O espectro emocional

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Tal como uma paleta de cores, assim são as emoções. De um lado das mais cinzentas às mais escuras, chegando ao preto luto, desespero e angústia. De outro lado as mais claras, do branco ao amarelo, rosa, verde, lilás como a felicidade, a alegria, a satisfação e a autorealização. Todos, sem excepção, passamos por muitas destas emoções recorrentemente. Por um lado, há pessoas que ficam no espectro mais cinzento, outras, mais optimistas e entusiastas, passam mais tempo no espectro mais colorido.

Nem sempre conseguimos estar sempre na cor e na luz, na alegria e na felicidade. Muitas vezes vamos cruzar o cinza da vida e chegar ao negro do fundo do poço. Outras vezes vamos estar no assim assim da apatia, nem cinzento nem branco. Umas vezes vamos estar num amarelo bem brilhante quando algo muito muito importante acontece e conseguimos algo que queremos mesmo muito. Outras vezes vamos estar repletos de um verde primavera quando temos daqueles momentos mesmo bons com quem amamos. E é mesmo assim… Nem só de amarelo ou verde é feita a vida. O preto e o cinza também fazem parte.

O que é certo é que, por vezes, parece que nunca mais vamos conseguir sair do negro desespero, mas, lentamente, pouco a pouco, esse negro vai clareando, como uma trovoada que, com o tempo, vai dissipando, primeiro muito cinzenta, depois menos e menos até se verem apenas nuvens branquinhas, suaves e brincalhonas, fazendo-nos esquecer da tormenta anterior. Assim é o luto e a depressão, quando não ficamos agarrados a ela. A perda faz-nos passar por uma série de cores e momentos do espectro cinzento, mas antes desse cinzento, antes da perda, já sentimos coisas de muitas cores.

E assim, por cada cor, vamos passando e vamos vivendo. É inevitável corrermos de um espectro ao outro, assim é a experiência humana. A noite não se dá sem o dia, o claro sem o escuro, o bom sem o mau, a tristeza sem a alegria. Esse é o equilíbrio, podermos sentir tudo por igual, sem menosprezar o preto e o cinzento e sem desejar apenas o amarelo e o rosa, senão o que seria do laranja e do azul escuro?

A Força do Lugar

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Com as constelações familiares tenho aprendido muito sobre posicionamento, sobre o lugar que cada um deve ocupar e sobre os que não deve, de todo, ocupar. Na verdade,a nós só nos cabe exactamente um lugar: o nosso. O de filha/o, irmã mais velha, irmã mais nova, irmã do meio, o de mãe, pai, irmão mais novo, mais velho, o sexto, de mulher, de marido, etc. E isto enquanto elemento de uma família.

Enquanto elemento de uma organização ou associação, igual, cada um tem o seu lugar, e não se deve nem sobrepor nem subestimar esse lugar. Temos sempre uma hierarquia que respeitar, seja ela qual for. Mesmo enquanto profissionais, há sempre algo que veio antes. No meu caso, antes de mim vem a própria Ordem dos Psicólogos, que é o órgão máximo da psicologia, como tal, há regras que temos de respeitar enquanto psicólogos. De filho ou irmão igual, de colega e patrão/chefe/director/coordenador, a mesma coisa. Antes dos mais novos vêm os mais velhos, do maior vem o mais pequeno, e esta é a verdadeira lei.

O lugar que é nosso permite-nos liberdade e autonomia dentro de um sistema, seja ele qual for, respeitando determinadas regras. Quando nos queremos sobrepor a alguém ou a algo maior do que nós, há uma disrupção no sistema, quando por exemplo os filhos se colocam no lugar dos pais, ou quando os pais se colocam no lugar dos filhos, ou as mulheres no lugar de mãe dos seus companheiros, e vice versa. Há uma descompensação e desorganização do sistema.

Quando isso acontece, há filhos a ficarem ressentidos com os pais por terem de cuidar ou serem responsáveis por eles ou pelos irmãos, marido e mulher que já nem têm relações sexuais porque inconscientemente estão a representar o papel de pai ou de mãe dos seus respectivos, o que significa que um deles ou é o filho ou a filha, mulheres ou homens que não conseguem deixar os seus namorados ou namoradas porque querem cuidar deles ou delas e não ser responsáveis pelo sofrimento deles, etc.

Quando nos queremos responsabilizar por algo que não é nosso nem nos cabe a nós tomar essa responsabilidade, garantidamente que fica algo em falta. Primeiramente, o outro que não aprende a responsabilizar-se se há outro a fazer isso por ele, a tomar conta da sua vida, a tomar as suas decisões e responsabilizar-se por elas. Segundo, estarmos a fazer aquilo que cabe ao outro fazer, nem que seja passar pelo processo de aprendizagem, independência, autonomia e autodeterminação. Terceiro, julgarmo-nos superiores e mais capazes do que essa pessoa a gerir a sua própria vida e a própria dor que as situações podem causar (tentando proteger). Por melhores que sejam as nossas intenções, isso subverte a lei.

A força do lugar vem de um lugar que é nosso e só nosso. Ninguém pode viver a vida por nós nem nós podemos viver a vida por ninguém. E viver a vida refiro-me a tomar decisões ou a fazer coisas por essa pessoa que só ela deveria fazer, ainda que essa pessoa nos seja muito querida e muito valiosa. Não estou a dizer para pais ou mães não cuidarem nem protegerem os seus filhos menores, falo de adultos, apesar de aos adolescentes também ser necessário atribuir responsabilidades adequadas a cada faixa etária.

A força do lugar vem de dentro, de sabermos que não podemos cuidar da dor de ninguém, das perdas de ninguém, daquilo que o outro sente, fundamentalmente. Fazêmo-lo porque fomos desenhados para pertencer, para querer pertencer, pois a pertença a um grupo é o que nos faz sobreviver, primeiro porque somos bebés e indefesos, depois porque vamos para a escola e precisamos de amigos, e depois porque vamos trabalhar e precisamos de colegas, colaboração e trabalho de equipa para aprender. A força da pertença é muito grande, e fazemos de tudo para não a perder, para não deixarmos de pertencer.

E, para não deixarmos de pertencer, tememos fazer diferente, diferente do que a família faz, diferente do que os amigos fazem, diferente do que o grupo social a que pertencemos faz. Quando o fazemos, enfrentamos crítica, julgamento, gozo, humilhação, ridicularização. No geral, desaprovação. E nós tememos acima de tudo a desaprovação, porque sermos desaprovados, é o potencial de deixarmos de pertencer à aquele grupo, não sermos aceites. Não sermos aceites é morte social.

Então, a força do lugar vem da nossa verdade, do que acreditamos, do que é nosso e só nós podemos, do que é nosso para sentir, para gerir e para poder processar. O que é dos outros aos outros pertence. O que é dos outros é grande demais para nós porque a eles pertence. Conseguem entender a importância disto? Senão andamos a sofrer as coisas uns dos outros num loop sem fim e assim ninguém tem forma de sair do sofrimento, do peso, da perda e da culpa. Essa é a força de tomarmos para nós o que é única e exclusivamente nosso. O resto, é responsabilidade alheia, ainda que seja de alguém que nós amemos. Essa pessoa também é capaz, à sua maneira, de lidar com o que é dela, e assim está bem.

Às mulheres que sofrem os seus abortos em silêncio

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Não. Os homens não sabem o que é perder um bebé. Não têm como saber. A vida não se gera dentro deles. Não são eles que sentem as alterações metabólicas, hormonais, físicas, emocionais e psicológicas que advêm de uma gravidez, de curto ou longo termo. Muitas vezes são relegados para segundo plano pois a mulher não tem como comunicar a dor que sente, nem sempre a consegue ou pode partilhar, porque sim, fazer um aborto, envolve sempre dor, seja um aborto propositado ou natural.

Quão maior o tempo de gestação, maior a dor. Os homens não sabem que saem pedaços de bebés de dentro das mulheres quando há um aborto, “bracinhos e perninhas”, como já ouvi em relatos. As contracções e as cólicas na expulsão do feto, os pedaços de sangue, a constatação de que há um ser em desenvolvimento cuja vida é terminada brutalmente, e abruptamente e que é aquele sangue e aqueles pedaços que saem pela vagina da mulher. Este é o aborto natural ou medicamentoso, em casa, quando a mulher vai à casa de banho, e acontece na sanita, no bidé ou na banheira. Outra opção é a aspiração pelo médico, onde há uma introdução de um objecto que suga as paredes do útero qualquer coisa que lá esteja implantada.

E este é o processo do aborto provocado ou natural. Outra situação é a morte fetal e a mulher tem de parir um bebé sem sinais vitais (nado-morto). Ou seja, há uma gravidez, um parto, um funeral e um enterro, que é todo um processo mais prolongado, considerando que já há mais de 20 semanas de gravidez. O aborto provocado, ou Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), pode ser feito, legalmente em Portugal, até às 10 semanas de gravidez. Em todas estas semanas, já aconteceram várias alterações na mulher, como mencionei em cima. Toda o corpo da mulher se modifica para integrar a vida que está a ser desenvolvida no seu ventre.

Há muitas mulheres que vêm ou que utilizam a IVG como medida contraceptiva, mas não é. E, mais cedo ou mais tarde, vão ter de se deparar com a dor que ficou da perda dessa ou dessas gravidezes que não chegaram a termo. Podem ser mulheres jovens, imaturas, inexperientes que recorrem a este método, ou, por algum motivo, mulheres mais maduras que, por alguma situação, tiveram de recorrer a ele, de forma voluntária ou forçada (quando há anomalias no feto, por exemplo). O que é certo é que este processo, na mulher, é mais doloroso do que no homem ou no pai. São experiências completamente diferentes, e depende se o homem está envolvido na gravidez ou não, se desejou aquele filho ou não.

A dor que fica de um filho que não se teve é prolongada por gerações. Essa dor é passada geneticamente às mulheres seguintes, e todos os bebés que se perderam, mais cedo ou mais tarde, vão ter de ser incluídos e integrados na família. É o que defendem as teorias e terapias transgeracionais e sistémicas e é o que tenho aprendido nos meus estudos e trabalho pessoal com constelações familiares. Quando as mulheres de uma família podem olhar e honrar essas perdas, dedicando uma profunda reverência a quem teve de fazer um aborto, seja por que motivo for, dizendo: “Eu não faria melhor…” tem um profundo impacto no sistema familiar. Pode haver sanação e reparação desse sistema no que toca a perdas.

No que toca aos homens poderem tomar contacto com essa dor, e com as mulheres que engravidaram e cuja perda também é deles, é também eles poderem ser incluídos nesse olhar, não havendo separação mas sim união. São precisos dois para gerar Vida. São preciso dois para honrar o fim dela também e para o que se perdeu, para o que acabou ali. Esse é o peso da Morte. Ele precisa ser honrado, visto e sentido. Se não no momento, anos ou gerações mais tarde. Assim é o que obriga a Árvore familiar, a que todos possam ser incluídos.

A ferida da rejeição

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A ferida da rejeição é como qualquer outra ferida. Dói, tenhamos conhecimento dela ou não, e manifesta-se em determinados comportamentos, atitudes e crenças. Uma pessoa com esta ferida reage intensamente quando se sente rejeitada, preterida, deixada, ignorada, desprezada, não amada e não apreciada (criticada, julgada, etc.). Pode isolar-se, sentindo-se profundamente triste e angustiada, pode discutir, reagir agressivamente, pedindo justificativas, culpando os outros de determinados comportamentos que possam ter, ser desconfiada ou paranóica, julgando que os outros a enganam, que os outros são falsos nos seus sentimentos, que os outros não são verdadeiros, e pode estar sempre à espera de ser deixada, abandonada, não se sentindo merecedora de amor.

O mesmo se pode dizer em termos da ferida do abandono, que julgo serem a mesma coisa, “Quem me rejeita também me abandona”. Ferida é ferida… Todos temos medo de algo, de sermos sozinhos, de ficarmos sozinhos, de não gostarem de nós, de deixarem de gostar de nós, de preferirem outras pessoas a nós, etc., etc. Todas as feridas são uma só, o abandono, a rejeição, a perda, a traição. Todas se manifestam em convicções, em medos, em tentativas de nos protegermos ou de não perdermos, por exemplo. Não perdermos a outra pessoa, não perdermos afecto, respeito, confiança, ou o que seja importante para nós.

Todos, sem excepção, podemos sentir isto a algum nível. Sermos enganados, deixados, traídos. Esta ameaça paira sobre nós constantemente, desde a nossa mãe, que nos deixava no quarto a chorar, por exemplo, ou tinha de ir trabalhar e deixava-nos na cresce, ou tinha de dar atenção a outros filhos. A criança, só reagindo a emoções e percepções, sem a capacidade intelectual plenamente formada, vai atribuir essas ausências a rejeição e abandono. E começa tudo aí, a sensação de amor interrompido. A sensação de ser deixado, enganado, traído. Quando a própria mãe não pode ficar, quem vai poder? Certamente outras mulheres também não poderão ficar, outros homens, ou de quem eu gosto. Logo aí começa a noção do não merecimento: “Se a minha própria mãe não pôde ficar comigo, quem ficará? Se não sou merecedor do seu amor (presença), quem me amará?”

A criança associa ausência (não presença) com falta de amor, falta de aceitação, e logo aí surgem sentimentos de não ser amado, aceite, valorizado. Isso e a associação de castigos, crítica, ser ralhado, e comparações com outros irmãos ou colegas de escola, por exemplo, faz com que a criança possa criar essas ideias e essas noções de que não é merecedor de amor e de que está a menos constantemente. Aí surgem os erros de percepção, ou programas que criamos sobre a vida, sobre nós e sobre os outros. O papel da psicologia é o de poder resgatar estas convicções, estas crenças, estas ideias, esta programação arcaica que ficou, associada a uma não verdade, porque, no fundo, a mãe (ou o pai), sempre esteve, sempre amou, sempre nutriu, sempre esteve ali, ainda que desatenta ou pouco consciente do resultados dos seus actos, correctos ou não.

Quem diz mãe também diz pai. O pai também pode estar presente ou ausente, ter ficado no casamento ou não, ter permanecido na vida dos filhos ou não. O que é certo é que estas duas figuras, principalmente, a mãe e o pai, criam um impacto gigante em como percepcionamos a vida, o trabalho, o sucesso e os relacionamentos. O que aprendemos nos primeiros anos é fundamental. E o que apreendemos nem sempre é aquilo que realmente aconteceu, mas resultado do significado que demos às nossas percepções sobre o mundo e sobre o comportamento dos outros. Nem tudo remete também sempre a mãe ou pai. Há todo um conjunto de pessoas que representam a nossa família mais alargada que também exercem uma influência em nós, nos legados que recebemos e nos programas que partilhamos com outros familiares. Mas isso será assunto para outras explorações.

Culpa, pena e empatia

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Ainda hoje escrevia sobre isto numa publicação do Instagram, mas como não havia espaço, não escrevi tudo. E escrevia eu sobre empatia e em como a empatia nos pode manter presos em processos de pena e de culpa relativamente a outra pessoa. Tenho acompanhado e falado com pessoas com pena dos ex-maridos, ex-namorados ou actuais companheiros ou maridos, ou mesmo homens que ficam com as suas companheiras por sentimento de culpa, principalmente quando há filhos.

Pena e culpa porque a outra pessoa não aceita ou não aceitou a separação, pena porque “O que será dele/dela se eu me separar? Como sobreviverá? Será que tentará suicídio? Para onde irá viver? Será que me vai odiar e sentir raiva de mim? Não tolerarei sentir que magoei alguém…”. Então, muitas vezes para evitar sentir que prejudicou alguém, para continuar a ser o/a “bonzinho/a” que não faz mal a alguém, mantém-se como mártir, suportando uma relação que já não quer, pensando que está a ser altruísta, generoso/a, bondoso/a.

Ao manter-se numa relação que já não quer, também evita a exclusão, a crítica e a desaprovação social. Separações sempre foram condenadas, principalmente quando há filhos. Familiares que reprovam a separação, vizinhos, a própria pessoa que se quer separar também pode desaprovar e até sempre ter criticado separações e divórcios, como tal muitos mais são os motivos para não se separar do que para se separar. “Quero ser feliz, seguir com a minha vida” não parece suficiente, parece que se fica no vazio, no desconhecido, no não saber o que vai acontecer.

A empatia é quando as pessoas se mantém em relacionamentos tóxicos, ou que já terminaram há muito tempo, relacionamentos que já cumpriram o seu propósito e já não trazem satisfação a nenhum dos elementos do casal, basicamente. Empatia quando compreendo o sofrimento do outro e o justifico e me mantenho por isso, porque “Coitado/a, passou por muito, anda com problemas no trabalho, sofreu muito na infância, perdeu os pais, …” etc.

Empatia, pena e culpa. Culpa por deixar, culpa por seguir em frente quando o outro fica em sofrimento. Então estabelecemos pactos secretos de lealdade perante estas pessoas com quem assumimos um compromisso, ainda mais se jurámos amar, proteger e estimar perante a igreja, perante família, perante amigos e perante Deus. A instituição casamento, afinal, tem muita força. Mesmo que não meta igreja, comprometemo-nos com outro alguém, e sempre nos ensinaram que devemos honrar os nossos compromissos custe o que custar. Daí a culpa de partir, de seguir em frente.

O que é certo é que todos estes processos custam, é difícil e requer uma grande força de vontade e persistência de seguir ainda que tudo esteja contra, ouvindo aquilo que é a sua vontade, a sua intuição e a sua verdade. Não quer desapontar ninguém, e isso compreende-se. Mas não consegue viver a sua vida sem desapontar ninguém. Alguém vai ter sempre expectativas sobre si, e se tiver de corresponder sempre a essas expectativas, ainda que não seja a sua vontade, das duas uma: ou desilude ou ficará para sempre refém dessa pessoa. Você decide.

O monstro da gula

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Come até se sentir “saciado” e para estar “saciado” é preciso comer muito? Saiba que pode estar a alimentar o monstro da gula. O que é que isto quer dizer? Conheço muitas pessoas com excesso de peso que comem até se sentirem cheios, ou às vezes até ficarem mal dispostos. Se comerem menos que isso, costumam dizer que não se sentem saciados. Atenção a dois detalhes: à palavra sentir e à palavra saciado.

Uma coisa é estar organicamente satisfeitos com o que comemos, com a quantidade adequada ao nosso corpo e às nossas necessidades ou gastos energéticos, e isso é bem menos do que aquilo que comemos, normalmente. Ou seja, uma coisa é o que o nosso corpo físico precisa para estar bem e satisfeito, outra coisa é o que o corpo emocional sente falta.

Se para se sentir saciado tem tendência para comer demais, e esse comer em excesso se manifesta em peso acima do que é desejável, provavelmente come compulsivamente, ou tem adição ao açúcar – o que normalmente está associado. O que eu chamo de monstro da gula é isso mesmo, um vazio emocional, um dor, uma angústia, ansiedade ou depressão, que pede exactamente isso: ser preenchido, ser apaziguado, ser confortado.

Então encontrando a “fórmula” que satisfaz esse desejo, a pessoa torna-se refém dos seus próprios (maus) hábitos alimentares. E convenhamos, é muito fácil cair nesse erro. Temos à nossa disposição os meios e os recursos para nos alimentarmos livremente, excesso de oferta alimentar, principalmente de produtos açucarados, e o stress constante a acompanhar.

Vivemos numa sociedade deprimida e ansiosa, que nos pede para consumirmos produtos massivamente e constantemente, quem não cai em excessos? Quase todos nós. Aqui falo na alimentação, mas também poderia falar no tabaco e no álcool, por exemplo. Tudo artifícios para dissimular o nosso senso de incapacidade para gerirmos a nossa vida.

O que digo é uma constatação muito forte, mas os nossos consumos estão intimamente ligados a questões emocionais. Veja o documentário “O Século do Ego” disponível no YouTube para perceber melhor o que quero dizer. A propaganda, o marketing, os produtos que temos à nossa disposição e a publicidade que é feita para os consumirmos, entra profundamente na nossa psique.

A indústria do marketing pesquisa formas de associar produtos a necessidades básicas do ser humano e a desejos inconscientes: ser amado, estimado, ser poderoso, sexy, desejável, etc. O natal é associado a Mon Cherry e Ferrero Rocher, a perfumes, bolo rei, relógios, brinquedos. O dia da mãe, do pai, da criança, todos eles associados a produtos alimentares e bens supérfluos, que nos dão a noção de que, para sermos bons pais, bons filhos, bons cidadãos, temos de comprar – temos de consumir.

Para não me desviar muito do tema alimentação, o que consumimos está ligado a questões emocionais, nomeadamente o excesso de comida. O que em si está a alimentar quando come? O que em si está a saciar? A anestesiar? A satisfazer? Quem está a comer, na realidade? É a mente, é a frustração, a solidão, o medo? O que não pode, na verdade, expressar? Alguma coisa que está a suprimir? O que está a recalcar com a comida? Que desejo não expresso está a ser “tapado” com a comida? Que fuga está a ser compensada com a comida?

Todo o excesso esconde uma falta, alguém disse. Todo o excesso alimentar pode ser visto como uma compensação e, na minha teoria pessoal, um castigo ou vingança. “Como não consigo ser magro/desejável, vingo-me na comida, nem vale a pena tentar ser diferente. Dá muito trabalho, não consigo”. Aqui a pergunta seria: porque é que não pode ser magro? Seria ameaçador para si ser magro, ser desejável? O que mudaria? Do que está a fugir ou de quem?

Há sempre medos inconscientes a serem trabalhados na questão do peso e do comer compulsivamente/em excesso. Olhar para esse monstro da gula é perceber o que o criou, o que ele significa, que emoções ou medos existem, para que possamos estabelecer uma relação diferente com todas essas nossas partes que, por vezes, nos assombram. Há que olhar para isso e ver o que lá se esconde. Vai ficar surpreendido com a resposta. E sim, vai poder com essa resposta, tem as condições para isso. Precisa é passar pelo processo, genuinamente.

Culpa pela felicidade

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Quantos antes de nós sofreram? Quantos antes de nós foram infelizes? Na vida, no amor, nos negócios… Quantos antes de nós foram mal sucedidos, tiveram pouco, não prosperaram? Quantos antes de nós não puderam ter mais, tendo só o mínimo, acreditando que não era possível mais, da vida, do amor, do trabalho?

De quantas crenças se compõe um legado, uma família, um clã? Nós herdamos tudo isso. Características e predisposições genéticas, configurações mentais e emocionais, herdamos inclusivamente um sistema de crenças e um sistema de expectativas. Expectativas sobre o amor, o futuro, o dinheiro e o trabalho. Ouvimos histórias, ouvimos pessoas convencidas que essa é a verdade sobre a vida, mas essa é a sua verdade, a da pessoa que conta a história e que atribui significados às coisas que viveu, que observou, que ouviu, e fez as suas próprias conclusões e leis.

Quantos de nós somos afectados por essas histórias que ouvimos a vida inteira?

“Não é possível ser-se feliz no amor”, ” Os homens não são de confiança”, “Não podemos ter muito, só o suficiente”, “Temos de ser humildes e subservientes, fazer o que esperam de nós”, “É mau ser ambicioso, desejar ter mais ou ter muito”, “É difícil vingar na vida, dá muito trabalho, é muito difícil conseguir”, “Não podemos sonhar muito, devemos seguir os passos dos outros. Isso é o que está certo”, “Não é bom ser diferente, ir contra o que nos dizem”, “Não é bom querer mais, não é seguro fazer diferente”, etc.

Quantos de nós, tendo a possibilidade de realização pessoal e profissional, viajar, levar uma vida leve e tranquila, desafogada, ter um relacionamento feliz, vendo todos os outros à nossa volta tão insatisfeitos, revoltados, frustrados, infelizes, não realizados, não nos sentimos culpados? A maioria sempre aponta o dedo às minorias, aos que fazem diferente, aos que vivem diferente. Os que vivem diferente, são um exemplo mas também uma ameaça. “É preferível submetermo-nos às regras do grupo senão seremos penalizados/excluídos/segregados/criticados”, é o que aprendemos.

Por isso, quando alguém contesta esses sistemas de crenças, modos de vida, de pensamento e funcionamento, por um lado inspira outros, por outro é criticado. E isso induz a culpa, incerteza e insegurança: “Estarei a fazer a coisa certa?”. Sim, é certo se lhe fizer sentido, se lhe fizer feliz, se não prejudicar ninguém. O que outros sentem, de desagrado, critica, julgamento, só lhes cabe a eles processar. Se segue a sua consciência, os seus instintos, e o/a leva a uma vida mais realizada e feliz, vá em frente. A sua vida só a si lhe diz respeito.

Sim outros foram infelizes antes de nós, e temos lealdades e pactos inconscientes de identificação com os que vieram antes, mas podemos rompê-los. Outros vieram antes para que possamos fazer diferente. Podemos tomar a vida que nos foi dada, e fazer com isso o melhor que podemos. Não estamos a desrespeitar ninguém. Agradecemos o que veio antes, quem veio antes, e tudo o que quem veio antes não conseguiu. Honramos a vida que nos foi dada por isso mesmo: fazendo tudo aquilo que não foi possível antes. E assim está certo.