizados em consulta, que são práticas que podem ser utilizadas para conter a ansiedade ou um ataque de pânico. São estratégias de gestão e contenção emocional, mas também distracção cognitiva. Se a mente estiver ocupada neste processamento, não está focada nos problemas ou dificuldades.

No fundo, estar presente no corpo é dar-lhe o que ele precisa a cada momento: comandos de estabilização, de reorganização e desimpedimento de pensamentos automáticos negativos.

Em relação aos ataques de pânico, o melhor que se pode fazer é estar consciente do que é o ataque de pânico, quando está para chegar e contê-lo numa fase inicial, quando se começam a sentir os primeiros sintomas de subida de ansiedade: palpitações ou taquicardia, nervoso miudinho, agitação, pensamento acelerado, dificuldade em respirar e sensação de sufoco.

Depois destas sensações, o sistema nervoso vai interpretar os sinais do corpo como se, de facto, algo de muito grave se estivesse a passar. Como tal, dispara os alarmes e aí gera-se o ataque de pânico, quando a mente começa a tentar atribuir causas ao mal estar físico e orgânico. Da racionalização do que se passa, surgem os tais pensamentos: “vou morrer/ter um ataque cardíaco/ter um AVC/vou enlouquecer”. Destes pensamentos, dá-se a escalada do pânico. São episódios que têm uma duração aproximada de 10 minutos.

Nada melhor do que procurar ajuda numa fase inicial para poder aprender estas técnicas e explorar melhor o que é a ansiedade e formas de a conter com alguém competente nessa área. Não precisa levar anos a passar mal com algo que se consegue resolver relativamente bem e de forma eficaz como os ataques de pânico.

Da minha janela

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Da minha janela vê-se a rua
Onde passa gente
Pessoas a falar, pessoas pensativas, pessoas a discutir, pessoas distraídas
Da minha janela vejo animais a passear
Cães a farejar aqui e ali, a passar determinados
Pássaros a voar de árvore em árvore, uns em bandos, outros sozinhos
Gaivotas a sobrevoar o céu à espera da senhora que leva comida aos gatos.
Na minha janela passam conversas cruzadas e eu vejo o céu
Carros, árvores, os contentores do lixo e da reciclagem
Da minha janela contemplo o fora
O mundo exterior
O bulício das pessoas, do mundo
A azáfama e o corre-corre do dia-a-dia
Vejo as mentes a pensar
Vejo os olhos perdidos nas pedras da calçada ou a contemplar o nada
Vejo a agitação do mundo
A vida a acontecer e a fenecer a cada momento
As estações a acontecer como aqueles lapsos de tempo em que no céu passa o dia, a noite, o sol e a chuva.
A minha janela é aquilo que separa o dentro e o fora
A minha mente da rua
Nessa janela vejo o lá fora e sinto o dentro
Faço a comparação
E paro… sinto a mina respiração
Observo os meus pensamentos
Vejo o que sou eu e aquilo que não sou
A minha janela sou eu
Uma moldura de sensações, pensamentos e emoções
Por onde a vida passa, a vida acontece
A minha janela é o meu próprio limite
Que pode ser maior ou mais pequeno consoante o que observo e penso
Na minha janela cabe tudo, um pequeno grande mundo
Dentro dela sou o que sou
É a minha casa onde posso ser
Fora dela…
Há um mundo em eterna mutação onde explorar e participar

Identificar-se ou não.

Love, Simon (acerca do filme e da adolescência)

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A adolescência não é período fácil. Há todo um mundo a acontecer fora e dentro. Há uma necessidade tremenda de pertencer, de não se destacar para não ser notado, criticado ou ridicularizado. Os amigos são as coisas mais importantes do mundo, porque com eles temos um grupo de pertença, de partilha e de protecção. Sem eles falta uma estrutura, uma barreira em relação aos outros, e o adolescente fica sozinho.

A perspectiva dos pais, as limitações impostas, os castigos, as regras, a limitação de tempo de redes sociais/telemóvel ou computador, têm um impacto brutal, e o adolescente sente-se tremendamente injustiçado, desrespeitado, com um impacto imaginado de perda de alguma coisa. Perder uma novidade, ficar temporariamente excluído, perder a participação em algo onde “todos” estão, etc.

Impacto imaginado quer dizer que tudo é assunto de vida ou de morte na adolescência. Há segredos, confissões, sentimentos que se partilham e são o maior tesouro do mundo. Há graves traições também, de confiança, de inconfidências com terceiros, e terceiros que espalham a toda uma escola, e a partir daí, gozo, humilhação, vergonha, de coisas simples ou até pequenas mas que, para estes jovens, se revestem da maior importância.

A adolescência não é pêra doce. É uma fase de criação e experimentação de independência e de identidade. Começamos a perceber quem somos, quais os nossos gostos, interesses, expectativas, orientações, vontades e desejos. Há muita fantasia e ilusão também, há um acreditar em tudo o que os amigos dizem e querer seguir tendências, modas, trejeitos e formas de falar, lá está, para pertencer, para ser igual. É todo um movimento para o exterior, um desejo de participar e ser aceite, como tal, há que seguir as regras, normas e condutas desses mesmos grupos.

Engraçado como o movimento dos 20 para cima é exactamente o contrário, descobrir quem sou eu sem o grupo, sem os amigos. O que quero? O que gosto? O que quero criar? Qual o estilo pessoal que quero ter? O que quero parecer? Como o fazer? Nessa década já há mais experimentação com o “eu” individual, há o questionamento da máscara que se colocou na adolescência para parecer e pertencer ao grupo.

Na adolescência a identidade é criada por comparação e imitação. Treinamos as pessoas que queremos ser através dos nossos modelos de referência e de valoração, que são os nossos amigos ou os jovens de destaque na escola, e é exactamente na escola que é a nossa aprendizagem social mais marcante. É lá que tudo se passa. É lá que crenças são criadas sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo e como o futuro deve de ser, desejado ou imaginado. Claro que em casa idem aspas. Mas na escola é o modelo real, é o palco onde tudo se assiste e se treina.

Quanto ao filme em si, de onde foi inspirado este texto, retrata a vida de um grupo de amigos, incidindo especificamente na experiência de um dos rapazes do grupo que descobre ser gay mas tem vergonha de dizer aos amigos, e, na tentativa de esconder para evitar as consequências temidas, acaba por participar num rol de mentiras que o prejudica gravemente junto dos amigos, que se chateiam com ele e se afastam (temporariamente).

O filme está muito giro e a família do rapaz é uma delícia, nomeadamente na reacção à confissão da orientação sexual. Os amigos perdoam, ele arranja namorado e fica tudo bem, mas o que me inspirou foi mesmo a lembrança do quanto é difícil viver esta etapa da vida com tanto peso que é dado aos outros, e o quanto os outros podem prejudicar, gravemente, a autoestima de quem poderá estar mais fragilizado, com consequências duradouras.

No reino das gaivotas

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No reino das gaivotas não há rei nem senhor, não há lei nem democracia, mas há a ordem das coisas vivas, que se regem pelo sol e pelo mar. Nesse reino eu parei, sentei e senti o que era o relaxamento. Primeiro, todos os passos dados, deixando mente para trás. Ser só sensação. Depois, parar e escutar o interior. Perceber como há quente dentro, como tudo funciona por si, sem necessidade de controlo da nossa parte e sem precisar de mais nada a não ser o ar, água e comida que introduzimos diariamente para manter tudo a funcionar.

Nesse silêncio mental, sentir a tal ordem das coisas vivas, sem mente. Só sensação. Sentir o preenchimento do nosso interior, composto de órgãos e sistemas, que se interconectam e criam harmonia e, com ela, vida, presença, consciência. Quando observamos apenas isso, sentimos o nosso motor, o nosso coração, o nosso calor interior.

Quando nos conectamos por algum tempo nessa presença ou consciência, contemplação ou estado de observação, a mente de facto silencia. Não pensa. Não quer dizer que não haja pensamento. Não há é identificação com ele. As palavras tornam-se como nuvens ao vento. Antes disso, a mente estremece nessa promessa de morte ou adormecimento, emitindo um alerta. Quando não alimentamos o alerta, e deixamos esse processo acontecer, tal computador em modo suspensão, a mente assim fica, sem nada mais importar a não ser o eterno e grandioso agora.

Tem ansiedade?

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Na verdade, quem não tem? Sabia que a ansiedade faz parte de nós e se não fosse por ela nem nos levantávamos de manhã para fazer o que fosse?

A ansiedade é o nossos sistema de activação, de alerta, aquele que nos desperta e incentiva a fazer (lutar, fugir ou desistir). Um sistema ancestral imbuído nas nossas células e parte do nosso sistema nervoso. Como um programa, ou app, pré-instalado no nosso cérebro. Já nascemos com ele, portanto. A partir daí, as nossas experiências e vivências vão moldado e regulando esse sistema, activando-o mais ou menos.

O problema é que esse sistema está sempre em activação e nem sempre sabemos como “desligá-lo” ou reduzi-lo. Mas é possível! Não desespere. Não leve é muito tempo a procurar ajuda, caso esse sistema lhe esteja a dar cabo dos nervos, a levá-lo a ter ataques de pânico e andar completamente stressado todo o tempo, cheio de medo de alguma coisa que nem sabe o que é e com uma preocupação constante sobre o futuro e as coisas que podem vir a acontecer mas que não estão a acontecer agora.

O que pode fazer:

1. Respiração

Nada funciona melhor do que esta velhinha prática. Gosto particularmente da respiração da coerência cardíaca, ora procure online. A respiração traz-nos, como mais nada neste mundo, ao momento presente. Não se trata só de respirar, mas de tomar consciência da respiração, fazendo uma respiração natural, sem esforço, deixando o ar entrar e sair. Encontre e implemente uma prática de respiração consciente diariamente.

2. Consciência corporal

Pare para reparar como está o seu corpo. Que zonas de tensão tem? Quais aquelas provocadas por más posturas ou tensão abdominal e más práticas de respiração? Andamos constantemente a correr de um lado para o outro, imersos em pensamentos e preocupações, que desprezamos por completo o que isso faz ao nosso corpo em termos de tensão. Ora os músculos têm memória, se anda tenso todo o dia, também anda o seu corpo (e vice versa). Mesmo quando está descontraído, o corpo continua tenso.

3. “Scanner” corporal e relaxamento progressivo

Não é à toa que é uma das principais ferramentas do Mindfulness. É observar como está o seu corpo, sentindo as várias partes corporais e ajustando a sua posição, descendo os ombros, relaxando a zona abdominal, soltando os braços e ombros, bem como os maxilares. Estas são as principais zonas de tensão.

4. Cortar o ciclo de pensamentos

Aos fazermos estas práticas, podemos, por si só, quebrar o ciclo mental em que estávamos envolvidos antes de as fazermos. A mente foi criada para resolver problemas, mas os problemas não estão a acontecer a todo o instante. Quando não há nada em termos práticos a fazer no imediato, pense nas soluções possíveis para cada uma das situações que tem de resolver, e ocupe-se de outra coisa mentalmente, reparando no meio ambiente, focando-se apenas na tarefa que tem em mãos, etc.

5. Práticas de relaxamento regulares

Sejam elas quais forem. Tudo aquilo que o possa relaxar e que goste de fazer. Toma banho ou faz a sua higiene todos os dias? Pois bem, deve fazer a sua gestão emocional diariamente também, senão é como uma tulha de roupa suja sempre a acumular, essas coisas que são os pensamentos e emoções. Devem ser reciclados, limpos e descartados. Pode ser ter um momento para si, para ler, ouvir música, dar uma caminhada ou uma corrida, ir espreitar o mar, ficar em silêncio, escrever, fazer um exercício meditativo ou respiratório, fazer uma massagem, tomar um banho de imersão. Você escolhe.

Como vê, há coisas simples e rápidas que pode fazer para atenuar ou reduzir a ansiedade. A ansiedade não é um bicho papão que se esconde atrás do cortinado ou debaixo da cama, com o único propósito de nos perturbar. É algo que existe e vai continuar a existir em nós, por mais que tome ansiolíticos. É um circuito interno que pode gerir, com estas ou outras práticas que conheça e implemente com sucesso e regularmente. Eu diria até diariamente.

A mulher depois dos 30

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A mulher depois dos 30 já sabe aproveitar o seu tempo livre, fazendo coisas que lhe fazem bem e que gosta de fazer. A mulher depois dos 30 já cuida melhor de si (ou deveria cuidar, em termos de alimentação, exercício físico e cuidados à pele, por exemplo), já sabe o que tem de fazer para se sentir melhor, já aprendeu (ou deveria aprender) a gostar mais dela, a valorizar-se mais e a não fazer fretes. Já sabe bem o que quer e não quer,o que gosta e não gosta, já aprendeu (ou deveria aprender) a fazer as pazes com as coisas que não consegue mudar e com aquilo que é.

A mulher depois dos 30 já aprendeu algumas coisas, através das vivências e relacionamentos que teve, através das várias experiências nos vários contextos de vida, e, com isso, já sabe quais os caminhos que deve percorrer (ou que serão bons para ela), e quais os que deve evitar, evitando cair em esparrelas e ilusões. Ilusão é exactamente algo que cai aos 30, ilusão sobre os outros e sobre nós. Ilusão sobre como as coisas são ou devem ser. Começamos a ver com mais clareza e discernimento.

Aos 30 podem dar-se crises existenciais: será que estou no caminho certo? O que deveria estar a fazer? Qual a profissão ou o trabalho ideal para mim? Como desenvolvo a minha paixão, missão ou propósito? Quais são eles? O que é suposto eu fazer no mundo? Como deixo a minha marca? Como posso ser melhor mãe, companheira ou profissional? Como posso ser melhor pessoa? Sentir-me melhor comigo mesma?

Estas e tantas outras questões. Na casa dos 30 é esperado concretização pessoal, familiar e profissional. Espera-se que, na casa dos 30, se constitua família, se tenha um companheiro e trabalho estáveis, se saiba o que se está a fazer e se tenha tudo all figured out, ou resolvido em termos de convicções, certezas, opiniões e sobre o que se tem de fazer ou não. Mas, por vezes, nada poderia estar mais longe de acontecer.

Estamos envolvidos numa sociedade e cultura dominante, padrões familiares e sociais, expectativas que tais. Para mim, aos 30 é quando se começa a contestar o que é certo e sabido. A contestar quem, na realidade, somos. Se somos uma construção de vários factores, vivências, crenças e padrões, quais são os padrões e crenças que são nossos e fomos nós que criámos, e quais não são nem devem fazer mais parte de nós? Quais os que queremos manter e quais não queremos?

A mulher depois dos 30 já só quer fazer o que lhe faz bem, manter o que é de manter, e quer ser ela mesma, ela própria. E ser ela própria envolve algumas questões, dúvidas, incertezas, inseguranças e questionamentos. E eu acho que é a partir dos 30 que nos tornamos quem somos ou deveríamos ser. Esse questionamento é o que nos leva lá, a descobrir o que é dos outros e o que, de facto, é nosso. O que queremos manter ou não do que aprendemos, acreditámos, esperámos e sonhámos. O que é certo para nós ou não.

A partir dos 30 começa o caminho da maturidade, autodescoberta em termos mais profundos, não de vivências e experiências como a casa dos 20, e autodesenvolvimento direccionado aos sonhos e paixões que queremos seguir. Despimo-nos (ou devemos despir) de uma série de condicionamentos criados por nós ou impostos e recebidos por parte do exterior, que aceitámos, muitas das vezes por não haver outras alternativas ou opções. Aos 30 começa a vida, depois desta filtragem. A partir daí, podemos ser quem realmente somos ou queremos ser, criando o que devemos criar. Bem hajam os 30!