O mito do “para sempre”

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Estou a ler um livro muito interessante, de Daphne Rose Kingma, “O futuro do amor”, e nele se fala dos mitos relacionados com amor e relacionamentos. Esperamos que quando nos apaixonamos por alguém, significa que encontrámos o ou a “tal”, e que desse enamoramento, surja uma relação e que essa relação progrida no sentido do casamento ou da união de facto. Viver com a pessoa o resto dos nossos dias e viver uma relação diária sob o mesmo tecto.

Esperamos que, nessa vivência, perdure o “para sempre”. Queremos sentir-nos confortados com a ideia de que teremos um companheiro ou companheira que esteja para tudo, nos compreenda, aceite e acarinhe, estando ao nosso lado nos bons e maus momentos. Alimentamos também a crença de que precisamos alguém para estar ao nosso lado, para que não nos sintamos sozinhos, desvalidos ou desprotegidos. Alguém que nos proteja da dor, do desconforto, da solidão e, inevitavelmente, da morte.

Há uma estranha sensação e expectativa no “para sempre” que nos faz sentir protegidos até da morte (“até que a morte nos separe”), considerando que se o amor é bonito, forte ou firmado em pedra e cal (registo/igreja), nada nos pode separar da pessoa amada, porque há um acordo, quase divino, de que o casamento perdurará para sempre. E nesse para sempre, não há morte. O que é o para sempre senão a eternidade?

Existe esse afã de homens e mulheres procurarem companheiros para a vida. Sim, há quem tema a intimidade e o compromisso, mas há sempre o desejo de encontrar a outra metade da laranja, independentemente do medo da perda, da traição ou do sofrimento que as relações têm o potencial de trazer. Qualquer pessoa sonha em encontrar a pessoa querida e especial que leve todos os males para longe e faça provar de que a felicidade é possível, real e alcançável.

Na procura de viver este mito, esquecemo-nos de que ele foi herdado socialmente e culturalmente. Está enraizado nas nossas células, programado na nossa psique. Desde os nossos ancestrais, que precisavam do casamento ou união de facto para poder sobreviver e prosperar. Antigamente, a esperança média de vida era bem baixa, os recursos eram escassos, as pessoas tinham de, necessariamente, agregar-se, juntar-se, ajudar-se, para poder criar alguma coisa. Eram precisos esforços conjuntos.

Hoje em dia não. Cada um tem o seu papel na sociedade, trabalho, rendimentos, podemos alugar ou comprar casa, carros que nos levam onde precisamos, supermercados onde compramos tudo feito, há creches e escolas, ATL para os miúdos, etc. A sociedade está organizada de forma a providenciar o máximo de independência e liberdade aos seus elementos.

Não precisamos já do casamento. Podemos viver perfeitamente bem sozinhos. Não há já essa necessidade em termos práticos. Apenas emocionais ou afectivos, por não querermos estar sozinhos, querermos um parceiro para a vida, que esteja ali para o que for preciso e nos ajude nas coisas do dia-a-dia.

Mas o que é que este mito provoca na vivência das relações modernas? Frustração, muitas vezes raiva, revolta, sentimentos de impotência e desvalor. Actualmente, não é razoável acreditar ou convencer-se de que é possível o “para sempre”, porque, actualmente, isso não é a norma, mas a excepção.

Vivemos várias relações ao longo das nossas vidas, e convencemo-nos de que, se isso acontece, é porque não estamos a ser capazes de alcançar o que, aparentemente toda a gente tem, ou quer ter: um companheiro ou companheira para o resto da vida (o que, normalmente, até não acontece).

Não há porque manter-se em relações infelizes, abusivas, de desinteresse, ou por medo de se ficar sozinho. Há milhões de pessoas no mundo, vivemos muitos mais anos agora, existem imensas oportunidades de relacionamentos, sob variadas formas, e precisamos começar a encarar a realidade das relações modernas: elas devem existir enquanto são boas, nos fazem bem, se cresce junto, há harmonia, respeito, compreensão, diálogo e todas as coisas necessárias a uma boa relação, que cabe a cada pessoa ou casal decidir.

Como tal, há que desprogramar essa imposição ou condicionamento social. Vivemos em tempos modernos agora, as crenças antigas não se aplicam aqui, ou não se devem aplicar. Devemos considerar a realidade das coisas. O amor é bom, faz-nos bem, é desejado e devemos vivê-lo. Mas talvez tenhamos de nos habituar à ideia de que ele existe condicionalmente, até certo ponto, e tem uma duração variável para cada pessoa, casal ou forma de relacionamento.

Que possamos viver as nossas relações de forma livre, sincera, de coração aberto, sim, mas também, deixá-las partir quando não servem mais o seu propósito, e encarar o estar sozinho como uma condição transitória e não com um fatalismo. Há movimentos nas relações e entre relações.

Tudo é fluxo, tudo se move e transforma. O estar sozinho é condição essencial do ser humano. Somos um, um todo organizado e coerente, uma estrutura autosuficiente. Não precisamos do outro para nos completar, precisamos do outro como companheiro de jornada, se assim nos fizer sentido.

A quem eu sou hoje, um muito obrigada

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Hoje choro por todas as mulheres que deixei de ser, todas as partes que deixaram de existir e deram o lugar a outras. Choro por todos os sonhos, todos os ideais e todos os potenciais não vividos. Todos os romances que não puderam ser, todos os amores interrompidos e todos os caminhos que não pude percorrer.

Choro por todas as eus que existiram, todos os seus sonhos e aspirações, tudo o que quiseram mas não conseguiram. Mas choro, sobretudo, por todas aquelas que quiseram existir mas não lhes foi possível. Todas as possibilidades, todos os potenciais, deram lugar a só um. Constantemente e continuamente, sempre só um caminho pode ser percorrido. O caminho presente, decorrente de todas as escolhas e decisões, de todas as opções possíveis em cada momento.

Somos encaminhados por caminhos sinuosos, quase influenciados, pela nossa mente, pelas nossas dúvidas e pelas nossas certezas a cada momento, pela opinião ou convicções dos outros, pelo nosso coração também, por uma mistura de tudo… E eu cá tenho sofrido vários lutos. Mais do que pessoas ou situações de perda, de mim própria. As várias Paulas que se foram perdendo, que se foram transformando, actualizando em novas versões.

Cada versão que foi substituída – porque duas versões não podem coexistir por tempo indeterminado – deixou um espaço, um vazio, que foi totalmente ocupado por uma nova Paula, mais forte, mais segura, mais confiante, focada, motivada, guiada pela força de cem cavalos, e pela força de todas as barreiras derrubadas, de dor, de autosabotagem, de dúvida, incerteza e insegurança, maculada por todas as coisas que deveria ter feito antes, ou conseguido antes, ou até mesmo deixado de fazer, e não lhe foi possível.

É por essa Paula que choro. Aquela que só conseguiu agora, e por aquela que finalmente conseguiu e que chora por todas as outras. Não sei quanto a vocês, quantas de vocês já foram ou já existiram, mas o processo de morte e renascimento é moroso, custa a largar a velha pele, existe um novo assustador, e um velho que nos vemos a desprender, a deixar para trás. Um velho querido… Uma velha forma de ser, sentir, pensar e agir.

É essa a verdadeira morte e renascimento, ainda em vida, que podemos fazer. Criando novos ciclos. Toda a minha vida até aqui, uma sucessão de morte e renascimento, a cada dia, a cada dia que pensei em desistir, porque nada parecia ser suficiente, nada me parecia fazer chegar lá, àquele sítio que idealizei, sonhei e imaginei. Tantas as lutas, aparentemente inglórias, que travei comigo, com os meus demónios interiores. São tão fortes… Seduzem-nos, aliciam-nos, alimentam-se de dor e sofrimento, e apego, essencialmente apego.

Apego ao que podemos ser a cada momento, que nos leva a acreditar que não é possível mais, que temos limites, que não podemos desejar mais, melhor, querer mais e melhor, porque sim, por causa da fatalidade do destino, pelo karma, porque temos de aceitar o que nos é imposto, por isto, por aquilo, e por tudo aquilo que não sabemos mas tentamos descobrir.

Quantas consultas, terapias, vozes e opiniões formaram e deram forma aos meus limites, limites que eram os limites dessas mesmas pessoas e terapias (e das minhas, ao compreendê-las e escutá-as), das concepções e compreensão dessas mesmas pessoas e terapias, que me diziam que eu tinha de aceitar, que as coisas eram como eram, que se eu trabalhasse ou escavasse o suficiente chegava lá… Mas nunca me disseram que as minhas crenças me criavam a mim, que o que eu acreditava sobre mim moldava o meu destino e o meu caminho, que eu podia recriar-me na medida do meu ideal.

Disseram-me que levava tempo, e eu entendia que o que me estavam a querer ensinar era o conformismo, que era difícil mudar, que tinha de ter calma e esperar. Mas eu mudei… Mudei quando me afastei de todas essas vozes, mudei quando deixei de as ouvir a elas, e passei a ouvir-me a mim, tal rebelde inconformado. Pensei para mim: “não pode ser”, e evadi-me. Evadi-me de conceitos, religião, ideologias, movimentos, correntes, grupos e teorias. Teorias explicativas, encarcerativas. Transformei-me. Julguei ter ouvido a mais, seguido demais, deixado de ser quem eu era (ou podia ser), na tentativa de me descobrir e descortinar.

Na verdade, o que descobri foi: eu sou quem eu quero ser e naquilo que me quero tornar. Quando a minha voz começou a ser mais forte de que todas as outras, eu mudei. Eu mudei de dentro para fora e eu passei a Ser. Ser mais quem eu era, menos o que outras pessoas pensaram que eu podia ser, ou me diziam que eu poderia ser. Passei a não me conformar, não me conformar com os limites auto(ou não)impostos. A contestar, a desacreditar de palavras mansas, de frases feitas, de convicções alheias.

E agora sou mais eu. Não sem erros ou defeitos, mas aquilo que posso ser. Despojada de falsas ideologias, espero. Todas as pessoas e todas as terapias fizeram parte da massa que me constituía e me dava força e forma. Todas elas me forçaram a rebentar com as costuras, a rebentar os diques da minha alma e do meu coração. Também da minha mente, que, ainda aturdida, olha com espanto o resultado.

E isso, meus amores, é tudo o que vos desejo. Rompam com limitações! Sejam quem são, sem limites. Não permitam que ninguém vos diga quais os vossos. Já basta aqueles que acreditamos que temos.

(Publicado hoje, mas escrito há uns dias atrás, antes do final do ano, em forma de despedida de 2018).

Apoio e protecção

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– Devo apoiar ou dar protecção à criança? O que é melhor? São coisas diferentes ou é a mesma coisa?

– Deves apoiar… Protecção dá a entender que precisas proteger a criança a todo o custo de sofrer, de errar, e colocá-la, novamente, numa redoma, para que não se magoe…

– Mas ela precisa disso!

– Precisa? Ou és tu que precisas de te sentir segura e protegida?

– Talvez…

– Então eu sugiro que apoies essa criança no processo dela, no crescimento, estando presente só no que é necessário para que ela, daqui para a frente, possa crescer por ela própria, cometer os erros que tem de cometer, porque a vida, no fundo, é isso… Tentativa e erro. É assim que aprendemos. Se lhe retirarmos essa liberdade, e espaço, ela nunca vai aprender a subsistir por ela mesma e estará, para sempre, dependente de ti e da tua protecção…

Este diálogo surgiu no decorrer de um exercício de criança interior. Óbvio que se tivermos filhos devemos apoiá-los e protegê-los no que eles necessitarem. Mas a protecção não deve ser superprotecção. Todas as crianças precisam de uma forma de protecção, pois são seres indefesos que precisam, e são dependentes de nós até determinada idade. Precisam também de ter liberdade e espaço para cometer os seus erros e aprenderem com as consequências, mas perceberem, igualmente, que podem ir mais além. Que é possível e desejado.

Na sobreprotecção, ensinamos o medo, a dependência, a falta de confiança, a insegurança e a ansiedade, a expectativa temerosa. Se não dermos asas a uma criança, ou as cortarmos sucessivamente, teremos um adulto medroso, ansioso, com dificuldades de enfrentamento ou assertividade, com falta de firmeza pessoal ou autoconfiança, que duvida de si mesmo. Há sempre excepções e todas as pessoas podem ultrapassar os seus medos e as suas limitações, se assim o quiserem e treinarem para isso.

Todas as pessoas com quem trabalho sabem que sou apaixonada pelos exercícios da criança interior. Todos beneficiaríamos de os fazer, para contacto com todas as formas de vulnerabilidade e sentimentos sobre nós mesmos. Acolher todas as nossas partes com amor é o exercício mais curativo que conheço. O delicado equilíbrio entre o dar espaço e liberdade, e proteger ou defender é um movimento de dar e refrear. Também precisamos de nos desafiar, de nos exceder, por vezes. E isso não pode ser feito numa medida de protecção e contenção constantes.

Há mergulhos no vazio e em precipícios, que não sabemos onde vão dar ou no que vão resultar, mas que precisamos de dar. Ao nos expormos mais e mais, enfrentarmos o que é de enfrentar, criamos resistências, forças, capacidades, qualidades, e autoconfiança, autoestima, quando nos provamos a nós mesmos que é possível ser mais, fazer diferente e chegar onde sonhamos. Dar o salto é a melhor forma de crescer, para fora e para dentro. Atreva-se a fazê-lo e veja os resultados que pode trazer para a sua vida.

As mães (ou pessoas) narcísicas

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As mães narcísicas, mas também os pais, os filhos, irmãos, a tia, a avó ou o sogro ou a sogra, são personagens difíceis. Perfis inflexíveis, irredutíveis, altivos, com incapacidade de assumir o erro, ou pedir desculpas. São as eternas vítimas, que ninguém compreende ou dá o valor suficiente, pessoas orgulhosas, por vezes manipuladoras (com ou sem consciência disso), que esperam obediência, submissão e correspondência dos seus familiares. Correspondência a desejos, caprichos e necessidades, porque este tipo de pessoas só consegue ver as suas próprias necessidades.

Sim, são o tipo de pessoas egocêntricas, cuja estrutura de personalidade está moldada de uma determinada forma, que não lhes permite flexibilidade, empatia, compaixão por outros, introspecção ou espírito crítico sobre si. Fazê-lo é altamente destruturante e ameaçador para estes perfis. Estas estruturas estão organizadas sobre si mesmas sob a forma de defesa e protecção, “eu vs o mundo ou os outros”. Não existe meio termo. Estas pessoas não têm a capacidade de ver para além do seu próprio conceito, ideia, crença ou expectativa.

Estas pessoas têm altas expectativas sobre os outros, sem qualquer tipo de merecimento, por vezes. Ou seja, não fazendo nada em concreto para merecer o suporte ou o apoio de outras pessoas, nomeadamente dos familiares, que tentam desesperadamente agradar ou aquiescer às vontades, muitas vezes, exageradas ou impensadas, relativamente ao bem-estar de outros. O que quer dizer que só as suas próprias necessidades importam e devem ser, a todo o custo, satisfeitas.

A consequência de não se prestar vassalagem é o desprezo, a vitimização, a retirada de amor ou afecto, a indiferença e a culpabilização (e às vezes, alguma forma de vingança pessoal). Estas pessoas não aceitam ou respeitam, ou sequer compreendem, a noção de espaço pessoal ou limites. Quebram todos eles, todos os protocolos porque não há a capacidade de se colocarem no lugar do outro ou de se questionarem sobre os próprios actos ou atitudes. Tudo é justificado. “Se não fazes o que preciso, não mereces o meu amor”, é o pensamento inconsciente e a atitude que ostentam.

Como se lida com estas pessoas? Primeiro há que identificar o padrão patológico de funcionamento relacional destas pessoas, observar, e afastar-se emocionalmente. Tratar com cordialidade, respeito, mas assertivamente, mantendo limites claros. Não entrar em discussões ou argumentações fúteis. A pessoa narcísica vai gostar? Não, não vai. Normalmente há a fase de amuo, de queixas a quem quiser ouvir, e, posteriormente, agir como se nada se tivesse passado, nunca, jamais, assumindo a culpa sobre o que seja ou mencionando o assunto novamente.

As outras pessoas devem acomodar-se, não mencionar mais o sucedido, e o reino voltará novamente à paz, com este rei ou rainha tirano, com dupla moral. Há aqui um complexo de governante, aristocrata ou deidade. “Eu acima de tudo o resto”. Não há a capacidade de olhar para dentro, reconhecer o erro e emendá-lo. Mesmo que haja, há a dificuldade em assumi-lo e pedir desculpas por ele.

Pode quebrar-se este ciclo vicioso e pode evadir-se deste reinado, só tem de aprender a dizer não, a reconhecer as suas próprias necessidades e fazer aquilo que é justo, e certo para si. Você não tem a responsabilidade perante aquela pessoa, se essa pessoa é adulta. Cada um deve assumir o papel que é seu, e ser responsável por ele. Quando não é capaz de tal responsabilidade, não pode ser você a suportar esse mesmo papel.

Como quem quebra correntes, há a necessidade de reconhecer o seu valor, aquilo que precisa para ser feliz e fazê-lo, a todo o custo, sem se deter sob a ameaça de amuo, vitimização ou culpabilização da outra parte. Mesmo que essa outra parte não pareça compreender, ou aceitar as suas necessidades. Na verdade, não precisa fazê-lo. Só você pode viver a sua vida, preferencialmente, sem se sentir culpada. Caso não consiga romper esses grilhões sozinha, procure ajuda para poder desconstruir estes conceitos.

Aquilo que tomamos como certo

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Aquilo que tomamos como certo não nos deixa evoluir. Há que questionar, ter espírito crítico. Se nos submetemos a tradições ou hábitos culturais, podemos estar a repetir as mesmas coisas, e da mesma forma, desde os tempos medievais. E é o que acontece em relação a muitas práticas modernas, com origens nesses milénios atrás.

Falo dos funerais/velórios. Fui a um recentemente e fiquei chocada com a disposição da sala do velório: o caixão no meio, cheio de flores em cima, e cadeiras/sofás dispostos de cada lado, fazendo duas filas. As pessoas sentadas em um dos lados, todas viradas para o caixão e sentadas lado a lado.

Primeiro, não promove a circulação de pessoas, o convívio e o diálogo. As pessoas ficam a olhar para o vazio, ou para o nada, imersas em pensamentos sobre a sua própria existência e finitude, pensamentos sobre outras pessoas que já partiram, e memórias de outros funerais e perdas. Fica tudo encerrado em si mesmo e não há partilha de sentimentos.

Quando alguém chega, todos olham, e essa pessoa terá de cumprimentar um por um, respeitando a ordem da fila dos bancos, mesmo que não conheça, e sentar-se como todos os outros, com o máximo de discrição possível para não perturbar o estado de ânimo. Há silêncio, fechamento, introspecção e vazio.

Segundo, ninguém come. O corpo chega às horas que chegar e o limite é a meia-noite para se estar ali. As pessoas vão chegando, prestando as suas condolências, sentando-se, e o martírio é aguentar estoicamente até que se fechem as portas da morgue. Penso que deveria de haver águas e acepipes e as cadeiras estarem dispostas de forma diferente, de forma a todos poderem circular e conversar, estarem em pé e haver movimento.

Os funerais na América são assim, e na Irlanda nem se fala, é uma festa autêntica. Mas o povo português é pesado nos seus rituais de morte, quase masoquista. Há uma cruz que se deve carregar, um sofrimento auto imposto, há as mulheres carpideiras que, graças a Deus não devem ter sabido deste funeral, para irem chorar as mortes de quem nem conhecem, porque é tradição e, na tradição, deve ser feito (porque sim).

Não sei quando se instalou tal tradição dos velórios (quem quiser saber mais sobre o assunto pode ler aqui), mas o que é certo é que me parecem desactualizados e desenquadrados da vida moderna. Toda a gente aquiesce e se submete a essa tradição, sem saber nem como nem porquê, sem se questionar. Eu só sei que quando lá entrei só pensei em levantar toda a gente, mudar a disposição das cadeiras e pôr toda a gente a falar, despertando todos daquele transe do “estamos aqui, temos de sofrer e lamentar quem partiu”, mesmo que não conheça bem a pessoa e esteja ali só para apoiar a família.

Mas como eu apenas questiono as tradições e não participo na sua mudança ou transformação, não fiz nada disso. Questiono-me por todas as coisas que tomamos como certas, que, na realidade, são a massa e a estrutura de todas as sociedades e culturas. São aquelas coisas fáceis e simples, que já estão instituídas e apenas temos de seguir e comparecer. De certa forma ajuda, a organizar e sustentar a nossa vida social, mas intrigou-me profundamente.

Considerando que a última vez que tinha ido a um funeral foi há cerca de 20 anos, percebi que as coisas mantêm-se. Apesar de não me identificar com estas práticas, vejo que elas são necessárias para manter a ordem e a estrutura. As pessoas precisam habituar-se à ideia que aquela pessoa já não vai estar cá, assegurando-se disso no velório, fazendo as suas últimas despedidas e permitindo que essa despedida seja feita de forma gradual enquanto se caminha atrás do caixão e, no momento final, quando o caixão entra no chão para ser enterrado, ou então colocado em um gavetão, que é depois encerrado.

E são essas as tradições na hora da morte, os nossos rituais meio macabros, necessários de alguma forma, mas não sem necessidade de reformulação, a meu ver. E quem diz rituais fúnebres, diz outro tipo de tradições que, se não contestadas ou questionadas, são repetidas até à eternidade. Mas os costumes e tradições mudam, evoluem, transformam-se, e ainda bem. Sem mudança não há evolução.

Nós crescemos, mudamos, evoluímos, transformamo-nos e, como tal, as tradições e os costumes devem acompanhar. Sem mudança não há transformação nem crescimento. As sociedades também precisam disso. Claro que há estruturas difíceis de mudar, a política, o ensino e a religião, por exemplo. A própria mentalidade é onde reside a capacidade, ou não, de mudança. É mudando mentalidades que se podem introduzir alterações e mudanças a estruturas.

Quem está no poder, procura esse mesmo poder. E quem procura esse poder, normalmente, são estruturas rígidas, obsoletas e inflexíveis. Podemos ver alguns presidentes de grandes impérios como representativos do que estou a dizer. E quem está no poder não pretende mudanças, vejamos a indústria petrolífera, por exemplo. Em extinção. Quantas fontes de energia alternativa já foram descobertas e testadas entretanto?

Uma sociedade informada, esclarecida e consciente, tem a capacidade de introduzir a mudança. Pouco a pouco, contestando, questionando-se, pensando, reflectindo, fazendo diferente, pode fazer-se muito. Podemos fazer muito com muito pouco, apenas com a nossa capacidade crítica sobre o que é instituído. Falar sobre isso, seguir correntes de mudança, sermos ecológicos, preocupados, reduzirmos o consumismo, introduzindo pequenas mudanças. Se cada indivíduo transformar a sua forma de viver, pode transformar o mundo com o seu exemplo.

Somos seres sociais, e, como tal, aprendemos com o exemplo. Se mais e mais pessoas seguirem uma determinada tendência, ou introduzirem determinadas mudanças de estilo de vida, mais e mais seguem o exemplo. Se “contaminarmos” mais e mais pessoas com as nossas mudanças, mais e mais pessoas vão passar a pensar, e ver, como nós. E aí sim, se dá a verdadeira evolução, e revolução. De ideais, valores e hábitos.

O mês de dezembro

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O mês de dezembro é um mês especial. Encerra em si vários potenciais ou ideais: a família e o futuro. Na virada do ano, há quem faça anos, somando ao, por vezes, forçado ajuntamento de Natal, e ao contemplar o que se fez ao longo do ano, revendo conquistas (ou não) e projectando-se no novo ano. E isso pode trazer alegria e felicidade, ou, pelo contrário, frustração, tristeza ou desilusão.

Para muitas pessoas, esta altura é o terror. Há famílias que não têm um funcionamento caloroso ou harmonioso. Há casas e pessoas pouco acolhedoras, famílias ou elementos com os quais podemos não nos identificar, famílias separadas, pessoas separadas, e tem de se cumprir a tradição, senão o mundo colapsava. Prendas obrigatórias que têm de se comprar, nem que seja para o sobrinho-cunhada-afilhado-mãe-namorado-melhor amiga, sei lá.

Há uma certa obrigatoriedade de se viver o Natal. Há os jantares de amigos, de colegas, de trabalho. Há o frenesim das compras, das prendas, das comidas. As ruas estão decoradas, os shoppings cheios, as pessoas cheias de “Boas Festas” nos lábios e na intenção. Bolos rei por todo o lado, azevias, filhós e pais natal.

Peripécias de Natal à parte, que são só dois dias (na verdade, uma noite e metade de um dia), o que ainda traz mais peso (mas menos stress do que o Natal) é mesmo o Novo Ano. Com o fim do ano vem o balanço de tudo o que se fez, conquistou ou deixou de conquistar. Pode vir culpa, recriminação, tristeza, desânimo por isso, ou, por outro lado, alegria, entusiasmo, apreço, autoconfiança e optimismo.

Consoante como correu o ano em termos de trabalho, saúde e relacionamentos, se fizemos o que nos propusemos ou não, se mantivemos o foco ou não, se concretizámos desejos ou aspirações ou não, vai determinar o nosso estado de ânimo nesta época. Se aconteceu, ou fizemos mais do mesmo, vamos ter uma sensação de que ficámos em falta, em falta para nós e para com algum compromisso interior que não honrámos.

Independentemente de como se sentiu, queixo para cima! Todos os dias são uma nova oportunidade de criar expectativas, por favor não tenha medo de as criar para não se desiludir, vale sempre a pena quando insistimos naquilo que queremos, seja uma relação, uma forma diferente de se relacionar consigo, um novo hábito, tornar-se saudável, comer equilibradamente, perder uns quilos, ser feliz. Todos merecemos.

O novo ano vai servir para isso, sacudir o pós dos planos, da tal bucket list, criar objectivos, sejam eles quais forem. Decidir as férias e o que fará nesses dias, seja um passeio, uma viagem algures, tirar um curso, fazer um retiro, ler aqueles livros que tem na prateleira à espera que seja o dia de os ler. Há que criar expectativas, planos, senão o que é o futuro senão um deserto existencial, uma folha em branco ou uma continuidade do que se passou?

Serve para todos, em todos os contextos. Pode preferir que o futuro seja essa página em branco, que na verdade é. Mas também pode lá colocar marcos, milestones, de sítios onde quer chegar em termos de desenvolvimento pessoal, concretizações profissionais ou outras, você escolhe.

Há que ter a visão para lá chegar, aproveitando para trabalhar a sua relação consigo e com os aspectos familiares que não estão tão bem em si, arranjando forma de se conciliar com a família que tem, caso seja necessário. Por isso, que esta altura sirva para, ao menos, isso. Chegar a decisões de melhoria ou alteração de padrões que não lhe trazem satisfação.

Ser mãe e pai das emoções

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Sim eu sei, elas são chatinhas, corrosivas, impertinentes, birrentas, perturbam a nossa paz, aparecem sem serem convidadas, permanecem mais tempo do que é necessário e, quando estamos descansados, voltam uma e outra vez, até ao infinito. Engane-se quem julgue que um dia isso acaba ou acalma, não é verdade. Por mais trabalho de autodesenvolvimento que faça, as emoções fazem parte da nossa malha e serão eternas companheiras.

As emoções fazem parte de nós, da nossa humanidade. Algumas emoções já foram estudadas/comprovadas nalguns animais, mas é o que nos faz ser humanos e é o que nos faz sentir. Servem de alarme, de aviso, de lembrete e servem para nos mostrar o mundo, sentirmos o mundo, as situações e as pessoas. Servem para antecipar e para apreciar os momentos. Vêm de um sistema ancestral, um sistema límbico.

Nós não gostamos de estar tristes, revoltados, com raiva, ou frustrados. Chamamos-lhes emoções negativas: ficamos tristes por nos sentirmos tristes, frustrados porque estamos frustrados, e revoltados porque nos sentimos desanimados. Costumo dizer que podemos criar um espaço entre o que sentimos e o que pensamos, entre a emoção e a racionalização dessa emoção, que é o que costumamos fazer. Como tal, mantemos por mais tempo do que o necessário esta mesma emoção, e a isso, podemos dar o nome de sofrimento (quando é uma emoção dita “negativa”).

Mas mais que criar esse espaço, bastante útil e necessário, a meu ver, é acolhermos essas emoções, tal como um pai ou mãe amorosos acolheriam os seus filhos apoquentados com alguma coisa. E esta é a beleza da autoestima e autoaceitação também: não criarmos resistências ou defesas em relação às emoções, ou então elas acumulam-se que nem lixo emocional ou bichinhos papões debaixo da cama, povoando os nossos sonhos e provocando os nossos medos.

Quando nos permitimos sentir sem julgamento, criando o tal espaço, podemos, de seguida, acolher essas emoções, deixando-as ser exactamente como elas são. Ruidosas, desesperadas e espaçosas. Quando lhes sorrimos e dizemos: “está tudo bem, conta lá, o que se passa?”, elas choramingam em nós, libertando-se do peso e transformando-se em algo leve, até que se dissipam, não deixando quase memória.

As emoções deviam ser assim, aceites, acolhidas e reverenciadas, sendo ouvidas e compreendidas, que é, no fundo, o que elas pedem: compreensão e acolhimento. Ao fazermos isso, permitimos que a tempestade passe, não nos levando com ela. Se racionalizarmos, estamos a criar mais e mais do mesmo, indo rebuscar no baú das memórias, porque é isso que o cérebro faz, pesquisa por associações semelhantes e traz mais do mesmo. Se pararmos o circuito, as emoções não se detêm em nós, et voilá! De bem com a vida novamente.