A neurose de colocar os outros sempre em primeiro lugar

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Porque é que as necessidades dos outros são mais importantes do que as suas?

Atendo demasiadas pessoas com sentimentos de culpa, desgaste, exaustão e depressão por deixarem as suas necessidades de lado a favor de outros. Sendo uma situação temporária, em que se assiste um membro, ou mais, da família, percebemos que é algo circunscrito no tempo, apesar de trazer desgaste e cansaço na mesma, é um factor de stress agudo. Hoje quero falar de factores de stress crónico, prolongados no tempo.

Uma coisa é cuidar de filhos pequenos, outra completamente diferente é cuidar de pais ou outros familiares acamados ou com redução da autonomia, demência, cancro, ou doença de Parkinson. “Mas eles não compreendem que eu tenho a minha família… Não aceitam ajuda de mais ninguém, não querem estranhos lá em casa, não querem ir para uma instituição ou apoio externo…”.

Filhos que se mobilizam para acudir a tudo e todos, na sua vida pessoal e familiar, que têm as suas casas e problemas para gerir, ainda prestam assistência aos seus pais ou outros familiares, como os sogros, ou um irmão dependente, por exemplo. E até aqui tudo certo, se tem o tempo, a vontade e a disponibilidade financeira para tal.

Há quem largue tudo para assistir um familiar. Há quem deixe as suas próprias vidas pessoais e investimento na carreira, para se dedicar a um familiar. Mas a factura é pesada. O custo é grande. O desgaste, a exaustão e esgotamento acompanham. A depressão também. Então podemos deduzir que algo não está bem neste cenário. Se estivéssemos a fazer o que é certo para nós, não deprimiríamos. Sim, sofremos com o sofrimento dos nossos, é verdade, mas ninguém deveria ter de pedir, ou esperar, que outra pessoa deixe a sua vida para cuidar, indeterminadamente, de outra.

Não, não vivemos em um mundo perfeito, mas já há muitas respostas sociais, lares e unidades de cuidados continuados. Há centros de dia e apoio domiciliário. Há unidades de cuidados paliativos e unidades de reabilitação. Há a possibilidade do descanso de cuidador, para quem não conhece (até 90 dias de internamento numa unidade de cuidados continuados). Há apoio particular, pessoas que cuidam de idosos, fazem a higiene, limpam e cozinham, passam a noite. Se é ideal? Sim, para quem cuida.

Para o idoso, ou pessoa dependente, estas respostas não são o ideal. Por não querer sair da sua casa, por haver o sentimento de humilhação de ter de ser cuidado por pessoas estranhas, por julgar que os filhos devem cumprir com essa obrigação, por não querer assumir que está dependente, etc. Mas aqui o sacrifício acaba por calhar, muitas das vezes, sobre as filhas, ou filha. Quando há irmãos ou irmãs, há sempre um que acaba por ser o mais sobrecarregado. Raras vezes há uma partilha igualitária de tarefas. E muitas vezes, é esperado esse papel ser assumido pela mulher. Pela filha ou pela nora.

Sobre muitas mulheres recai o papel de cuidar. Ter de cuidar dos pais até ao seu falecimento, ter de cuidar de um irmão dependente, ter de cuidar dos sogros. É os casos que mais conheço. É esperada essa tarefa das mulheres, das filhas, das irmãs, das noras. E é esperado também que tenham a sua própria casa impecável, os maridos e os filhos cuidados, sem nada lhes faltar. Também precisam de trabalhar e conseguir o seu sustento. E, já agora, que arranjem também o tempo de pintar os brancos dos cabelos, fazer as unhas, e andarem arranjadas.

Quem consegue isto? Conseguem pois, pois as mulheres acham que podem ser super mulheres. Que têm que colocar os outros sempre antes delas mesmas. Esperam isso delas. Quem, perguntam vocês. Quem espera isso delas? Toda a gente. Os pais, os irmãos, os genros, os maridos, os vizinhos, os tios, elas mesmas… Todos têm o dedo apontados para elas. Parece que descemos ao mundo para cuidar. E historicamente assim foi. Desde os tempos da pedra. Mas os tempos mudaram. Antigamente as mulheres ficavam em casa, não trabalhavam. A sua missão reduzia-se aos trabalhos domésticos e, exactamente, cuidar dos filhos e dos maridos. Posteriormente, cuidar dos pais e dos sogros.

Mas o mundo mudou. As mulheres não ficam mais em casa. Contudo, elas continuam a achar que sim, que têm de ficar. Que têm de abdicar delas mesmas em prol dos outros, senão, Deus-nos-livre!, vão acusá-las de egoísmo, e ninguém quer essa sentença sobre as suas cabeças. E sim, muitas mulheres submetem-se a esse julgamento social e familiar.

Cobramos demasiado delas, esperamos demasiado. E elas quebram, elas correm aos médicos de família para tomar ansiolíticos, antidepressivos e medicação para dormir. Andam a toque de químicos. Recorrem a psicólogos porque estão deprimidas. E quando lhes apresentamos soluções, diferentes daquilo que tem sido as soluções até ali, recusam-se, ficam de cabelos em pé, pois sentem, desde logo, o peso da rejeição, da perda de afecto, da crítica, da culpa.

Os outros querem que elas continuem, apesar do seu sofrimento, do seu desgaste, da sua exaustão. Os outros estão confortáveis nas suas casas enquanto elas correm de um lado para o outro e abandonam, muitas das vezes, as suas próprias casas. Não, não acho justo. Não acho certo. Defendo a liberdade acima de tudo, o bem-estar acima de tudo. As respostas sociais acima da depressão e do esgotamento de outro ser humano.

Se acha que está nos limites das suas forças, independentemente da opinião do familiar, ou familiares, que estão a seu cuidado, eu digo: é sobre si que recai a decisão. É você que está a sair do seu ambiente de conforto para ajudar, para cuidar, para lavar, para cozinhar, para acompanhar, para fazer. Se acha que não aguenta mais, se se está a prejudicar em termos profissionais, em termos familiares (o marido e os filhos acusam a sua falta), e em termos da sua saúde mental, então requer uma pausa, um “já chega”, um “não aguento mais”.

Os outros podem não aceitar, podem não compreender. Mas é você quem precisa decidir o que é importante daqui para a frente. O que deve ou não fazer. Os outros ajustam-se a uma nova realidade, com maior ou menor aceitação, tal como você teve de se ajustar a uma nova rotina ao cuidar de esse outro alguém. O que é estranho deixa de ser estranho, o que é humilhante e inconcebível também deixa de ser com a continuação. Tudo é uma questão de hábito. Limites são necessários existir, ainda que perante um ente querido. Se é a sua altura, força. Peça ajuda para saber quais são as opções disponíveis, peça opinião a profissionais de saúde. Mas trate de si por favor. Senão não irá restar mais ninguém para o fazer.

Porque atraímos más energias ou emoções alheias

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Recentemente aconteceu-me uma situação que me fez perceber claramente o porquê de absorvemos emoções que não são nossas e gostaria de vos falar sobre isso porque é importante percebermos isto, senão vamos levar a vida intoxicados com as nossas emoções e com emoções que não são nossas mas tomamo-las como tal.

Como somos seres empáticos, sentimos a dor dos outros. Identificamo-nos, temos pena, compaixão ou simpatia. Não só, por lealdade, tomamos as dores dos outros como nossas. Muitas vezes fazemos isso com as nossas mães, pais, irmãos ou amigos. Tornamo-nos vulneráveis, absorvemos através da identificação e guardamos para nós. Deixamo-nos envolver no drama da pessoa, no campo emocional e mental dela, e tomamos partido.

Muitas vezes, por identificação da dor de alguém, processamo-la em nós. Vivenciamo-la. Não só, por já termos passado por situações semelhantes, por já termos tido emoções e sentimentos parecidos, activamos novamente essas formas emocionais e elas voltam a acontecer em nós, a emergir do fundo do nosso sentir. Ficamos com raiva, angustiados, tristes, ansiosos, e não sabemos porquê.

Quando não está a acontecer nada nas nossas vidas que justifiquem aquela tristeza, mágoa ou angústia, devemos questionarmo-nos: com quem estive que estava menos bem? Que espaços frequentei onde havia dor? Com que pessoas falei ou convivi que estavam em baixo? Identifiquei-me com elas, com a dor delas de alguma forma?

Primeiro temos de analisar-nos, sentirmo-nos conscientemente, estarmos presentes em nós. Quando sentirmos algo menos bom, tentar perceber de onde vem. Antes de tudo, perceber o que estamos a sentir. Só depois perceber a causa. Este é o segredo de estar presente, não deixar as coisas a marinar em nós de forma a mantermos uma energia que não precisa ser a nossa. Se está em nós, passa a ser nosso. Mas não tem de ser.

Aí entra a autoridade e soberania que temos de ser em cada momento para nós mesmos, e decretar:

Tudo o que está em mim e que não é meu, peço para que saia, para que se dissipe e volte ao éter onde possa ser transmutado. Se por algum momento me identifiquei com alguma energia, forma pensamento ou emoção que não é minha, peço para que a deixe de sentir imediatamente. Eu sou dono e senhor do meu corpo, do meu campo energético, da minha mente e do meu mundo emocional. Não mantenho nada que não seja meu, seja por identificação, simpatia, pena ou lealdade. Não sou responsável pela dor de ninguém a não ser pela minha. Não sou responsável pelo sofrimento de ninguém, a não ser pelo meu. Não guardo em mim nada que não precise ficar mais do que o tempo necessário. Comando a minha vida, o meu destino e o meu corpo. Se prejudiquei alguém no processo, peço perdão. Tomo plena responsabilidade e consciência dos processos mentais e emocionais que são meus. Não me envolvo em processos que não são nem têm de ser meus. Liberto-me de toda a responsabilidade de todos os processos que não são meus. Somos todos seres individuais com a sua própria carga. Não assumo cargas que não são nem têm de ser minhas. Deixo ir toda e qualquer afectação que permiti acontecer, por simpatia, inconsciência, compaixão ou lealdade. Fico bem. Não permito interferências de outros no meu campo energético. Não autorizo densidade à minha volta nem ser afectado por ela. Não autorizo ataques à minha integridade física, mental e emocional. Não permito ser afectado por eles. Eu sou presença, eu sou consciência, eu sou luz e alinhamento.

E com isto, imaginar uma esfera de luz branca ou dourada à sua volta, como forma de protecção. Poderá sentir uma paz profunda e o corpo a vibrar depois de fazer este exercício.

Carta ao meu anterior eu

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Se eu pudesse escrever uma carta ao meu anterior eu, diria:

Vive mais. Preocupa-te menos. Aproveita mais, tudo vai chegar, a seu tempo. Vais ter tudo aquilo que sonhaste, mas até lá, por favor, vive e sente. Não te recrimines tanto. Não tentes ser tão perfeita, não tenhas medo de errar ou falhar, isso não existe. Não cries tantas expectativas, não sofras tanto por antecipação. Não vale a pena. O sofrimento não vale a pena. Usufrui do que tens, do que és, do que é possível viver a cada momento. Estás a crescer, és um ser em transformação. Não queiras logo tudo, aproveita cada fase, cada ciclo. Vais ter vários. Todos fazem parte, todos são necessários, todos representam uma faceta tua, uma parte tua. Vais crescer, vais amadurecer, vais viver os teus sonhos. Nunca deixes de tentar. Vão haver períodos de actividade que vais amar, vão haver períodos de pausa, de inactividade, de estagnação e pântano emocional. Também eles passam. Vão haver anos de sofrimento, de solidão, de desespero, de angústia, insegurança e incerteza. Também eles fazem parte, e todos eles vão passar. Todos eles, sem excepção. Só porque estás numa determinada fase, não quer dizer que ela se vai manter no tempo. Achamos que tudo o que vivemos até ali é aquilo que vamos continuar a viver o resto da vida. Não é assim. Vais aprender a sair o sofrimento, da perda, da dor, do não saber, do não ter, e todas as questões que te colocas. Vais sair desses emaranhados mentais e emocionais, esses loops constantes de altos e baixos. Vais aprender a sair de cada um deles. Vais ser forte o suficiente sempre, porque na realidade já o és. Tu és forte. Tu és suficiente. Tu és valiosa. Tu és merecedora. Tu consegues. Tu podes. Tu és tudo o que precisas. Já tens em ti tudo o que faz falta e tudo o que precisas para viver os teus sonhos. Tu vais conseguir. Vais sair dessa, vais chegar onde sempre quiseste chegar. Acredita. Confia em ti. Confia no processo. Só te tenho a agradecer por tudo o que fizeste, por todas as dores, por todas as horas de desespero, porque chegaste aqui, hoje, com tudo, completa, inteira, integrada. Tu fizeste o trabalho que eu precisava. Fizeste-me chegar aqui, chegar onde sempre imaginaste, e eu não te poderia estar mais agradecida por todo o amor que dedicaste no processo de ti, da tua criação, da tua gestação, renovação e crescimento. O trabalho doloroso de parto que nunca mais chegava, que levou anos em processo, grávida de ti, anos a fio. Mas acreditaste sempre. E foi isso que nos trouxe aqui, exactamente onde estamos. Exactamente aqui, onde era suposto chegarmos. E agora? Vamos juntas, eu levo-te pela mão. Não precisas mais fazê-lo sozinha. Eu estou aqui. Eu estou aqui para ti. Vamos a isso? A vida começa agora, sempre.

Viver no plano espiritual vs plano real

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Muitas pessoas fazem terapias holísticas, meditam, fazem yoga, tem crenças lindas, convicções e intuição apurada. Dizem frases como: “é um processo, temos de aceitar, temos de pedir ao universo, temos de confiar, temos de agradecer” e etc., mas esquecem-se da parte prática da vida. Não basta visualizar figuras de luz e o futuro que gostariam de “atrair”. Não basta acreditar e confiar. Não basta aceitar. Há que agir, há que colocar planos práticos e objectivos em acção.

Tudo isso é maravilhoso e valioso, fazer esse trabalho interior. Mas lá fora o mundo existe, e você vive nele. Não pode ficar só no plano mental ou espiritual, colocar os seus desejos num quadro, escrever um diário, clarificar as coisas e perceber os porquês. A vida acontece lá fora, não é dentro de nós, no mundo emocional e mental. O mundo real precisa de nós, precisa que façamos, que ajamos. Não podemos só ser, precisamos fazer também, agir, intervir. Não basta só contemplar, conceber, registar. Se quer ver mudanças, precisa fazer acontecer.

Existe o mundo interior e o mundo exterior. Para fazermos mudanças nas nossas vidas, precisamos aliar os dois, trabalhar e funcionar com ambos. No mundo prático nós fazemos acontecer. No mundo interior nós planeamos, gerimos, pensamos, acautelamos. Mas para ser ser humano completo, não basta ficar nas teorias, nos teoremas, no deixar acontecer. Temos de tomar medidas práticas. Há o ser e o fazer. Ambos são necessários, senão acabamos por ficar num sonho cor de rosa, no transe do pensamento positivo, que só por si produz resultados. Não é assim.

O transe do pensamento positivo leva-nos a acreditar que basta pensar, mudar o foco e a energia dos nossos pensamentos, que basta pedir e as coisas acontecem. O transe da espiritualidade leva-nos a pensar que na meditação tudo acontece, que podemos co-criar o nosso universo através da interpretação de símbolos e sinais, que emergem nas meditações e que isso é o caminho, mas não percebemos que realmente é um transe muito bonito, que vemos coisas lindas, mas que na verdade não nos levam a lugar nenhum nem nos fazem sair do lugar. Apenas a nossa percepção muda e expande, e já é uma parte do processo, mas não é tudo.

Para onde gostaria de ir? O que gostaria de mudar na sua vida? O que quer fazer acontecer? Que objectivos tem para a sua vida? Estude, leia, medite, faça todas as terapias. Mas não se fique só nas respostas, estudos e interpretações dos porquês e dos como ou quando. Pense de que forma quer mudar a sua vida, fazê-la crescer e prosperar. Pense no caminho e nas acções que o levam lá.

É com a sua intervenção, com  mudança de atitude, de comportamento, e não só de percepção, que a mudança se faz. É com terapia de base psicológica, é com mudar crenças e convicções. É substituir fórmulas antigas e comportamentos obsoletos, que o levam sempre ao mesmo lugar. É mexer directamente em si, é desconfortável e coloca-o a descoberto. É ver tudo o que o limita. Não substitua isso por cenários lindos e paradisíacos. Isso é ofuscação, é ilusão, é evitamento. Podemos levar anos a fazer isso, mas é saindo para o mundo cá fora, com olhos reais, que podemos transformar a nossa vida.

Amor desafio e amor segurança

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Há quem diga que amor é só um e ponto, mas eu gosto de criar definições, de ver os vários lados de um conceito ou ideia, decompondo-os. Somos humanos, somos duais, como tal não conseguimos experimentar o famoso e infame amor incondicional a todas as horas e a todos os momentos por todas as pessoas e seres que se cruzam no nosso caminho. Isso é viver num plano que não é o desta terra. Nós, simplesmente, não estamos lá. Não é possível ou tão fácil assim.

Nós criamos expectativas que queremos ver correspondidas, temos necessidades que queremos ver satisfeitas. Somos uns pedintes no amor, na verdade. Queremos tudo, tal como tivemos nas barrigas das nossas mães, onde era seguro, cuidavam de nós, éramos nutridos, e vivíamos de forma fusional com outro ser. Ora a primeira ferida é a da separação, quando nascemos (ou quando há a cisão da mónada). No fundo, quando somos “arrancados” do útero materno ou celestial, e somos colocados na vida, na terra, a experimentar os vários sentimentos e emoções, unicamente nossos.

Fica uma confusão. Atribuímos, ao princípio, toda  a responsabilidade do nosso sofrimento no exterior: “o pai é mau, a mãe é má. Não me dão o que eu quero! Sempre e a todas as horas do dia!”. Logo aí há a primeira desilusão. “Dantes tinha tudo, agora esse tudo é-me retirado cruelmente. Não gostam de mim…”. Ferida da rejeição. “Agora não. Agora não tenho tempo, agora não posso. Não sejas assim, não faças isso. Sê mais como o teu irmão ou irmã” e outras interjeições destas levam a criança sentir-se ferida e rejeitada, ainda que essa não seja a intenção dos pais/cuidadores.

E o que isto tudo tem a ver com o tema do texto? O amor desafio é aquele que nos faz crescer, a duras penas. Que nos faz entrar em confronto com as nossas feridas, para que as possamos ver e para que as possamos tratar e cuidar. Há quem não o queira fazer, e é justo. Dá trabalho, é doloroso, fere o nosso ego e, por consequência o nosso orgulho. Percebemos que somos falíveis, vulneráveis. Faz-nos constatar a pequenez do nosso ser. “Afinal não podemos ter tudo sempre como queremos. Afinal temos de crescer, assumir as nossas feridas, dores e mazelas, e elevá-las a outro patamar”. “Mas eu quero que tudo seja como eu imaginei ou idealizei!”, diz o pequeno ego.

Então há duas opções: ficar ou partir. O amor desafio não tem regra, não tem rotina, não tem roteiro fixo. É desafio constante, é mutável, assume várias formas e contornos. É volúvel. Tem várias faces. O amor segurança é o amor que a maior parte das pessoas escolhe, sem saber. Vive do que é conhecido, do que é estabelecido, do que é seguro e confortável. Mantêm as aparências, segue um roteiro predefinido, é previsível e obedece a regras e expectativas.

Quando digo que o amor desafio tem várias faces, é porque se mostra de variadas formas, nos variados desafios. Se não que ser desafiado, não siga este caminho. Se não gosta de ser confrontado, se não gosta de ser visto a todas as cores, fuja a sete pés. Escolha o amor segurança, onde é tranquilo e ninguém o contesta, onde é raso até onde se vai em termos de sentimentos e emoções. Não há o medo da perda, o medo da rejeição, da traição ou perda de interesse. Há apenas protocolo e convenção social. Só precisa dar a cara e fazer a rotina normal, não se questionando até onde está a ir, se quer ir por ali ou gosta de estar ali. Tudo é tomado por garantido.

O amor desafio é uma estrada esburacada por onde seguimos aos solavancos sem ter muito bem a certeza onde estamos a pisar e para onde estamos a ir. Mas uma coisa é certa, o caminho é para a frente. Não é confortável, mas chegamos a destinos que não são conhecidos pela maioria. Vemos paisagens e temos acesso a sentimentos que não parecem ser deste mundo. Mas há que trabalhar. Há que escavar fundo onde em nós falta amor e confiança, onde existe dor e incerteza. Para poder crescer, só assim.

Ego ferido, ego orgulho e ego adulto

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O ego ferido é infantil. Diz: tu feriste-me, como tal não és meu amigo e eu tenho de me proteger de ti. Vou acusar-te de tudo o que me fizeste, vou ter-te como responsável e tu és o culpado daquilo que sinto. Tu és responsável pela minha felicidade e pelo meu bem-estar. És responsável por cuidares de mim, porque eu preciso que cuides de mim e me faças sentir bem. Precisas fazer-me sentir feliz e amado, aceite e acarinhado.

Este é o ego criança, a parte sua que quer colo, que não cresceu nem se quer responsabilizar pelas próprias emoções. Coloca a responsabilidade fora, nos outros, nas circunstâncias e nos azares da vida. É a parte que reage à rejeição, perda ou abandono, com vitimização, neuroticismo e os porquês: “porque é que me fazem isto, porque é que tenho de sofrer tanto, porque me acontecem tantas coisas más…”, falando ou queixando-se e todos os que quiserem ouvir, sentindo um profundo pesar.

O ego orgulho é arrogante e rancoroso. Diz: “o quê? Fizeste-me isto? Ah então vais ver, vou fazer isto e aquilo, vou vingar-me, nunca mais te falo, o universo vai castigar-te, vais ter o que mereces, vou desprezar-te e mostrar indiferença, vou fazer-te sofrer.” O ego orgulho é radical, corta com todos aqueles que foram contra ele, afasta-se, profere impropérios, sente raiva e ressentimento, deseja a vingança.

O ego adulto ou maduro, por outro lado, procura a negociação, a conciliação. Procura a razão, é democrático. Analisa as partes, afasta-se, se for necessário, para contemplar o que precisa ser feito. Para pesar os pós e contras, para tirar as medidas às circunstâncias, para avaliar quem tem razão ou não. Este ego sabe pedir desculpas, sabe assumir o erro, entende-se como parte do problema, sabe dissociar as partes: o que é seu e o que é do outro.

Não quer dizer que todos estes egos não possam todos fazer parte de uma mesma pessoa, e na verdade até existem, se pensarmos bem. Todos temos a nossa parte criança que quer as coisas do nosso jeito, que quer aprovação e validação. O ego orgulho quando nos enfurecemos com alguma coisa ou alguém que nos tirou a razão ou não nos deixou levar a nossa avante quando íamos determinados a que assim fosse.

Sabedoria é deixar esses egos de parte e convidar o adulto à conversa, para moderar a conversa interior com os nossos pensamentos e emoções, porque a seguir à criança ferida, vem o orgulho ferido. Como tal, há que arbitrar as negociações e as conversações, pôr ordem nas hostes e ouvir as partes lesadas, fazendo-las chegar a acordo amigável. Os dois lados precisam ser ouvidos e reconhecidos. A seguir há que conciliar.

Pensem em dois irmãos chateados um com o outro. É igual.

Sinto, logo existo

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“Penso, logo existo”, célebre frase de Déscartes, que simboliza a ênfase dada na razão e na lógica, enquanto epítome do ser humano. Ou seja, porque penso, sou um ser dotado de inteligência e isso faz com que me conheça, me possa valorizar e possa intervir no mundo. Porque penso e tenho inteligência, posso observar-me como ser vivente. É isso que determina a minha existência: o próprio facto de me poder observar, que me faz ser (e sentir) vivo neste mundo.

Passada essa fase histórica, que baseava a nossa existência na lógica e no conhecimento, vivemos agora na era do “sinto, logo existo”, ou não seriam os animais considerados seres sencientes, que são capazes de sentir. Aqui a lógica é colocada na emoção, no sentimento. Porque sinto, vejo-me e reconheço-me como ser inteligente e valioso, pertencente a este mundo e merecedor de existir e ser reconhecido. A tónica agora é baseada no sentir, no mundo dos sentimentos e no mundo das emoções, que estão profundamente feridos na sua base.

Se só o pensar (a mente) não é suficiente para justificar a nossa existência, se só o sentir também é insuficiente, podemos perceber que somos ambos: pensar e sentir. Ambos justificam a nossa existência, fazem-nos sentir vivos, sentir humanos, inteligentes e capazes de intervir activamente no mundo. Mas lá está, estando o pensar e o sentir arraigados em eras de dor e sofrimento, milénios de crenças distorcidas, e emoções baseadas nesses sistemas de crenças, o que somos nós para além disso, se nos quisermos elevar para além dessa polaridade humana emoção-pensamento?

O “sinto, logo existo” representa também o raciocínio emocional: porque sinto é verdade; se estou a sentir, é porque estou certo. Ou seja, o próprio facto de estar a sentir, representa que tenho razão, e o que sinto torna-se então um facto. Tal como temos a racionalização, que é a nossa interpretação da realidade através do pensamento e raciocínio, temos também a “emocionalização”, que é acreditar no que sentimos como sendo a verdade, apesar dos factos ou das evidências apresentadas.

Nós psicólogos cognitivistas falamos em distorções cognitivas, como a generalização e a catastrofização. A  racionalização e o raciocínio emocional são outras delas. O tudo ou nada, os enunciados “deveria”, as conclusões precipitadas e o pensamento mágico são outras dessas distorções. Todas elas implicam uma forma de pensar, perspectiva ou conclusão que não está baseada nos factos ou na realidade em si, por si só, mas na nossa forma de interpretar e “ler” a realidade, de acordo com aquilo que acreditamos e somos capazes de avaliar a cada momento.

Considerando que a nossa capacidade de apreender a realidade é limitada, a realidade como um todo completo e complexo, é difícil fazermos sempre leituras correctas do que acontece à nossa volta, a respeito do comportamento, atitudes e palavras dos outros, visto que vamos analisar e a reagir a isso tudo baseando-nos nas nossas próprias experiências, expectativas positivas e negativas. Nem sempre o que vejo o outro a fazer, ou o outro a dizer, é realmente aquilo que o outro faz ou diz. Ao interpretar esses comportamentos posso estar a incorrer em viés de interpretação.

Como a minha realidade molda a forma como vejo e sinto, mais são as vezes em que tiramos ilações precipitadas ou erróneas, do que aquelas que vemos e sentimos com clareza. Dominar o pensar e o sentir a respeito dos outros não é tarefa fácil, porque para isso temos de nos “ler” e compreender bastante a nós próprios, para perceber em que momentos estamos a fazer raciocínios emocionais ou racionalizações a respeito do outro, e a projectar no outro as nossas próprias inseguranças ou fragilidades e a responsabilizá-lo por isso: “fizeste ou disseste isto ou aquilo, por isso querias dizer isto ou aquilo”.

Falemos então, aqui, das feridas emocionais. Só um ser ferido fica ferido com o que o outro diz ou faz. E, no fundo, quem não está ferido de alguma forma? Todos incorremos nestes erros ou viés de interpretação. Voltado às feridas, de que forma é que estas condicionam a nossa forma de interpretar a realidade? Normalmente lemos as situações de acordo com as nossas experiências, com aquilo que nos foi feito ou dito. Se tenho a ferida da rejeição, por exemplo, posso, muitas das vezes, interpretar o comportamento do outro com rejeição, ainda que o outro não me esteja a rejeitar.

Exemplo: convido um amigo para ir à praia. Esse amigo não quer, ou não lhe apetece, ir à praia nesse dia. Diz que não. Eu sinto-me rejeitado e excluído. Mas isso apenas porque a ferida da rejeição já lá está. Talvez o pai ou a mãe o tenham feito sentir-se excluído em criança. Agora, interpreta o comportamento do outro como rejeição, quando o outro, por algum motivo, não aceita algum convite. Estes e outros exemplos. Como tal, temos todos muitas feridas destas ao longo das nossas vidas. Várias pessoas nos fizeram sentir abandonados, excluídos, rejeitados, magoados, enganados, etc.

Na verdade, o comportamento do outro é apenas o comportamento do outro, independentemente das suas motivações. Nós é que o interpretamos e sentimos de determinada maneira, seja essa interpretação verdadeira ou não (correspondente ou não ao que o outro de facto fez). Confuso? Não é o que o outro faz. É como eu reajo ao que o outro faz. Como eu analiso ou sinto o que o outro faz. Mente e emoção. E a nossa mente está cheia de convicções, crenças e expectativas que podem ser facilmente feridas.

Para concluir, e voltando à questão acima: o que somos nós para além disso, se nos quisermos elevar para além dessa polaridade humana emoção-pensamento? Somos, ou podemos ser, observadores activos dos nossos próprios processos mentais e emocionais. Questionarmo-nos porque o outro realmente nos feriu. Investigar onde, em nós, está a ferida, para que a possamos transcender, deixando o outro ser o outro, e isolando a nossa ferida do que é comportamento alheio. Cuidando da minha ferida, o outro deixa de ter o poder, ou a capacidade, de me ferir.